Chilique pode custar caro a tenor francês

O mundo da ópera está habituado a cantores sensíveis e prima-donas exigentes, mas críticos alertam que o tenor Roberto Alagna pode ter exagerado no chilique ao abandonar o palco do teatro La Scala, de Milão, depois de ser vaiado.Nem Maria Callas, a prima-dona por excelência, teve a atitude que Alagna, de 43 anos, adotou no domingo, deixando os colegas de palco surpresos no meio da apresentação e obrigando um suplente, usando jeans, a subir correndo para assumir o papel."Não me lembro de nenhum incidente em que um artista tenha abandonado o palco, deixando os colegas boquiabertos por nenhuma razão que não um pouco de gritos", disse o influente crítico de ópera Norman Lebrecht à Reuters. "Isso pode ser o fim da sua carreira."CautelaLebrecht e outros disseram que os produtores a partir de agora vão ser um pouco mais cuidadosos ao contratarem Alagna, pois não sabem como ele pode reagir a eventuais pressões e têm consciência de que por muitos anos seu nome será associado ao incidente. O fato de ele ameaçar um processo judicial contra o La Scala em nada contribui para sua imagem."Tudo isso se junta para um prognóstico bastante ruim", disse Neil Fisher, editor de ópera e música clássica do jornal londrino The Times.Alagna já chegou a ser considerado o "quarto tenor", uma espécie de sucessor de Luciano Pavarotti, e também é parte do "casal de ouro" da ópera, pois sua mulher é a famosíssima soprano romena Angela Gheorghiu.Por sorte dela, as atuações conjuntas do casal atualmente são relativamente raras, o que talvez a poupe de ser arrastada para dentro do episódio. "Ela tem uma mentalidade muito independente. Meu palpite é que seu agente vai dizer a ela para construir uma parede em torno disso."Não é a primeira vez que o casal se envolve em polêmicas.ConfusãoAngela foi substituída durante uma produção de Carmen na Metropolitan Opera de Nova York porque supostamente se recusou a usar uma peruca loira. No mesmo teatro, o casal foi expulso da montagem de "La Traviata", aparentemente por causa de uma discussão sobre o projeto dos cenários.Por essas e outras, Alagna e Angela receberam o apelido de "Bonnie e Clyde" (famoso casal de bandidos) da ópera. A cantora romena é ironicamente chamada também de "Draculette".Mas pelo menos eles estão em boa companhia. Em 1958, Callas se recusou a continuar uma encenação de Norma, depois de ter feito o primeiro ato inteiro.O tenor Franco Bonisolli deu uma sonora bronca na orquestra e no maestro por tocarem devagar demais na Sicília e, ao ser vaiado, fez gestos obscenos para a platéia e deixou o palco.ApoioNão que o mundo da ópera esteja em peso contra Alagna. O crítico britânico Rupert Christiansen pediu, no Daily Telegraph, que o tenor respire fundo e volte a cantar.Christiansen e outros lembraram que a platéia do La Scala é tradicionalmente arisca e no passado já vaiou gigantes como Pavarotti."Eles (o La Scala) ainda se vêem como o templo sagrado da ópera", disse Fisher, para quem hoje em dia a Metropolitan Opera de Nova York e o Covent Garden, de Londres, superam o teatro milanês.

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