China desponta como grande cenário da música clássica

Yu Zhenyang, um autoconfiante violinista de 15 anos, desliza pelo Concerto de Mendelssohn. Seu professor, Lin Yaoji, diz: ?Você é o líder. Seja mais ousado. Não quero simetria, surpreenda-me.? Zhenyang é um dos jovens mais brilhantes do Conservatório Central de Música de Pequim, que nos últimos anos se tornou parte da enorme máquina de produção e exportação de virtuoses musicais da China. Com a mesma energia, ímpeto e peso populacional que a transformaram numa potência econômica, a China se tornou uma força na música clássica ocidental. Os conservatórios estão lotados. Cidades provincianas pedem orquestras e salas de concerto. Pianos e violinos fabricados na China enchem contêineres nos portos.O entusiasmo chinês sugere o potencial de um mercado crescente para música gravada e apresentações ao vivo numa época em que a queda das vendas de gravações preocupa Europa e EUA. Executivos da música clássica dizem que essa forma de arte é cada vez mais marginalizada num mar de cultura popular e novas mídias. Diminui o número de jovens ouvintes americanos para música clássica. Como resultado, muitas orquestras e casas de ópera lutam para encher suas salas. A China, com estimados 30 milhões de estudantes de piano e 10 milhões de violino, segue uma trajetória oposta. Frisson de cultura popO Partido Comunista, que há três décadas tentava suprimir a música clássica, agora a considera um componente essencial para transformar o país numa verdadeira potência. Ao mesmo tempo, a música clássica européia é acompanhada por um frisson de cultura pop na China. Os jovens lotam as salas de concerto. Lojas de pianos parecem concessionárias de automóveis. Astros como Lang Lang, o virtuose do piano, fazem comerciais de TV. ?A música está ativa na China?, diz Chen Hung-Kuan, um dos diretores do Conservatório de Xangai. Ela pode estar desaparecendo nos países ocidentais, mas na China o talento é ?ilimitado?.Nem sempre é fácil tirar proveito desse talento. Os pais vêem a admissão num conservatório de elite não só como passagem para o mundo da arte, mas também como fuga da pobreza. Os professores pressionam os alunos para que dominem mecanicamente peças de grande exigência técnica, a fim de impressionar jurados nos concursos. Em sua melhor forma, a China produz virtuoses que podem competir no mundo todo. Mas ainda não desenvolveu uma cultura de música ocidental profunda e sustentável.O governo beira a obsessão quando o assunto é a construção de salas de concerto. Algumas são elefantes brancos, construídos às pressas, com pouca atenção à programação ou à viabilidade econômica. Mas os otimistas esperam que esses problemas sejam passageiros no crescimento dessa forma de arte que, há apenas algumas décadas, na Revolução Cultural, foi suprimida. Hoje, a música clássica não desperta as sensibilidades políticas e nacionalistas que tornaram mais difícil a consolidação de outros tipos de cultura ocidentais na China.Verdadeiro intelectual?A música é a menos nacional das artes?, disse Wu Zuqiang, compositor, ex-diretor do Conservatório Central e conselheiro do governo para as artes. ?Atravessa culturas mais facilmente que qualquer outra coisa.? Um dos sinais mais claros de que a música clássica tem aprovação oficial na China veio de Li Lanqing, membro aposentado do Comitê Permanente do Politburo e ex-ministro da Educação. Li escreveu tributo a 50 compositores ocidentais no qual argumentou que não se pode ser um verdadeiro intelectual sem entender a música clássica do Ocidente.Numa declaração inesperadamente ousada, ele afirmou que os compositores chineses deveriam ?tomar emprestadas a teoria e a técnica da música clássica européia para reformar a música chinesa?. O que Li pedia era a retomada de um velho objetivo. Raízes na ChinaA música clássica européia tem raízes antigas, se não profundas, na China, e é associada à modernidade há séculos. A música ocidental prosperou na China no início do século 20, antes da Revolução Cultural.Nos anos 90, membros do Politburo se vangloriavam de seu amor pela música clássica. O presidente Jiang Zemin disse ter se consolado da morte do líder máximo Deng Xiaoping, em 1997, ouvindo o Réquiem de Mozart. Mas o apoio da elite pode ser menos determinante que o aumento do interesse dos cidadãos no país todo. Paradoxalmente, a tendência começou quando Mao Tsé-tung tentava eliminar os vestígios da influência burguesa ocidental. O talento musical era um dos poucos recursos que possibilitavam evitar o trabalho duro no campo, para onde foram enviados milhões de jovens das cidades.A Revolução Cultural provocou uma fome de música. Ao fim desse período, as pessoas ?queriam sugar tudo?, disse Yu Long, um dos mais enérgicos regentes e empreendedores musicais do país. Mais recentemente, a política de planejamento familiar da China, que limita a maioria dos pais urbanos a uma único filho, levou muitos a tratar as crianças como prodígios. Elas são levadas a estudar um instrumento como possível recurso para o avanço no hipercompetitivo sistema escolar do país e também como uma maneira de criar adultos respeitáveis. A prosperidade crescente significa que mais famílias podem pagar aulas, o que transformou o ensino particular numa