Cesaria aproxima ritmos africanos e brasileiros

Cesaria Evora ainda não foi avisada e talvez não saiba, mas é brasileira. Não geograficamente. Ela nasceu do outro lado do Atlântico, na pequenina ilha de São Vicente, Cabo Verde, e logo cedo descobriu que viera ao mundo para cantar. Seu canto, porém, não deixa dúvidas. A alma de Cesaria Evora está cada vez mais convertida à música que se faz por aqui.São Vicente di Longe, seu oitavo e mais recente álbum, encurta o caminho entre ritmos africanos, como mornas e coladeiras, e o formato brasileiro de se fazer canções. Ainda mais que em Café Atlântico, seu melhor e mais importante disco, ela reaparece identificada com a familiar sonoridade conseguida quando cavaquinhos e violões são sustentados por arranjos camerísticos de metais e cordas.Por sinal, todos do álbum são assinados pelo violoncelista brasileiro Jacques Morelembaum. Para interpretá-los, Cesaria usa um curioso dialeto crioulo, que pode ser entendido como um "quase" português.Na saudosa Regresso, esta em português de Portugal mesmo, Cesaria grava novamente com Caetano Veloso (os dois já haviam registrado uma parceria no disco Red Hot & Rio) e o clássico Negue, de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos, cantado há anos por Maria Bethânia. Nesta, o piano que se ouve é do jazzista cubano Chucho Valdés. Cigarro afina a voz - O crioulo de Cabo Verde, uma mescla entre português e termos africanos, é o único dialeto com o qual Cesaria consegue se expressar. Com jornalistas brasileiros, "para não haver erros", como diz, prefere usar uma intérprete portuguesa. "Este disco é mais uma junção de ritmos cubanos, cabo verdianos e brasileiros. Não diria que é mais brasileiro que meus outros trabalhos", fala sobre o assédio que tem feito à música brasileira.A inspiração de Cesaria é curiosa e levantaria os cabelos do Ministério da Saúde daqui. "O que me faz cantar com sentimento? Ah, os cigarros. É com eles que eu afino a voz." Quando lembra a situação econômica de Cabo Verde, onde vive em uma casa com dois filhos e dois netos, volta a falar sério. "É muito difícil. Tem o desemprego alto, a fome e a falta de chuvas. Mas temos o sol, o mar e as pessoas simpáticas. São coisas que fazem valer a pena viver aqui."Cesaria Evora - "São Vicente di Longe" (gravadora BMG) Preço médio: R$ 21.

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