Chico Salles reverencia o lado sambista de Sérgio Sampaio

Em CD, forrozeiro paraibano ressalta o capixaba que morreu em 1994

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2014 | 21h03

 Tinha que acontecer. Às vésperas dos 20 anos de morte do cantor e compositor Sérgio Sampaio, chega às lojas Sérgio Samba Sampaio, no qual Chico Salles, forrozeiro paraibano com um pé no samba carioca, ressalta o lado sambista do capixaba que morreu em maio de 1994.

Com participações de Zeca Pagodinho (que lança o CD pelo seu selo Zeca Pagodiscos, com distribuição da Universal Music), Fagner e Zeca Baleiro, o trabalho produzido por José Milton e pelo músico Henrique Cazes foi concebido, segundo Salles, para reparar uma injustiça – e não para aproveitar o embalo que pode vir a surgir com a data redonda.

“Realmente, não me dei conta disso. Em conversas com amigos músicos, entre eles o Henrique, constatei que Sampaio era uma pessoa que merecia ter mais reconhecimento e seria bom ter um trabalho que lembrasse isso. O que a gente vem discutindo há algum tempo é que ele tem uma obra extremamente importante, mas que não foi absorvida como deveria”, salienta Salles, que tem 40 anos de carreira e outros cinco discos lançados. Ele chegou a se cruzar com Sampaio durante os anos 1980 e 1990 em bares do Rio, quando esse vivia uma espécie de semiostracismo, mas nunca foram íntimos.

Salles selecionou 13 sambas para o álbum, dois deles colados em medley. Mais da metade do CD tem músicas que estavam no repertório de Tem Que Acontecer (1976), segundo disco de Sampaio, no qual ele se aproximou ainda mais do samba. Entre as escolhas há mergulhos profundos na obra ainda submersa, como a lembrança de Chorinho Inconsequente, incluída no irreverente LP Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez (1971). Nele se reuniram Sampaio, Raul Seixas, Edy Star e Miriam Batucada, que fez o vocal da faixa no registro original, nunca gravada pelo autor.

Alguns dos convidados do CD têm afinidades com o homenageado. Fagner, que pôs voz em Cada Lugar na Sua Coisa, participou de festivais com Sampaio no início dos anos 1970, sendo contratados pela mesma gravadora. História de Boêmio (Um Abraço em Nelson Gonçalves) ficou com Baleiro, que produziu em 2005 o álbum póstumo Cruel, com gravações que Sampaio fez pouco antes de morrer. Já Pagodinho foi chamado para um dueto em O Que Pintar, Pintou.

“Adorei a música. Não conhecia, mas achei a minha cara”, afirma Pagodinho, que foi levado por Milton para o projeto. No estúdio de gravação, gostou do resultado e sugeriu o lançamento do CD por seu selo. “O Chico merece fazer sucesso com esse trabalho, ele é um ótimo artista e uma pessoa muito esforçada por trazer essas músicas do Sampaio de volta.”

Nascido em 1947 no município de Cachoeiro do Itapemirim, onde também nasceu Roberto Carlos – para quem compôs Meu Pobre Blues, homenagem com pitadas de ironia no qual pede para o Rei gravar uma música sua –, Sampaio alcançou projeção nacional em 1972, quando defendeu no último Festival Internacional da Canção Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua. Com a canção, vendeu 500 mil compactos. Mas seu apreço pela boemia e as baixas vendas dos três álbuns lançados por ele em vida fizeram com que ele fosse alocado na categoria de maldito.

Após sua morte, Sampaio teve sua obra reavaliada no tributo Balaio do Sampaio, lançado em 1998, com interpretações de João Bosco, Lenine, Zeca Baleiro, entre outros. Nos últimos anos, Bloco foi regravada por nomes de diferentes estilos, que vão do Casuarina ao KLB, passando por Margareth Menezes. Seus álbuns, disputados nos sebos, também ganharam edições em CD a partir dos anos 2000.

“Acho que o Sampaio é mais bem entendido hoje porque ele foi um transgressor no seu tempo. Ele não se encaixava em nada, sempre foi uma pessoa sem turma. Era um artista que tinha na sua poesia algo de triste, mas conseguia passar isso com muito humor”, afirma Salles, que já recebeu propostas para se apresentar na terra natal de Sampaio. “Em Cachoeiro, onde ele devia ser mais reconhecido, pouca gente sabe dele.”

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