Chico Cesar lança quinto CD

Dono de obra que é quase sempre dedeslocamento, mirada de mundo por paralaxe (Mama África, aminha mãe é mãe solteira), Chico César começa a provocar já notítulo de seu novo, quinto, disco, ao inserir uma vírgula nafrase (incompleta) que encerra o samba famoso de HeriveltoMartins: "Respeitem Meus Cabelos, Brancos" . Foi uma idéia que lhe veio no último carnaval. Cantou emJoão Pessoa (é paraibano, mas de Catolé do Rocha) e no Recife edeu-se conta do quanto mobilizava o público, no chão, com amúsica Mama África (para dança, prazer e, quem sabe, depoisdisso, pelo entendimento do que trazem os versos). Na capital pernambucana, em certo momento, a dança ficouviolenta, punk. A polícia entrou para bater. Chico Césarinterrompeu o show e fez um discurso irado. Disse: "Esse tempode bater em preto e pobre já passou, aqui a gente se governa."A polícia saiu e ficou num canto, olhando. O compositordirigiu-se ao público: "Agora é conosco, autogestão." A festaseguiu sem outros incidentes. Do micro para o macro: "respeitem meus cabelos,brancos", é Chico César, um artista que se fez à margem dosesquemas comerciais e irrompeu no circuito das grandesgravadoras à custa de uma popularidade conquistada no boca aboca, nos shows em casas noturnas e no interior, falando de si.É, também, o astro internacional Chico César falando do mundo. "O ´respeito´ deixa de ser só o que o branco deve aonegro; é também o que o palestino diz para o Sharon, pelodireito de ter um país, ou o latino-americano que diz para oBush, pelo direito à autogestão - e aí estão todos, índios,brancos, negros." Mais: "Eu falo pelo meu direito de pertencerao meu tempo sem ter a obrigação de fazer um ´som´característico do meu tempo, enquadrado em normas epreceitos." Chico sabe do que fala, pois urdiu assim a carreira e érespeitoso com ela e incorpora ao seu leque de referências ossotaques, as cores de pele, os instrumentos, os gêneros musicaisque encontra pelo caminho, sem deixar de ter o pé fincado noselementos da primeira formação - o que ouviu na infânciaparaibana. Metáforas, metáforas: "Cabelo veio da África/ Junto commeus santos/ Benguelas, zulus, gêges/ batuques, toques,mandingas/ Danças, tranças, cantos/ (...) Se eu quero pixaim,deixa/ Se eu quero enrolar, deixa/ Se eu quero colorir, deixa(...)." E cada um faça o que quiser com o seu. "Cabelo éevidente, mas há coisas não evidente. E se falo da evidência, oque não é evidente pode aparecer", pretende. O que Chicopretende, ainda, é fugir da redundância, que é a base da cançãopopular. "Mesmo quando faço música cheia de ternura, há umestranhamento, e isso tanto é um propósito quanto uma pulsão -fazer conjugarem as cordas escritas por Nelson Ayres e aprogramação eletrônica do produtor anglo-suíço Will Nowat, numexemplo simples. Deslocamento: "A minha natureza, agora, é cultura. Oque eu faço, agora, é mantural. Mas o meu estado natural, agora,é o de compreender a cultura. É colher os elementos que meformaram e explicitá-los, mesmo que isso choque." Que choque.CD tem múltiplos sotaques - Múltiplos sotaques, timbres, tambores concorrem para dar corpo único à sonoridade de Respeitem Meus Cabelos, Brancos o pernambucano Naná Vasconcelos, o carioca Marcos Suzano, o eletrônico Will Nowat, os sopros da paulista Banda Mantiqueira, da paraibana Metalúrgica Filipéia, o contrabaixo nordestino de Xisto Medeiros e a nova bossa nova brasileiro-londrina do Smoke City, um poema em castelhano do espanhol Luís Pastor lido pela alemã Constanze Eselt.O dueto com Chico Buarque, mais convidado especial, no estranhíssimo abolerado Antinome, que concorreu naquele estranhíssimo festival de música promovido pela TV Globo: "Chamo-te pelo antinome, pai/ Quando o invisível/ Some e se esvai/ Em vinho que não bebo/ Em pão que não comerei jamais." No fundo, em sabor piazzoleano, a sanfona de Toninho Ferragutti.No novo disco, Chico César recorre às parcerias já sabidas com Carlos Rennó, Tata Fernandes e Milton di Biasi, inaugura colaboração com o pernambucano Bráulio Tavares e apresenta a compositora Vanessa Bumagny - não é única parceria deles, mas é a primeira que ele grava.A bela canção Pétala por Pétala, dele e de Vanessa ("Sua presença me faz rir/ Dos dias feitos pra chover") é balada de um Roberto Carlos mais sofisticado, mas o sotaque é esse mesmo, de iê-iê-iê, e o gênero, ou subgênero, faz parte da formação de Chico César e freqüenta desde sempre sua criação.Que se vai sofisticando a cada novo disco, tanto na estrutura das composições (melodia e poesia) quanto na vestimenta dos arranjos. Ainda que não seja tão áspero quanto o CD anterior, Mama Mundi, este Respeitem Meus Cabelos, Brancos não é produto para consumo imediato e descartável. Pode até ser consumido rapidamente - sua engenhosa carpintaria não o faz necessariamente difícil -, mas nunca descartado.Em todo caso, Chico César não quer soluções fáceis. A balada amorosa traz na entranha estranhos contrastes ("Céu negro/ Com arco-íris de néon) e constatações de que as canções de amor costumam fugir (...) Eu queria, eu faria/ Amor com você/ Até a cerveja acabar/ E alguém sair pra comprar").E as tantas combinações de sotaques, as novas companhias e instrumentações não afastam o músico de sua terra natal. Em dois números, isso é óbvio: Sem Ganzá não É Coco e Flor de Mandacaru. Nas outras dez faixas, para quem queira e saiba ouvir.

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