profissão lucrativa. ?Temos a chance de dar o melhor a nossos filhos?, disse Yu. ObstáculosA história de Yu Zhenyang, o estudante que tocava Mendelssohn, não é incomum. Ele começou a estudar violino aos 7 anos numa aula obrigatória de artes em Jingzhou, na província de Hubei. Seu professor, formado no Conservatório Central, reconheceu seu talento e convenceu seus pais a permitir que ele se especializasse em música. Aos 9 anos, Yu venceu um concurso nacional de violino e, dois anos depois, passou nos exames para entrar na escola do Conservatório Central. Sua mãe, Yu Ya, deixou o emprego e se mudou com ele para Pequim. ?Tivemos a sensação de que ele era o orgulho não só da família, mas da cidade inteira?, disse Yu Ya, que acompanha o filho em aulas, ensaios e apresentações. A família, com poucas economias, empresta de amigos para pagar a alta taxa escolar e o aluguel de parte de um pequeno apartamento num prédio perto da escola. Zhenyang dorme e estuda no mesmo quarto. A mãe dorme numa cama portátil no corredor. O garoto afirma que seu objetivo é tocar bem a ponto de os especialistas do mundo todo não conseguirem identificar sua nacionalidade sem ver seu rosto. ?Grande parte daquilo que chamam de sotaque chinês na música se deve ao fato de não estarmos à altura do padrão internacional?, disse ele. ?É sutil, mas dá para ouvir as mesmas falhas no desempenho de pessoas treinadas na China. É isso que eu quero superar.?Isso aponta para um dos obstáculos que, na visão dos especialistas, o país ainda enfrenta. A música clássica ainda é tratada freqüentemente como uma tecnologia que pode ser dominada com a combinação certa de capital, trabalho e controle de qualidade. Mas uma combinação de técnica, cultura e criatividade é necessária para criar execuções instrumentais que soem espontâneas, sensíveis e ricas em emoções - e não rudes e moldadas numa forma de bolo.CorridaYu Long, o regente, diz que o maior obstáculo à disseminação da cultura musical não é o dinheiro, e sim o sistema educacional oficial, que se concentra em prêmios e status para os jovens músicos e professores. Embora prêmios possam trazer crédito à sociedade, eles pouco fazem para aumentar o apetite musical das pessoas. ?Não pode ser como uma corrida?, afirma Yu. ?Trata-se de beleza e sentimento.? E a música precisa ser vista como parte de uma cultura maior, como no Ocidente, afirmou.Há outras preocupações. O apoio do governo à música clássica sem dúvida é forte, mas críticos dizem que a China tem desperdiçado centenas de milhões de dólares em elaboradas salas de concerto. O dinheiro seria melhor investido, dizem eles, em educação musical e espetáculos acessíveis.InvestimentoA tendência começou em Xangai nos anos 90, quando as autoridades concluíram que precisavam de uma grande casa de ópera para competir com outras cidades cosmopolitas. O município separou um terreno de primeira classe ao lado da nova sede da prefeitura. A impressionante estrutura de vidro e aço, com projeto francês, custou US$ 160 milhões (R$ 320 milhões).Os críticos dizem que as autoridades dedicam muito menos tempo e dinheiro à administração da ópera. Seus diretores, sob pressão para recuperar o grande investimento, cobram preços iguais aos de Nova York, apesar do padrão de vida muito mais baixo de Xangai. A cidade pressiona empresas estatais para que comprem ingressos e lotem a casa.Desde os anos 50, os líderes do Partido sonham com um teatro ainda mais grandioso em Pequim. O presidente Jiang ressuscitou a idéia na década de 90 e escolheu o quarteirão a oeste da Praça Tiananmen. O governo selecionou outro arquiteto francês, Paul Andreu. O Teatro Nacional, como é chamado, já é considerado um elefante branco - mesmo antes de ser inaugurado. O projeto está quatro anos atrasado e, segundo estimativas, ultrapassou em pelo menos US$ 100 milhões (R$ 200 milhões) o já enorme orçamento de US$ 400 milhões (R$ 800 milhões).Qualidade dos instrumentosOs líderes do Partido discutiram durante anos para decidir quem administraria o Teatro Nacional. Nenhuma agência queria assumir responsabilidade se tivesse de arcar com os custos operacionais das quatro salas de concerto. Finalmente, no fim do ano passado, a prefeitura de Pequim foi nomeada administradora. Mas a inauguração oficial ainda não foi anunciada. Pequim precisa de um espaço musical maior e de acústica mais sofisticada, mas o governo se equivocou no projeto, disse Wu Zuqiang, o conselheiro governamental de artes, que foi consultor na fase de planejamento do teatro, nos anos 90.A música clássica na China enfrenta outros obstáculos. A qualidade dos instrumentos nas orquestras dos conservatórios, particularmente as madeiras e metais, é baixa. Não se dedica tempo suficiente à música de câmara, fundamental para o desenvolvimento das habilidades de escuta e entrosamento com sensibilidade. Alguns se perguntam em que grau as tradições ocidentais podem ser assimiladas.?O talento existe, não há dúvida?, disse Joseph W. Polisi, presidente da Juilliard School, de Nova York. ?Definitivamente, o compromisso com a arte musical ocidental está presente. Mas será que esse talento está preparado para absorver o que temos aqui?? (Tradução de Alexandre Moschella)

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