REUTERS/Danny Moloshok/File Photo
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Chester Bennington levou a ferocidade do rock para as inovações do Linkin Park

Vocalista realmente se destacou por sua flexibilidade, assumindo diferentes personas vocais de acordo com a demanda da canção

Jon Caramanica, The New York Times

21 de julho de 2017 | 10h44

Começando em 2000, o Linkin Park levou a colisão do hard rock com o hip hop para o seu auge comercial e estético, com seu vocalista principal, Chester Bennington, entregando emoção intensa e quase fisicamente palpável junto com o rap equilibrado de Mike Shinoda.

Mas Bennington — que foi encontrado morto na quinta-feira, 20, numa casa na Califórnia — realmente se destacou por sua flexibilidade, assumindo diferentes personas vocais de acordo com a demanda da canção. Isso o fez uma anomalia na sua era: um progressivo dos anos 2000, que baseou seu jeito de cantar na doutrina do rock dos anos 1980 e 1990, e alguém que sabia como extrair sentimentos tanto de sussurros cuidadosos quanto de gritos guturais.

Ele tinha muitos disfarces. Em Numb, do segundo álbum do Linkin Park, ele começava lamurioso e se tornava desesperadamente gutural no refrão: "Tudo que eu quero fazer / é ser mais como eu / e ser menos como você". Em Walking Dead, uma colaboração com o produtor Z-Trip, ele era lânguido e meio preguiçoso. Em New Divide, um hit de meio de carreira da trilha sonora de Transformers, ele era sonhador e praticamente doce. Em Crawling, do primeiro disco do Linkin Park, ele trazia angústia num temporal.

A habilidade de Bennington de emparelhar crudeza com melodia polida o separou de outros cantores de sua época, e também daqueles que ele cresceu ouvindo. Ele era simpatizante do emo num tempo em que o heavy metal ainda estava dominando a agenda do mainstream do hard rock, e um entusiasta do hip hop que encontrou maneiras de fazer músicas com hip hop que se beneficiaram das suas habilidades muito fora desse gênero.

Bennington era tanto o mais poderoso e, de um jeito, o mais convencional membro do Linkin Park, banda na qual ele entrou em 1999 depois de algum tempo liderando outros grupos de hard rock influenciadas pelo grunge. (A banda também incluía Shinoda, Brad Delson, Dave Farrell, Rob Bourdon e Joe Hahn). No Linkin Park, ele era algo como um retrocesso: um cantor de hard rock apaixonado, fervente, numa banda cuja intenção era remixar as convenções do hard rock em cada jogada. O fator único da banda emergia quando ela sustentava tradições do rock enquanto tomava conhecimento da urgência e inventividade da produção de hip hop. Notavelmente, o amálgama não soava subversivo — e sim uma inevitável evolução de um gênero que sempre foi teimoso e lento nas mudanças.

O fim dos anos 1990 foram tempos inebriantes para a intersecção do hard rock com o hip hop. O Linkin Park, que lançou seu álbum de estreia em 2000 (Hybrid Theory), foi a mais simplificada e pop daquela geração de bandas gigantes — menos desorganizada que o Korn, mais madura que o Limp Bizkit.

Eles também colocaram ambição formal no seu ciclo de lançamentos: entre 2000 e 2004, quando a banda estava no seu período mais influente, o Linkin Park lançou dois álbuns de estúdio, e também um disco de remixes e outro disco de mash-ups com Jay-Z. A banda continuou a lançar uma combinação de álbuns por grandes gravadoras, EPs e coleções anuais de demos e mixagens alternativas para os fãs leais.

A divisão de trabalho do Linkin Park era crucial — Shinoda segurava a barra no rap, diligente e um pouco rouco, e Bennington lhe complementava com gritos ferozes e bem controlados, e murmúrios temperados, reflexivos.

Em 2015, numa entrevista para a AltWire, Bennington citou como influências formativas os ícones do grunge dos anos 1990, Soundgarden e Pearl Jam, mas também bandas de rock industrial, como Ministry e Skinny Puppy, além de grupos de punk e hardcore como Minor Threat e Fugazi.

Foi por essa razão que o Linkin Park foi capaz de sobreviver à ascensão e à queda precipitada da era do rap-rock. Bennington era um polímato da música, então nos álbuns seguintes, conforme o grupo ia enfatizando música eletrônica e mesmo toques de new wave, ele foi capaz de soar mais ou menos como em casa. O álbum mais recente, One More Light, foi lançado em maio, e estreou no topo da parada da Billboard.

Mesmo que sua música tenha ajudado a colocar um fim no hard rock arenoso e pálido dos anos 1990, Bennington ainda era simpático aos cantores daquela era. Quando Scott Weiland se separou do Stone Temple Pilots, Bennington assumiu como vocalista principal, fazendo turnês com a banda por dois anos e gravando novas canções. E ele era próximo a Chris Cornell, líder do Soundgarden; apenas dois meses atrás ele cantou Hallelujah no funeral de Cornell.

No Youtube, você pode achar um punhado de vídeos dos dois fazendo turnê no fim da década de 2000, cantando uma versão de Hunger Strike, a elegante e triste canção originalmente cantada por Cornell e Eddie Vedder, do Pearl Jam (no supergrupo Temple of the Dog). Nessas performances, os vocais de Bennington são raspados e ansiosos. Num vídeo, filmado num show de 2008 em Irvine, Califórnia, aos dois se juntam no palco alguns de seus filhos, transformando uma canção sobre perdas inimagináveis numa festa de família, fugazmente livre de toda dor. / Tradução de Guilherme Sobota

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