Chad Batka / NYT
Chad Batka / NYT

Chris Cornell, em entrevista, mostrava a dúvida: ser a voz do rock ou de baladas ao violão?

Horas depois de show com o Soundgarden, banda com a qual despontou como uma das melhores vozes do rock, músico tira a própria vida em um banheiro de hotel

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

18 Maio 2017 | 19h00

Os 15 minutos de entrevista tiveram seu início adiado quatro vezes. Arrastou-se uma extensa troca de e-mails desde 6 de outubro, uma quinta-feira, previamente marcada para começar às 11h30. Foi 15 dias depois, às 16h30 que o telefone tocou.

Chris Cornell, de 52 anos, estava em Nova York, a quilômetros de Miami, onde fixou moradia ao lado da mulher Vicky Karayiannis e seus filhos, Toni e Christopher, de 12 e 11 anos, respectivamente.

Cornell, depois de tanto postergar a conversa, queria falar. Sobre seus demônios? Provavelmente. Em um tempo tão parco, conseguiu revelar estar diante de duas personalidades artísticas, uma com o Soundgarden, banda com a qual estourou, ainda nos anos 1980, e outra em sua carreira solo.

Com os companheiros de grunge, ele era um. Sozinho, como veio na última turnê pelo Brasil, em dezembro, passando por Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo, era outro. Das 13 questões preparadas, houve tempo para cinco delas. “As entrevistas, para mim, sempre foram difíceis. Para mim, elas precisam seguir como uma conversa”, lamentou ele, antes de dizer “até a próxima, vejo você no Brasil”. 

É nesse mundo que Cornell vivia. O universo do entretenimento, de entrevistas cronometradas e de um distanciamento criado para proteger o artista. Provavelmente, tudo isso tenha impedido que se soubesse quais fantasmas atormentavam a cabeça de uma das maiores vozes a existir no rock, o melhor cantor do grunge.

Cornell foi o terceiro vocalista do chamado “big four” do gênero a morrer. Antes, foram-se Kurt Cobain (em 1994) e Layne Staley (em 2002). Restou Eddie Vedder, do Pearl Jam. 

Tal qual Kurt Cobain, Cornell tirou a própria vida. Segundo as informações dadas pelos legistas da polícia de Wayne County, em Detroit, o músico foi encontrado desacordado, no chão do banheiro do quarto de hotel onde estava hospedado, o MGM Grand Detroit, por volta da meia-noite, entre quarta-feira, 17, e quinta. Tinha uma faixa enrolada no pescoço. O relatório completo ainda não foi divulgado 

Cornell levou consigo o que o amaldiçoava. Jamais saberemos do que se tratava. Por algum motivo, não foi capaz de conviver com aquilo. Tinha 52 anos, uma carreira sólida no rock com o Soundgarden, e uma caminhada interessante como artista solo, arriscando-se cada vez mais a mostrar quem era, de fato, o dono daquele vozeirão, tantas vezes escondido pela parede sonora das guitarras de Kim Thayil, expert na arte de transformar barulho em melodia.

O vocalista ainda tentava encontrar o espaço para cantar, se o faria em voz e violão ou em qualquer outro formato – o maior escorregão musical foi chamar Timbaland, tarimbado produtor do pop, para conduzir as gravações do álbum Scream, um equívoco espalhafatoso, mezzo-eletrônico, mezzo-dance, de 2009.

O caminho sempre esteve entrelaçado com o grunge, com o rock-n’- roll livre de amarras, poluído e visceral surgido na industrial Seattle. O Soundgarden veio antes das outras bandas de sua geração, como os já citados Pearl Jam, Nirvana e Alice in Chains, ainda em 1984. Sua evolução, tal qual a da banda, é notável.

Uma voz como a de Cornell, rouca e de alcance invejável nas áreas mais altas e notas mais agudas, era mais palatável do que outros vocalistas notáveis do movimento em ebulição na cidade. O Soundgarden foi o primeiro dos quatro grandes grupos a assinar com uma grande gravadora, a A&M Records, a mesma do Guns N’ Roses, depois do bom desempenho do álbum de estreia, Ultramega OK, de 1988. 

Aceitaram o mainstream e poucas concessões fizeram diante disso. Os álbuns Badmotorfinger e Superunkown, de 1991 e 1994, trouxeram hinos de uma geração. No primeiro disco, vieram Outshined e Rusty Cage, as duas carregadas de distorção e berros por parte de Cornell. Com Superunkown, ele foi capaz de mostrar identidade de cantor, de fato. Canções The Day I Tried to Live, Black Hole Sun e Fell On Black Days indicavam as nuances de uma voz de alcance agudo surpreendente. 

Cornell era uma cria do seu hábitat. Tinha a sujeira correndo nas veias e nas cordas vocais, mas queria mais do que isso. Até mesmo seu projeto com integrantes do Rage Against the Machine, o Audioslave, apresentava menos peso que o Soundgarden. O melhor trabalho da carreira solo é um disco chamado Songbook, no qual ele canta desnudo de outros instrumentos que não fosse seu violão, registrado em várias apresentações em uma turnê pela América do Norte, durante 2011.

“Estar em uma banda como o Soundgarden impõe certas posturas, um personagem diferente daquele que mostro em shows acústicos”, disse ele, na última entrevista ao Estado. Cornell colocou um fim prematuro na carreira e na dúvida que o atormentava: ser um cantor de rock ou de baladas ao violão? Se, naqueles 15 minutos, ele tivesse perguntado, a resposta seria simples. Que fosse somente um cantor. 

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