César e Elis: um encontro de família que nunca havia acontecido

João Marcello Bôscoli, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 02h00

Já li algumas vezes que para o nosso cérebro não há distinção entre sonho e realidade. Embora seja algo poético, permaneceu a dúvida. Passei a prestar atenção no assunto, sobretudo às sensações físicas ainda pertencentes à experiência do sono logo após despertar. Excitação, alívio, saudade, conforto.

Com esse assunto na cabeça, cheguei ao meu estúdio de manhã, onde já estavam estacionados quatro caminhões e cerca de cem pessoas trabalhavam no longa-metragem desde a noite anterior. Um acontecimento.

Ao entrar, passei ao lado do camarim e, sem querer, dei de cara com Elis. 

Abracei-a esperando não atrapalhar sua preparação para a filmagem, torcendo intimamente para o encontro ter sido positivo para sua atuação. Caminhei até minha sala e no pequeno trajeto vi o Cesar Mariano, introspectivo e intenso, tal qual sempre fora, tomado por seu ofício.

Entrei na minha sala e fechei a porta. Com seu isolamento acústico, restamos eu e o silêncio. E o filme lá fora acontecendo, em um endereço onde os dois já gravaram nos anos 1970.

Senti-me numa cápsula do tempo.

Fui levado a lembrar da Björk me dizendo durante uma conversa há alguns anos não ter coragem de ir emocionalmente onde Elis ia, afinal, não saberia se conseguiria voltar. Eu, exatamente como a islandesa, também desconhecia o caminho da volta, caso embarcasse no sonho deles estarem ali, de novo, a poucos passos de mim. Resolvi ficar onde estava, vivendo exclusivamente a sensação de duas pessoas fundamentais na minha vida – e na música –, terem a sorte de alguém decidir dramatizar passagens de suas trajetórias em uma nova obra. É regime de exceção, sobretudo no Brasil, rei da amnésia.

E assim o dia seguiu, com as gravações dentro do estúdio principal recriando a atmosfera de gravações antológicas de Elis, sempre apoiados pelos áudios originais registrados por ela. Decidi não entrar nesse ambiente, sobretudo para não atrapalhar a atuação da equipe – sei que não sou alguém neutro na paisagem. E o autoengano também protege.

Porém, no final da tarde, quem atuou foi o destino. Entre uma brincadeira e outra no jardim do estúdio, houve o único chamado que me levaria até o centro dos acontecimentos: “Pai... Vamu ali? Quero ver...”. Os dez minutos seguintes foram dos mais especiais em toda minha vida. O encontro de família que até então nunca aconteceria, aconteceu. Envolvido em amor, a única força realmente transformadora, sonhei acordado.

LEIA MAISCaco Ciocler estuda piano para viver Cesár Camargo Mariano nos cinemas


Mais conteúdo sobre:
Cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.