Choros e valsas de primeira, sem virtuosismo e com sentimento

O jovem bandolinista Danilo Brito reúne a nata instrumental neste fim de semana

Livia Deodato, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2009 | 09h57

Melodias lindíssimas já ressoaram em seus sonhos, a ponto de, certa vez, fazê-lo acordar no meio da madrugada e chorar. Algumas vezes, elas entram como trilha sonora produzida por uma orquestra completa, outras vezes saem das cordas do seu próprio bandolim onírico. O único lamento de Danilo Brito, no entanto, é jamais ter conseguido reproduzir em plano real a música que ele mesmo criou. "Eu não sei transcrevê-la para o papel. Eu a esqueço rapidamente ou lembro de apenas alguns trechinhos. Porque, quando eu estou sonhando, a música é muito complexa, ela aparece com toda aquela instrumentação e eu não dou conta de gravar tudo aquilo."

 

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Ouça trecho da música Chovia

Em compensação, quando está acordado ele consegue memorizar facilmente - e não é muito raro uma melodia ?pronta? surgir como um passe de mágica na sua cabeça. Assim nasceu Chovia, que integra o terceiro e mais recente álbum de Danilo, Sem Restrições, e será apresentada em shows com convidados especiais neste fim de semana no Auditório Ibirapuera. "Eu estava na varanda, era uma tarde chuvosa. Naquele horário das 17, 18 horas, que geralmente bate uma tristezinha. Aí veio a melodia pronta e ainda pensei: ?A música deve durar cinco minutos.? E foi o que aconteceu", relembra.

O músico de 24 anos, que gravou o seu primeiro CD aos 13 anos e foi vencedor do extinto Prêmio Visa aos 19, nunca teve aulas. Aprendeu a tocar cavaquinho e depois passou para o bandolim ouvindo os LPs de seu pai, Demócrito Brito, azulejista aposentado e músico nas horas vagas, cujas composições Boca de Caieira e Viúva Assanhada também figuram em Sem Restrições. Dominguinhos, convidado a empunhar o seu acordeom na primeira delas, soltou um sonoro: "Ô forró bom da ?muléstia?!", após o término da gravação. E o pai de Danilo suspirou então confiante, após muita hesitação em ceder a música ao filho.

Nos shows que vai apresentar de hoje a domingo, tanto o repertório como os convidados (a maioria também presente no álbum mais recente) foram escolhidos a dedo, nas palavras de Danilo. "São músicos que levam realmente o sentimento a sério, que não fazem uma coisa complicada só para parecerem sofisticados e acabam não transmitindo nada. Músicos que fazem coisas simples e emocionam", elogia seus parceiros que atendem pelos nomes de Alessandro Penezzi, o quarteto do Ensemble SP (formado por Marcelo Jaffé, Betina Stegman, Nelson Rios e Robert Suetholz), Sérgio de Oliveira, Rodrigo y Castro, Alexandre Ribeiro e o consagrado Altamiro Carrilho.

Eles vão se alternar nos três dias de apresentações com clássicos do choro, como 1x0, de Pixinguinha e Benedito Lacerda, novas composições do gênero (sim, Danilo é uma das provas de que isso é possível) e, especialmente no domingo, vão tocar a Suíte Retratos, de Radamés Gnattali, com os arranjos originais que não foram gravados em 1964 por Jacob do Bandolim. Compareça a um dos shows e entenda por que Danilo é considerado, por grandes nomes, a reencarnação do pai de Doce de Coco.

Serviço

Danilo Brito e Convidados. Auditório Ibirapuera (800 lug.). Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Parque do Ibirapuera, tel. 3629-1014. 6.ª e sáb., às 21h; dom., às 19h. R$ 30

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