Chico canta o Rio de ontem e hoje em DVD

O prédio da Fundição Progresso, no centro do Rio, quase sob os Arcos da Lapa, foi transformado, há duas décadas, em espaço cultural. É uma estrutura comprida, como condiz à de uma fábrica. O palco fica numa das extremidades da nave. Vêem-se, ao fundo, os prédios da cidade moderna - o cubo desencaixado do BNDES, os edifícios da Avenida Rio Branco. Se o espectador voltar os olhos para a direita, verá, pelas janelas enormes, um outro Rio, secular: os Arcos, originalmente um aqueduto, por cima dos quais passam os bondes que levam a Santa Teresa, o sobradio velho da Lapa. Contra esse fundo contrastante, foi gravado, em 1989, o show contido no DVD Chico, ou O País da Delicadeza Perdida, que a BMG acaba de lançar (73 min., R$ 45,00). Foi um especial encomendado pela emissora francesa de TV FR3. Às músicas gravadas no show foram acrescentadas cenas de arquivos diversos e trechos de filmes musicados por Chico. A direção era de Walter Salles e Nelson Motta. O trabalho foi exibido na França em março de 1990 e, no fim daquele ano, no Brasil, pela extinta TV Manchete. Comemorava os 25 anos de carreira de Chico Buarque. Aquele cenário oferecido pela Fundição Progresso é ilustrativo da tese com que Walter Salles e Nelson Motta se orientaram, usada para dar sentido ao show-documentário: a de que, nos 25 anos decorridos até aquela data, a música de Chico mudou como mudou o Brasil. De um lado, que a Lapa bem representa o convívio da classe média com os pobres, os malandros, o morro ("Contraste, mas não confronto", resume Chico, num dos depoimentos gravados para o DVD). Do outro, aquela cidade que se isola e ignora os desfavorecidos (e a substituição da pequena delinqüência pelo tráfico comandado pelas multinacionais das drogas). O tema é reiterado pelo belo texto em off (sem autor declinado) narrado por Paulo José, contra cenas de um Rio ora inocente, ora violento, e acatado por Chico Buarque, nos seus curtos mas esclarecedores depoimentos, entre uma canção e outra (sempre com imagens em branco e preto; o show é em cores). O show-documentário mostra imagens dos filmes "Joana Francesa" e "Bye Bye Brasil" (Cacá Diegues), "Eu te Amo" (Arnaldo Jabor), do documentário "Uma Avenida Chamada Brasil", de Otávio Ribeiro, entre outros; cenas de arquivo de José Tadeu Ribeiro e imagens de Marieta Severo e de Silvia Buarque, bebezinha, em Paris, durante o exílio do pai. E muito mais, num trabalho inteligente, crítico, franco, amoroso. A última fala de Chico: "Não perco a esperança."

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