Cesar e Romero mostram seu "Duo"

Em 1996, Cesar Camargo Mariano convidou Romero Lubambo para integrar o quarteto como qual se apresentaria no festival de jazz de Montreux. Desde lá, alimentaram, ambos, a idéia de tocar em duo: piano e violão, cordas percutidas e cordas dedilhadas. Coisa nada fácil. Uma combinação que ou dá muito certo ou não dá em nada ? mesmo quando os músicos implicados são mestres em seus instrumentos. O bom resultado implica rigorosa cumplicidade dos instrumentistas, no estabelecimento generoso de espaços para um e outro, no recolhimento ? não acanhamento ? de um para que o outro surja em solo, na fluência do diálogo quando atuam ao mesmo tempo, em pé de igualdade; sobretudo, no respeito às especificidades sonoras de cada grupo de cordas, no cuidado para que os sons harmônicos, em freqüências diferentes, de um, sejam respeitados e valorizados pelo outro. Coisa danada. Foram necessários seis anos para a concretização da idéia e da vontade surgidas nos anos 90. O encontro, em estúdio, mas em gravação direta, como se ao vivo, resultou no disco Duo (gravadora Trama), que Cesar e Romero lançam em shows, hoje e amanhã, no Sesc Vila Mariana. Sim, é um disco belíssimo. Cesar e Romero superaram todas as exigências mencionadas acima e foram mais longe. Criaram um corpo único, em que piano e violão atuam, mesmo guardando seus sotaques, suas pronúncias, suas personalidades, como se fossem um corpo só, íntegro ? um corpo e suas muitas possibilidades de expressão, movimento, vozes. Cesar Camargo Mariano já havia experimentado o formato piano-violão. Em 1981, em clima de gravação ao vivo, como agora, gravou, pela EMI, com Hélio Delmiro o elepê Samambaia, duas vezes reeditado em CD, duas vezes esgotado. Foi e é um marco da música instrumental brasileira. Era o segundo disco-solo de Cesar, que alimentava, desde muito, a vontade de tentar o formato. Hélio Delmiro havia sido seu companheiro no conjunto que acompanhava Elis Regina. Foi a escolha óbvia. A ousadia da proposta foi recompensada: sucesso de público e crítica, Samambaia virou referência e surgiram vários outros duos de piano e violão ? eles haviam provado que era possível trabalhar com os dois instrumentos e chegar à excelência. Romero e Cesar moram há muito tempo nos Estados Unidos e tocam juntos há outro tanto tempo, o que cria circunstâncias semelhantes àquelas que deram origem a Samambaia. No entanto, embora a audição de Duos faça, em vários momentos, lembrar a atmosfera de Samambaia, o novo disco não é uma reconstituição daquele, passados 22 anos. Cesar guarda suas marcas registradas, que estão nos dois discos, mas é hoje instrumentista, compositor e arranjador mais maduro, mas sóbrio, de pronúncia mais sólida. Romero Lubambo, um dos grandes nomes do violão brasileiro, é músico de personalidade própria e de versatilidade não muito comum: é tão bom tocando em grupos quanto em solo ou acompanhando cantores (seu voz e violão com Leny Andrade, editado pela Lumiar, é o melhor disco da cantora). O repertório de Duo é a base do show que Cesar e Romero apresentam hoje e amanhã. Vai de samba de Djavan (Samba Dobrado) a standards jazzísticos (Joy Spring, de Clifford e Max Roach), de bossa jobiniana (Wave, Fotografia) a composições de Cesar (Choro # 7) e Romero (Mr. Jr.). Duo é um novo marco. O melhor Cesar dos últimos tempos, um Romero como não se ouviu antes.

Agencia Estado,

19 de março de 2003 | 12h51

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