Érico Toscano
Érico Toscano

Céu lança seu primeiro álbum só como intérprete

Batizado de 'Um Gosto de Sol', disco traz versões de músicas de Rita Lee, Ismael Silva, Alcione e Sade

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

12 de novembro de 2021 | 15h58

Quando Céu canta os primeiros versos de Ao Romper da Aurora, samba de Ismael Silva, Lamartine Babo e Francisco Alves, da década de 1930, que abre seu novo álbum, Um Gosto de Sol, ela traz consigo uma porção de gente e de sentimentos

Primeiro, porque a canção foi uma sugestão de seu pai, o maestro Edgard Poças - ele foi amigo de Ismael -, que, ao lado dela, do produtor Pupillo, marido de Céu, e do diretor artístico Marcus Preto, um velho amigo, foram os responsáveis por formatar o repertório deste que é o primeiro disco totalmente de intérprete da cantora paulistana. Por aí, então, vê-se o afeto envolvido no projeto - algo essencial em tempos de pandemia.



Soma-se a isso o fato de o samba escolhido estar injustamente esquecido. Logo ele que tem versos como “Chega o dia/desaparece a tristeza/fica a alegria /pela própria natureza”. Um canto de confiança no que está por vir em sua mais pura essência - e inocência.

Por fim, ainda sobre Ao Romper da Aurora, é preciso destacar que o violão sete cordas que se ouve junto a voz de Céu, e que faz a cama para o sentimento da cantora fluir, foi tocado por Andreas Kisser. Sim, o guitarrista e líder do Sepultura, uma das bandas de metais mais famosas do mundo. O músico acabou entrando para a banda de base do álbum e tocou em todas as 14 faixas o instrumento que ele aprendeu para participar do projeto, a pedido do Céu, que desejava essa sonoridade.

O convite a Kisser foi motivado depois que Céu e Pupillo o viram, em um vídeo postado nas redes sociais, tocando cavaquinho junto ao filho.  Um momento terno que pais e mães artistas puderam vivenciar com mais intimidade nessa parada obrigatória de shows. Assim como Céu que viu a filha mais velha, Rosa, de 13 anos, entrar na pandemia como uma criança e sair na adolescência; e o mais novo, Antonino, agora com 4 anos, virar um “molequinho”, como ela diz. 

Esse turbilhão de sentimentos fez com que Céu vivesse um momento mais introspectivo que a levou a optar por dar voz a canções que ela não escreveu, depois de cinco álbuns de estúdio e um ao vivo, nos quais ela cantou um repertório majoritariamente autoral, embora, por vezes, nomes como Caetano Veloso, Jorge Benjor, João Bosco e Aldir Blanc e Nelson Cavaquinho ganhassem espaço.

“Esse tempo foi uma lupa para o nosso micromundo, nossa casa, nossa estrutura, do que aguentamos de nós mesmos. E, ao mesmo tempo, um olhar para o coletivo, com situações drásticas externas. Diante disso, não me senti inspirada para compor, mas sim para refletir sobre o todo. E o lugar de acalanto, de aquecer a alma, foi os artistas que eu amo. Esse disco faz o resgate de alguns deles”, diz.

Dentro disso, outra canção que Céu buscou no fundo do baú para esse álbum é Teimosa, da dupla de compositores Antônio Carlos & Jocafi, representantes do samba afro baiano, lançada em 1973. “As músicas deles têm uma dolência, uma coisa para trás, que sempre busquei. Esse balanço sempre bateu no meu peito. E, como sou teimosa, achei que essa faixa cabia bem”, diz a cantora. Os vocais, com aquelas típicas respostas que a dupla costuma colocar nas canções, foram feitos em falsete por Russo Passapusso, da banda BaianaSystem.

O álbum Um Gosto de Sol também fala muito sobre o feminino. Há, por exemplo, a gravação de Chega Mais, sucesso libertário de Rita Lee, que ganhou versão puxada para o rock, em pegada executada por Pupillo na bateria, Kisser no violão, Lucas Martins no baixo e Hervê Salters nos teclados.

 


Pode Esperar, gravação original de Alcione no disco Grito de Alerta, de 1979, é um verdadeiro hino do empoderamento feminino, quando a palavra não era tão conhecida, mas a luta pela afirmação da mulher já estava posta à mesa.

“Alcione é uma artista de primeira grandeza. Estive apenas uma vez com ela e tremi. Quando ouvi essa música, disse: olha essa letra! É empoderamento, força. É tão atual. É Marília Mendonça. É preciso passar essa mensagem para a frente de novo e de novo”, diz Céu.

Sobre esses elos da música, algo que a cantora também perseguiu para esse disco, Céu foi buscar um lado B do trio punk/rap americano Beastie Boys. A faixa I Don’t Know, do álbum Hello Nastie, de 1998. Uma bossa nova, na verdade.

O gênero ainda se faz presente pela regravação do samba Bim Bom, composição de João Gilberto, lançada em 1958, no lado B que trazia a canção Chega de Saudade com a tal batida diferente que influenciaria a música no mundo todo - inclusive, os Beastie Boys quatro décadas depois.

De suas influências e do que gostava de ouvir, Céu trouxe o pagode Deixa Acontecer, hit do grupo Revelação no começo dos anos 2000; Paradise, da cantora britânica Sade; e Criminal, de Fiona Apple.



Todo esse caminho que Céu percorreu nesse álbum pode, de certo modo, ser traduzido pela faixa que o batizou. Composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, gravada no lendário disco Clube da Esquina, de 1972, Um Gosto de Sol fala sobre a busca de sonhos, de não largar os sentimentos esquecidos para trás. “A gravação foi muito emocionante. Um gosto de sol é justamente o que desejamos. Há esperança nisso. Meu jeito de guerrear é amoroso”, resume.

Céu ainda não sabe quando levará o álbum para o palco - a presença de Andreas Kisser, de fato, é importante para o trabalho e ele está sempre em longas turnês com o Sepultura. O show que ela voltará a apresentar em breve é ainda baseado em APKA!, seu disco autoral lançado em 2019.

A cantora fará dois shows na reabertura do Studio SP, na Rua Augusta, nos dias 19 e 21 de novembro - ambos com ingressos já esgotados. “Voltar para uma casa icônica, importante para a formação de grandes artistas e músicos, é uma felicidade. Meu primeiro show do disco Céu, de 2005, foi na Rua Augusta. Estou muito feliz”, diz.

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