Chico Saraiva, linha fina entre sofisticado e popular

O violonista e compositor ChicoSaraiva lança em show único, nesta quinta, no Sesc Pompéia, o CDTrégua (Gravadora Eldorado). O disco é parte do prêmiomerecido por Chico como vencedor do 6.º Prêmio Visa de MPB -Edição Compositores, realizado neste ano. O prêmio recebeu quase3 mil inscrições e o resultado saiu no meio do ano. Trégua, depois de definidos os arranjos e asparticipações especiais - custou 40 dias e noites de trabalhopara Chico e seu co-produtor, André Magalhães. Algumas idas aoRio - para registrar as vozes de Tereza Cristina e SimoneGuimarães -, uma correria para ajustar as agendas dos muitosconvidados especiais - além de Tereza e Simone também Ana Luíza,Ná Ozzetti, Ceumar, Siba (do Mestre Ambrósio), Marcelo Pretto(do Barbatuques), de Luciana Alves, Lincoln Antônio, Proveta,Gilson Peranzzetta. E mais. É o segundo disco do compositor. O primeiro, lançamentoindependente, era o instrumental Água, lançado em 1999 erelançado no meio do ano. A crítica recebeu com aplausos gerais.Guinga escreveu, na contracapa: "Emoção, bom gosto, técnicaapurada, soluções imprevisíveis. Esse é o nosso Chico Saraivamostrando para a gente outros caminhos do inesgotável violãobrasileiro. Alma de compositor de rua, incorporada num violãoque freqüenta a academia. O bom e velho pinho te escolheu,Chico. Farás uma bela carreira. És um cracaço." Mas Chico não estava satisfeito em ser um solista deviolão. Almejava a canção - a letra com música, redimensionadapela palavra, reinventada por versos complementadores,esclarecedores de sua beleza etérea. Fez uma primeiraexperiência, insatisfatória. Em seguida, passou para Luiz Tatita valsa Incerteza, que gravada, versão instrumental, no discoÁgua. "Vi no palco que o público muda sua relação com a música quando se acrescenta a letra. E a minha relação mudou, também.Eu devo ao Tatit por haver antevisto as possibilidades dacanção. Eu não a conhecia na íntegra; ele me deu as respostas." Incerteza foi uma das canções mais aplaudidas entre asapresentadas no prêmio Visa. Quem a interpretava era Ana Luíza,cantora paulistana que o meio musical, Brasil a fora, jáaprendeu a respeitar. Falta o público conhecer. Em Trégua, éSimone Guimarães quem dá voz a Incerteza. Uma outra visão,complementar à de Ana Luíza. "O natural seria que Incertezafosse cantada pela Ana Luíza, pela Mônica Salmaso, vozes maislímpidas, clássicas; mas optei pelo choque" - o canto de SimoneGuimarães tem peso e intensidade de terra sofrida, como o deMilton Nascimento. "Fiz isso porque cada pessoa que vocêencontra oferece a você um mundo; e fiz para ver se minha cançãotinha estrutura forte o suficiente para moldar-se às diversasvisões que intérpretes diversos teriam dela. O resultado metrouxe uma vitalidade artística que eu não tinha quando apenastocava violão. Chico Saraiva não canta, é bom saber - e talvez issotenha feito seu primeiro disco ser instrumental. "Para o Águaeu montei um repertório baseado nas grandes escolas do violãobrasileiro, de Bellinati, Gismonti, Guinga, e aparece tambémJobim. Dei-me conta de que eles fazem a ponte: a canção (ou seja música com letra) abraçada ao instrumental é da tradição damúsica brasileira, desde Villa-Lobos. Na verdade eu demorei aperceber isso. Eu compunha um samba e punha o violão em primeiroplano, quando aquele samba precisava da palavra para ficarcompleto. Então, meu desafio foi encontrar o equilíbrio entre osextremos, chegar à música cantada sem abandonar a estética jádesenvolvida para o solo de violão." Chico Saraiva, um carioca criado em Santa Catarina eadotado por São Paulo, beirando os 30 anos, sabe que, hoje, maisdo que já foi, é preciso ousar e correr riscos para sustentar aintegridade da obra (mesmo que isso custe sacrifícios na vidaprivada, mesmo que isso signifique dias inteiros dando aulas deviolão para sustentar a família). Correu o risco, venceu. Sabendo que o oposto dasimplificação - a complicação por si mesma, o exercíciointrospectivo - também não é bom. Há também quem se perca, aí. Oequilíbrio dá na grande música popular. No show, Chico terá a companhia de Renato Anesi (viola,bandolim e violão), Edu Ribeiro(bateria), Zeli (contrabaixo),Proveta (clarineta) e as vozes de Ney Mesquita VerônicaMeirelles, Ceumar e Ana Luíza. Saiba mais sobre o músico e falecom ele pelo site www.chicosaraiva.com.brChico Saraiva. Quinta, às 21 horas. De R$ 7,50 aR$ 15,00. Teatro do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, São Paulo,tel. 3871-7700

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