Chega às lojas <i>Love</i>, álbum duplo dos Beatles

Os Beatles sampleados por eles mesmos, ou melhor, pelo produtor George Martin, que os transformou no maior sucesso da indústria fonográfica. O álbum duplo Love, que chega às lojas esta semana, rearranja 26 canções que foram hit (ou nem tanto), às vezes misturando duas ou três, mas na maior parte do tempo, colocando o baixo e o ritmo bem à frente dos instrumentos melódicos e dos vocais, como se usa na música deste milênio. O resultado agrada aos beatlemaníacos nos anos 60 e a quem aprendeu a ouvi-los com os pais (e avós?). A gravadora EMI-Odeon espera muito do lançamento. Prevê vender 100 mil álbuns no Brasil (quatro discos de ouro, já que o álbum é duplo) e 9 milhões no mundo todo. Love não é mero caça-níqueis. Nasceu como trilha sonora do mais recente espetáculo do Cirque du Soleil, que estreou em agosto, em Los Angeles. "O criador do circo, Guy La Liberté, amigo de George Harrison, pediu as músicas para uma nova criação, mas a morte do beatle, em 2002, adiou o projeto, até sua viúva, Olívia, convencer Paul McCartney, Ringo Starr e Yoko Ono, a autorizar", contou o gerente de Marketing Estratégico da EMI-Odeon, Luiz Garcia. O que ele não conta é que os Beatles raramente permitem outras versões de suas músicas desde os anos 80, quando as brigas os fez perderem os direitos sobre o acervo, uma questão judicial ainda não resolvida. No vídeo que antecedeu à audição do disco, na terça-feira, Paul elogia os músicos do Cirque du Soleil e explica por que preferiu ceder os fonogramas dos anos 60. "Assim, eles não vão para um museu, como a música de Mozart ou Bach." Não faltarão arrepios à declaração do beatle, mas Love evidencia a qualidade da produção do quarteto. A maioria das faixas só foi mexida para ficar mais dançante, como pede o mercado atual. I?m the Walrus, I Want to Hold Your Hand, Help, Revolution, Back in the URSS, Stg. Peppers, Lucy in the Sky with Diamonds ou Get Back, que já lotavam pistas quando lançadas, mas hoje seriam quase músicas lentas, diante do batidão das raves e bailes funk e hip-hop. Outras foram misturadas e a melhor faixa é Whitin You Without You com Tomorrow never Knows, em que a viagem oriental de Harrison se mescla com a primeira experiência eletrônica dos Beatles. Lady Madonna ganha introdução com os vocais que percorrem a urgência da voz de Paul e Hey Jude perde um trecho e parte da orquestração grandiosa que a caracterizava. As não dançantes tiveram mudanças menos radicais. Because perdeu os solos de guitarra e ficou só a capela, Eleonor Rigby e Yesterday tiveram as cordas solando em vez de fazendo fundo, como nas versões originais. Nada muito diferente que todo mundo fez quando descobriu que os Beatles aproveitaram todos os recursos do som estereofônico (novidade nos anos 60), nos quatro ou oito canais de que eles dispunham. As músicas de George tiveram tratamento diferenciado. While My Guitar Gently Weeps misturou a versão demo (já lançada nos anos 90), mais pungente com mais uma estrofe, com o acompanhamento da que foi para o álbum Abbey Road. "Here Comes the Sun" e Something ficaram quase integrais. Ainda bem que não tiraram os solos históricos de Harrison nestas canções. É dele também a faixa mais curiosa, Gnik Nus, nada mais que Sun King, escrita e tocada de trás para diante, recurso do qual Martin sempre se valeu. A Day in Life também não mudou muito, mas o duelo John e Paul ganhou um batidão. Love deve ter clipe antes do ano-novo. Afinal, esta é mais uma invenção do quarteto, os primeiros músicos a produzirem um filme com Penny Lane e Strawberry Fields for Ever, para divulgá-las na TV. De lá para cá, eles não pararam de vender. Segundo Luiz Garcia, todos os discos da banda (dez de carreira e várias coletâneas) estão no catálogo por obrigação contratual ("se um sair, perdemos todos", explicou), mas vendem muito bem, no mínimo 2 mil por mês de cada um. "O que vende mais é 1, com as canções que chegaram ao topo da parada de sucessos", informa Garcia. "Entre os de carreira, Sargent Pepper?s Lonely Hearts Club Band é o campeão."

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