Cérebro Eletrônico promove experimento sonoro

Em show de lançamento do álbum ‘Vamos pro Quarto’, grupo faz críticas à vida contemporânea nas cidades

Lauro Lisboa Garcia - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

09 Outubro 2013 | 20h49

Uma saudação aos passarinhos que remodelam o estilo de vida na metrópole (quando alguns paulistanos vêm reclamando dos pios madrugadores dos sabiás-laranjeira), a força da grana que destrói casas belas para poluir o horizonte com horrendos condomínios de vidros espelhados, o aprisionamento da internet que entristece os relacionamentos humanos. Esses e outros assuntos permeiam o novo álbum do grupo paulistano Cérebro Eletrônico, Vamos pro Quarto, que tem show de lançamento nesta quinta, 10, no Sesc Vila Mariana.

Compositor, vocalista e figura central da banda, Tatá Aeroplano vive muitos personagens nas canções e vai interpretá-los de forma teatral e performática no palco. A impactante canção que encerra este quarto álbum, aliás, remete aos happenings sonoros e narrativos de Aguilar e à Banda Performática e Arrigo Barnabé na fase Clara Crocodilo. Há muita experimentação em canções longas que soam ao mesmo tempo acessíveis, com Tatá experimentando novas regiões vocais, e uma saborosa diversidade sonora dentro do pop-rock, seja a psicodelia à Mutantes, o funk-rock ou algo gótico da década de 1980. É talvez o trabalho mais bem elaborado da banda.

Para tanto, Tatá, Fernando Maranho (guitarra), Gustavo Souza (bateria), Fernando TRZ (teclados) e Renato Cortez (baixo) fizeram uma imersão num sítio em Bragança Paulista, próxima à capital paulista, e criaram em três dias e noites as canções do álbum (e “mais umas 15” que devem lançar em breve) e as registraram em áudio e vídeo, com coprodução e mixagem de Otavio “Ota” Carvalho e masterização de Fernando Takara.

No entanto, mesmo com esse isolamento na natureza, que inspirou a canção que abre o CD, Um Brinde aos Pássaros, o perfil do álbum é de temática urbana. E Tatá, que nasceu em Bragança, é personalidade conhecida na noite cultural paulistana. “Desde que me mudei para São Paulo, duas coisas começaram a chamar a minha atenção. Uma é a presença maciça de pássaros em São Paulo, que estão repovoando as áreas que têm árvores. A outra é a especulação imobiliária, que é terrível e transforma a cidade de maneira muito brusca. Isso mostra falta de percepção de uma forma global, que vai se refletir logo mais. As pessoas vão se ligar de que não deveriam ter ido por esse caminho”, diz Tatá, que fala disso em Não Bateu.

Outra canção de apenas três versos, Tristeza Retrô também aborda um tema consequente dessa confusão – “Eu já fui triste/ Mas muito triste/ Hoje eu sou mais” – e abre espaço para grandes planações instrumentais. Uma reflexão sobre a “nova existência” com a servidão à tecnologia da comunicação é tratada no conceito sonoro de forma ainda mais surpreendente em A Internet Parou. “Entre a nossa existência virtual e a real muitas coisas confluem de forma legal, outras não. Estou muito no meio virtual, mas também perco o bonde porque saio pro mundo real. Quando a gente estava lá no sítio, os caras começaram a puxar um groove e o texto dessa música veio de bate-pronto, com tudo o que eu tinha engasgado sobre essas relações”, diz Tatá.

O show vai ter apenas as nove canções de Vamos pro Quarto e, no bis, eles devem tocar algumas de seus álbuns anteriores, Onda Híbrida Ressonante (2004), Pareço Moderno (2008) e Deus e o Diabo no Liquidificador (2010). Quem disse que as bandas atuais já não ousam nem fazem mais rock do bom?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.