Chivas: Abdullah Ibrahim dissolve limites do jazz

A abertura do Chivas Jazz Festival,no Directv Music Hall, na noite de ontem, registrou uma dasmais impressionantes performances de um pianista em qualquerépoca em São Paulo. Foi o concerto do sul-africano AbdullahIbrahim e seu trio (o pianista e mais Beldon Bullock no baixo eGeorge Gray na bateria).Ibrahim, que era Adolphus Brand antes de se converter aoislamismo (ou Dollar Brand para os íntimos), concebeu suaapresentação como um concerto de música de câmara, com umaabordagem imagética da música. Era como se fizesse a trilhasonora de um filme, ao vivo - ele é autor da trilha deChocolate, de Claire Denis.Um estilo que constrói a música, depois a fragmenta e,por fim, a reintegra, faz de Ibrahim um dos maiores do seuinstrumento. Seu estilo tem muito a ver com o de McCoy Tyner(por sinal, outro pianista convertido ao islamismo) e suascomposições retomam a linha de Duke Ellington, sua maiorinfluência.Ibrahim tocou peças que requeriam extrema concentração -tanto dos seus executores quanto da platéia. Por conta disso,irritou-se com o barulho das máquinas fotográficas e pediu paraum fotógrafo afastar-se. "Excuse-me", disse apenas, com umolhar severo. Com uma combinação de acordes pesados e linhasmelódicas flutuantes, delicadas, sua música não tem umafronteira definida, ela não termina senão quando ele quer queela termine. Baixo e bateria são livres para improvisar, mas nãopara concorrer com o piano, em solos intermináveis. Eles apenasemolduram o som distintivo de Ibrahim.O interessante de seu trabalho é que ele parecedissolver a delimitação entre o que consideramos clássico, jazz,world music ou mantras antropológicos. Ele não carrega atradição africana da celebração, mas aquela da gênese rítmica -que não é o tambor tribal.Sua música se investe de uma dimensão orquestral, mastoda ela concentrada no piano. Uma música em que a melodia é omote supremo, a repetição é um dado cultural e o resultado équase místico, envolvente, misterioso.Ao final, suado e sem ter feito uma pausa sequer e semter dirigido uma palavra ao público, foi aplaudido de pé, com umsorriso compreensivo em direção aos "garotos" de sua banda.O jovem músico israelense Avishai Cohen abriu suaapresentação com um tema clubístico, Yagla, que tinha muitode clube, uma pegada de metais e baixo que não faria feio numapista de dança clubber. Cohen tocou piano e depois, no final,atacou um baixo elétrico. No baixo acústico, Yagil Baras marcavatudo. "O coração da coisa toda", segundo ele explicou,apontando para o baixista. Essa também é a convicção dos gênerosmodernos de tecno, como o drum´n´bass, por exemplo.Depois, Cohen mostrou certo apreço pelo latin jazz emsua peça seguinte, Short Story. Nervoso, irrequieto,martelando o piano como se fosse uma mistura de Brad Mehldau(que gravou com ele o disco Adama, de 1997) e Oscar Peterson,Avishai Cohen é uma grata surpresa, um menino de futuro. Penaque a noite já fora tomada por um monstro: Abdullah Ibrahim.

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