Chico, Maria Rita e Luciana: dos palcos ao estúdio

Nas últimas semanas, dois grupos distintos estão encenando um pequeno fenômeno à porta do Supremo Musical, na Rua Oscar Freire. O primeiro é o dos que voltam para casa mais cedo, com a expressão ligeiramente contrariada, após serem informados de que a casa já está cheia. O segundo é o que deixa o auditório uma hora e meia depois, com rostos inebriados e, não raro, lágrimas nos olhos. Basta presenciar o que ocorre no intervalo entre as duas saídas para entender a frustração de uns e o deleite dos outros.Ali, no pequeno palco do Supremo, o violonista Chico Pinheiro, 29 anos, e as cantoras Luciana Alves, 25, e Maria Rita Mariano, 24, amparados por uma formação de piano, baixo e bateria, fazem uma excelente demonstração de música brasileira. Simples assim, sem rótulos e sem os hífens do pop-rock-samba-reggae-soul-tecno que muitos artistas costumam usar para construir uma ponte que liga o nada ao lugar nenhum.O encontro dos três nasceu de forma despretensiosa. Chico, dono de um punhado de belas canções, foi convidado para ocupar o palco do Supremo por apenas duas noites. Convocou as cantoras, mostrou-lhes suas composições, ensaiou com a banda somente quatro horas e abriu as cortinas. Sabia que tinha um coringa nas mãos - Maria Rita é filha de Elis Regina. Criada longe do palco e da mídia, era natural que houvesse grande curiosidade sobre seu trabalho. Numa combinação estupenda de genética e talento, a garota mostrou, de cara, que os anos de recolhimento serviram para maturar em sua garganta o vinho de uma safra especialíssima.O show foi um sucesso desde a primeira apresentação, em maio. Vieram a temporada carioca, com ingressos esgotados no Mistura Fina, e novas apresentações em São Paulo. Após os shows nos próximos dias 18 e 25 (já não há mais ingressos à venda), o trio se despede temporariamente do palco para entrar em estúdio. Várias gravadoras estão interessadas em levar os três para os seus castings. Vence aquela que permitir que o CD reproduza integralmente o espírito do show. Há outra novidade além do convite para gravar. Um nome de peso da MPB, Aldir Blanc, já está compondo para eles.Este projeto vai mesmo virar disco? Chico Pinheiro - Sim, e muito rápido. Não queremos deixar passar este momento em que as pessoas estão curtindo o nosso trabalho. Estamos em negociações com gravadoras, mas pretendemos fazer ao vivo. Queremos um estúdio que comporte todos os músicos. Este espírito do show é que vai para o CD. Após os shows de agosto, a gravação será nossa prioridade.Vocês tinham consciência de que, ao menos no início, o público poderia vir apenas para conhecer a filha de Elis Regina? Maria Rita - Sim, o mais difícil para mim era entender esta saudade que as pessoas sentem dela. Depois que entendi, ficou mais fácil. A expectativa que as pessoas e a crítica têm a meu respeito não é maior que a expectativa que eu mesma tenho. Para mim, é tudo muito recente. Esta é minha estréia profissional. Minha mãe dizia que o palco era um lugar sagrado, e eu concordo com isso. Minha preocupação é a de mostrar um bom trabalho. É para isso que eu me concentro tanto antes de começar a cantar. Vocês estão indo bem longe para quem pensava em apenas duas apresentações... Luciana Alves - Talvez o segredo tenha sido a determinação. Há muitos artistas fazendo concessões para manter contrato com gravadoras ou aparecer na mídia. Nossa proposta é não fazer tais concessões, apresentamos um trabalho no qual acreditamos muito. Maria Rita - Eu estou começando em ótima companhia. Tenho muita sorte de ter a Luciana como parceira. Uma outra cantora provavelmente iria me boicotar, puxar o fio do meu microfone, me passar para trás. Mas eu sei que não vai ser sempre assim. Tenho de estar preparada para outra realidade quando for gravar meu primeiro disco-solo. Chico Pinheiro - Este show foi um salto no escuro. Optamos por não fazer o que seria mais seguro, como cantar Tom Jobim, Chico Buarque ou pedir para que a Maria Rita apresentasse os sucessos da mãe. Investimos nas composições inéditas para que as pessoas acreditassem no nosso trabalho. Estamos vendo que é possível fazer música do jeito que a gente gosta e ver que financeiramente pode dar certo. Como três jovens artistas vêem a música brasileira hoje? Luciana Alves - Acredito que há muitas coisas boas, como sempre houve. Pessoalmente, não gosto muito daquilo que é veiculado nas rádios e na tevê, é um tipo de música que eu não consumo. O que é realmente bom, no meu entender, anda afastado da mídia. Chico Pinheiro - Eu não sou tão otimista. A música brasileira tem algumas explosões de talento, como a bossa nova e a tropicália. Ninguém consegue gerar idéias e movimentos se não for estimulado. O que ocorre, agora, é uma total falta de estímulo. O momento cultural que estamos vivendo não é dos mais criativos, nem dos mais explosivos. O mercado se afunilou e deixou muita gente boa de fora. Maria Rita - No geral, não sinto prazer em ouvir. O problema da mídia é que ela insiste em dar atenção a coisas que eu não vejo como características e representativas da música brasileira. Morei muito tempo fora, tive contato com vários artistas. Nossa música é a melhor do mundo, e não é isso que as rádios mostram. As gravadoras dizem que dão ao povo o que o povo quer, eu não acredito nisso. Eu acredito mais no povo do que nelas. Então você vai atrás daquilo que gosta? Maria Rita - Minha obrigação, como cantora, é saber o que está acontecendo no meio musical, até para eventualmente aproveitar em meu primeiro disco. Estou me familiarizando novamente com os artistas nacionais. Fui ver os shows de Antonio Nóbrega, Mestre Ambrósio e Tom Zé. Há uma produção muito boa longe do grande mercado. Eu sei que, por causa da minha origem, tenho muitas portas abertas, e quero usar isso de forma muito responsável. E o trabalho com Aldir Blanc? Chico Pinheiro - Ele está escrevendo a letra para Popó, música de minha autoria que encerra o show. É uma das prediletas do público. Todo mundo parece gostar do jeito que a música está, só com instrumentos e o vocal da Maria Rita. Pelo visto, no disco teremos de colocar as duas versões: com e sem letra.

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