Chico Buarque lança disco com duetos

Quando ninguém esperava um lançamento significativo com o nome de Chico Buarque - toda a sua obra foi reeditada em CD e ele está envolvido em novo projeto literário - chega às lojas a surpreendente compilação Duetos, idealizada por seu amigo e produtor Vinícius França. O disco não privilegia os sucessos do compositor nem se restringe a reproduzir as peças disponíveis do acervo da gravadora BMG (que também é a responsável pelos últimos álbuns da carreira de Chico). Até o encarte, que traz fotos de todos os artistas, além das letras e fichas técnicas completas de cada faixa, é superior aos que costumam acompanhar produções desse tipo. O repertório de Duetos, escolhido entre algumas das muitas gravações que Chico partilhou com outros artistas, tem como carro-chefe o tema de abertura da novela Desejos de Mulher, cantado com Elza Soares. É uma versão que Carlos Rennó escreveu para o fox Lets Do It (Lets Fall In Love), de Cole Porter, rebatizada como Façamos (Vamos Amar). As demais faixas não tiveram tanta projeção quanto esta. "São músicas que ficaram dispersas, algumas até quase se perderam, como a gravação de A Rosa, com Sergio Endrigo, cuja fita, de 1979, estava oxidada", explica o produtor. Dentre algumas raridades estão os registros de Mar y Luna, com a cantora e atriz espanhola Ana Belén, e Piano na Mangueira, com a americana Dionne Warwick, duas canções que nunca haviam sido editadas no Brasil. Além dessas duas cantoras, a ala internacional do disco traz o cubano Pablo Milanés, que canta com Chico versão ao vivo de Yolanda. Também pouco conhecida é Desalento, feita com Mestre Marçal no quase esquecido disco Mestre Marçal - Pela Sombra, de 1989. Segundo Vinícius França, a recuperação desse dueto com Marçal, cantor e ritmista que durante vários anos tocou com Chico, tem um valor especial: Desalento, interpretada por Marçal, abria o show Francisco. Vinicius também recorda que o percussionista costumava dizer que, quando gravasse um disco, abriria com esse samba. Lado intérprete de Chico - Outro ponto alto é a comovente faixa Sem Você, em que Chico canta sozinho, mas dialogando no mesmo plano com o cello de Jaques Morelembaum, o violão de Paulo Jobim e o piano de Tom Jobim (que, ao lado de Miúcha, irmã de Chico, volta na faixa Dinheiro Em Penca). Como sempre, as canções de Chico atraem as mulheres, que participam de sete duetos do disco. Elas são co-responsáveis por algumas das melhores faixas do disco, como Dueto (com Nara Leão), Até Pensei (com Nana Caymmi) e Não Sonho Mais (com Elba Ramalho). Outro fator interessante é que a coletânea, em que apenas metade das faixas é de autoria do compositor, ressalta o lado de intérprete de Chico Buarque, confirmando a opinião do compositor e maestro Théo de Barros, que diz que ao longo dos anos Chico conseguiu se tornar um cantor à altura da sua obra. O disco também mostra a desenvoltura de Chico em gêneros musicais diversos, desde o fox, no mencionado Façamos (Vamos Amar), até o coco, em A Mulher do Aníbal, dividido com Zeca Pagodinho. O repertório tem, ainda, o sofisticado choro Seu Chopin, Desculpe, de Johnny Alf, e o consagrado baião Carcará, entoado ao lado do lendário João do Vale.

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