Chega ao Brasil o primeiro solo de Beth Gibbons

A estréia-solo da magnífica cantoraBeth Gibbons, do grupo inglês Portishead (banda que está "dandoum tempo") merece um grande destaque entre os lançamentosfundamentais de 2002. Ela fez um discaço com orquestrações retrô déjà vu, como aquelas de Burt Bacharach, misturando um timingjazzístico com folk acústico e grande dose de sentimento emelancolia. Out of Season (Universal Music), que trouxe BethGibbons de volta ao centro do palco após cinco anos de exíliovoluntário, suscitou comparações apaixonadas dos fãs. Para uns,ela é uma nova Karen Carpenter, a trágica voz anoréxica dosCarpenters. Para outros, o encontro de Tori Amos com BillieHoliday. Uma "relutante Piaf", segundo um jornal. "Aqueletipo de voz de background que era usado nos filmes de Hollywooddos anos 30", salientou outro. Como a palavra final é sempre a última, é preciso dizerque ela lembra muito mais Joni Mitchell, mas na verdade tem umestilo único. A voz e a profundidade da interpretação de BethGibbons já chamavam a atenção nos álbuns do Portishead. Ela nunca faz algo só para preencher um espaço vazio."Amo a surpresa das coisas, os acidentes... o simples som deuma palavra, tentar expressá-las do melhor jeito, e é aí que aemoção é totalmente revelada", explicou a cantora. Beth não está só nesse disco, na verdade. Ela fez odisco em colaboração com o baixista Paul Webb, ex-integrante dogrupo Talk Talk (mais conhecido como Rustin Man). Aindaparticipa, tocando guitarra, seu colega do Portishead, omultiinstrumentista Adrian Utley, além de Lee Harris e SimonEdwards (os dois também do Talk Talk). O disco, basicamente acústico, traz apenas duas cançõesao estilo inequívoco do Portishead, Funny Time of Year eRustin Man. Vocalizações tristíssimas, como aquelas do triphop inglês, como se a diva estelar estivesse soltando um gritode desespero e solidão numa estação espacial abandonada. "Um sério concorrente ao disco do ano, essa sedutoracolaboração entre Beth do Portishead e Paul Webb do Talk Talkfaz uma reverência a todos os que se situam entre John Barry eNick Drake e o Radiohead", assinalou a revista i-D. "Vocêpode ver a pintura", escreveu o resenhista Paul Moody, dosemanário New Musical Express. Mas foi o diário Independent que foi mais longe nasua busca de uma definição. "Out of Season, o primeirodisco-solo dela, gravado com seu velho amigo e ex-baixista doTalk Talk Paul Webb (à guisa de Rustin Man), encontra Bethadotando uma variedade de diferentes personas, narrando cada umacom uma diferente perspectiva - às vezes masculina -, duelandocom temas de mortalidade e isolamento, freqüentemente usandometáforas pinçadas da natureza. Cada vez ela emprega umadiferente ´voz´, de um sussurro a um grito. Não seria surpresase ela em breve estivesse trabalhando com David Lynch." A brincadeira com as personas fez com que ela fosse tida na interpretação de Tom The Model, como a "senhora BryanFerry"; na canção Show, sua voz se transmuta num vibrato detrompete ao estilo Chet Baker; já em Romance, ela vai maisdiretamente ao moinho definitivo, Billie Holiday. Não vai ser a mesma cantora que os fãs do Portisheadesperavam, aquela que conquistou o mundo com o verso "give me areason to love you" (Glory Box). Verões em colapso, folhas velhas, um delicado jeito deaceitar a proposta simplesmente porque não pode dizer não. Amatéria-prima das canções é simples e básica. A contracapa dodisco traz um homem anônimo olhando para uma paisagem na qual sedestaca um velho ancoradouro semi-submerso, tudo permeado poruma cor de melancólica ferrugem.Out of Season - CD da cantora inglesa Beth Gibbons.Preço médio: R$ 30. Lançamento Universal Music

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.