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Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

China lança disco-reação 'Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos'

Cantor e compositor explora consciência política, elementos do rock n' roll e percussão em seu novo trabalho

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2019 | 03h00

Uma frase famosa de Mano Brown de 1988 pode ser uma chave de interpretação para Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos, o quarto álbum da carreira do músico e apresentador de TV pernambucano China. A frase é: “Não sou artista. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista”. O contexto de 30 anos atrás era muito diferente, mas segundo China, a realidade atual “anda bem dura de ser digerida”. O novo disco, então, é uma resposta do artista a ataques que o setor cultural recebe – como os que costumam associar as leis de incentivo a “mamatas” e “vagabundos”.

O cantor e compositor apresenta o novo trabalho nesta quarta, 24, e na quinta, 25, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, com ingressos a R$ 30. 

Estabelecidos sobre elementos do rock and roll, o novo álbum apresenta uma atitude punk desde os primeiros versos de Vivo?, a faixa inicial que começa também com metais e a presença marcante da percussão, espécie de linha definidora do disco, comandada pelo pernambucano Lucas dos Prazeres em todas as faixas. A mensagem fica ainda mais clara na canção seguinte, Moinhos de Tempo, com uma poesia de Bell Puã, do Slam das Minas de Pernambuco, sobre uma base de guitarras e percussão. Em Fascismo Tupinambá, expressão emprestada de Graciliano Ramos, o espírito punk aparece até na produção suja da faixa.

Mas o disco também dá espaços para reflexões, digamos, menos agressivas. Em Pó de Estrela, por exemplo, China divide os vocais com Uyara Torrente (A Banda Mais Bonita da Cidade) para cantar: “São doses diárias de certeza e medo / pra me mostrar o quanto é frágil viver”. A produção ficou a cargo de Yuri Queiroga – que sugeriu ao músico a execução de um disco temático. “Darwin dizia que viver é um luxo. Imagina ‘sobreviver’? Onde vivo (num sítio a uma hora e meia de São Paulo), vejo a galera substituindo botijão de gás por lenha”, explica China.

“Dentro da bolha, a galera se vira com os novos tempos. Falta ver um pouco além, e está do nosso lado. Olha a quantidade de morador de rua em São Paulo. Tem gente pedindo esmola no aeroporto. Isso me entristece de um jeito”, lamenta.

Para o cantor e compositor – que consolidou sua carreira pelos caminhos do pop ao escrever canções para Jota Quest, Mombojó e outras bandas – os ciclos de um país afetam sua produção musical. “O debate hoje está muito maior que a polarização política. As pessoas perderam a paciência, e isso vai machucar quem é mais fraco”, opina. O músico também se envolve em projetos sociais. “Quando era moleque, pensava que ia mudar o mundo com a minha música. Mas a pessoa cresce e percebe que se ajudar cinco pessoas em volta já está fazendo bastante coisa.”

Para ele, o manguebeat foi o último movimento musical organizado e que mexeu na “estrutura cultural” do Brasil. “Talvez apareça uma coisa nova, talvez unida pelo discurso”, palpita. “Não sei se vai precisar ter uma cara de movimento ou se vai acontecer logo, mas dá para perceber que a situação do País começa a mexer com muita gente”, diz – citando os discos e canções novas de Dead Fish e Pitty como exemplo.

O Manual do título do seu disco pode ser também uma indicação de caminhos para o cenário independente, onde China circula desde o fim dos anos 1990 com sua primeira banda, o Sheik Tosado, em que já experimentava misturar sonoridades roqueiras com ritmos regionais, influenciado pelo manguebeat. “A gente sempre se virou. Eu nunca fui contemplado por lei de incentivo, e mal ou bem eu banco meus discos, num esquema meio Casas Bahia, divido em várias prestações”, explica. Mesmo assim, segundo sua percepção, a oferta de shows caiu. “Nos anos 1990 tinham várias casas de shows no Rio. Hoje só consigo pensar em duas. Mesmo em São Paulo. Mas acho que a música independente sempre foi essa resistência.”

O papel da internet também não é desprezado nessa caminhada. “A cena tem a capacidade se reinventar e fazer coisas relevantes”, diz, citando hoje grandes nomes da música brasileira que vieram desse lugar, como Emicida, Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci. O próprio China conta que começou a se organizar melhor e mais profissionalmente, da construção de um estúdio em sua casa até a estratégia de divulgação do disco. “A melhor coisa que podemos fazer nesses dias mortos é produzir. A arte é um motor cultural que mexe com a vida de muita gente.” 

Novo programa de TV sai em outubro: ‘é um grande backstage’

China concedeu a entrevista ao Estado quando estava em São Paulo gravando episódios do seu novo programa para o Canal Bis, chamado Rock Studio, com bandas de rock ensaiando em estúdio e conversando sobre seu processo e trajetória, no qual ele divide a apresentação com Jimmy, ex-Matanza. “Fazia tempo que não via um programa só com bandas de rock”, conta, animado. A previsão de estreia, segundo China, é outubro.

O músico considera seu trabalho para a TV – iniciado em 2011 na MTV – muito importante para sua atual produção musical. “Para mim é fácil porque estou conversando com os meus amigos. Não podemos deixar virar papo de comadre, mas ganhar dinheiro para falar de música? É legal demais. É um grande backstage para mim. Acho que levo uma vantagem por conhecer esse universo por dentro. São histórias”, reflete. Em seu novo disco, China considera que foi a primeira vez que conseguiu compor para se comunicar diretamente. “Chico Science era muito bom nisso.”

CHINA

Sesc 24 de Maio. Teatro. Rua 24 de Maio, 109, Centro, São Paulo. (11) 3350-6300. 24/7 e 25/7, às 21h. R$ 30 / R$ 15.

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