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Chico Buarque, fase a fase, em 22 álbuns

Primeiro o sambista refinado, depois a voz de protesto e, então, o compositor lírico

Lauro Lisboa Garcia,

11 de agosto de 2012 | 07h00

De início discreto, ecos do exílio na Itália, dribles na censura, passos definitivos na definição de uma linguagem, com a mão do tropicalista Rogério Duprat, à consagração de "única unanimidade nacional", como diria Millôr Fernandes, a fenomenal discografia de Chico Buarque dos anos 1960, 70 e meados dos 80 está de volta em nova embalagem.

A caixa De Todas as Maneiras (Universal) reúne 21 álbuns originais (os mesmos da caixa Construção, lançada em 2001) e uma compilação em CD triplo com 37 faixas, de 1967 a 1985, intitulada Umas e Outras, nome de uma de suas composições lançadas somente em compacto no início da carreira. Simultaneamente, chega às lojas o CD duplo Na Carreira (Biscoito Fino), com a íntegra do show Chico.

Além de registros avulsos em compactos de vinil, Umas e Outras, organizada pelo jornalista e pesquisador Cleodon Coelho, traz um punhado das inúmeras participações de Chico em excelentes projetos especiais (O Grande Circo Místico, Tributo a Nelson Cavaquinho - As Flores em Vida, Asas da América), discos coletivos e ao vivo - como Casa de Brinquedo e Banquete dos Mendigos - e álbuns de outros artistas, como Nara Leão, Carlos Lyra, Paulo Vanzolini, João do Valle, Dominguinhos, Francis Hime, Miúcha e Antonio Carlos Jobim.

Alguns poucos figuraram em uma compilação na caixa Construção, que trazia outras ausentes dessa, como a versão ao vivo de Jorge Maravilha, registrada no show Tempo e Contratempo, de 1974, e incluída na caixa de LPs Palco, Corpo e Alma, com registros ao vivo de vários artistas da gravadora Philips.

O diferencial desta vez é a gravação de estúdio de Jorge Maravilha (uma das duas que ele assinou com o pseudônimo Julinho da Adelaide), sobra do álbum Sinal Fechado (1974), que permanecia inédita. A outra, Acorda, Amor, foi um dos destaques do LP de intérprete que Chico lançou num período de maior perseguição da censura. Como se sabe, foi por isso que ele inventou o personagem e conseguiu passar duas canções pela tesoura implacável da ditadura militar.

Na época, dizia-se que o irônico refrão de Jorge Maravilha ("você não gosta de mim, mas sua filha gosta") era dirigido ao ex-presidente militar Ernesto Geisel, que seria pai de uma fã do autor. Desvendado o segredo de Julinho da Adelaide, o próprio Chico afirmou que o verso surgiu de uma situação vivida por ele, quando foi detido por agentes de segurança do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). No elevador, um dos seguranças pediu autógrafo para a filha dele. "Claro que não era o delegado, mas aquele contínuo de delegado", disse.

Em 1995, a Rádio USP levou ao ar a cômica e lendária entrevista com o heterônimo de Chico, feita em 1974 por Mario Prata e Melchíades Cunha Junior.

A versão ao vivo de Jorge Maravilha era um misto de rock e baião. A que foi gravada em estúdio, recuperada por Alice Soares, que gerenciou o projeto da caixa, é mais lenta e suingada, puxando para o sambalanço de Jorge Ben. Em certo momento, Chico até brinca com um trejeito de Jorge, que, de brincadeira meio infantil, no começo da carreira cantava "vochê" em vez de "você".

Retrato paralelo. Em ordem cronológica, a compilação reúne fonogramas de diversas gravadoras, e forma um importante painel, que, segundo Cleodon Coelho, "é um retrato paralelo do período que a caixa cobre". "Seguimos uma linha conceitual. O repertório do primeiro disco é praticamente de sambas, com a batida do violão bem marcada; o segundo tem o viés político, de resistência, bem forte; e o terceiro é mais lírico e também eclético, pois tem frevo, forró e até uma música para crianças, O Caderno", observa. "Sem deixar de fora músicas que já haviam saído em outras coletâneas, mas que - mesmo não sendo da discografia oficial do Chico - foram importantes para a sua carreira, como o dueto com Elis Regina em Noite dos Mascarados (da trilha de Garota de Ipanema) e João e Maria, com Nara Leão."

O talentoso jornalista e crítico musical Leonardo Lichote comenta um a um os álbuns no encarte que acompanha a caixa, traçando um panorama evolutivo da carreira de Chico, com álbuns clássicos como Construção (1971), Chico & Bethânia (1975), Meus Caros Amigos (1976), Vida (1980) e Almanaque (1981), suas obras para teatro - Calabar, O Elogio da Traição (que teve a capa censurada e o título mudado para Chico Canta), Ópera do Malandro e o infantil Os Saltimbancos - e cinema - Quando o Carnaval Chegar, com Maria Bethânia e Nara Leão, Os Saltimbancos Trapalhões e Ópera do Malandro, com canções diferentes da trilha da peça e igualmente por vários intérpretes.

A versatilidade melódica e lírica do craque das palavras, em aspectos políticos, de cronista social, de caráter amoroso sobre a feminilidade, de narrativas teatrais e cinematográficas, de ginga futebolística e outros quesitos mais, são a trilha sonora exemplar e progressiva de um país de tantos contrastes e possibilidades temáticas.

 
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