Cenografia de "Noites do Norte" explora idéia das ausências

Num primeiro olhar, o show Noites do Norte, de Caetano Veloso, propicia um mote perfeito para delírios cenográficos. Na canção que dá título ao show, o compositor baiano musicou um texto do político e estadista Joaquim Nabuco, publicado no livro Minha Formação, no qual ele fala sobre a ressonância da escravidão negra na alma do povo brasileiro. Sob essa inspiração, miríades de imagens poderiam ser projetadas sobre o palco. "Bom cenário é cenário invisível", rebate Hélio Eichbauer. "Não quero usar a palavra minimalista porque está desgastada, mas a cenografia de Noites do Norte se traduz mais pelas ausências, deixando um espaço cênico generoso para os intérpretes." Premiado nacional e internacionalmente por seus cenários para teatro - desde a antológica montagem de O Rei da Vela, de José Celso Martinez Correa no Teatro Oficina em 1967 -, ópera e shows, Eichbauer faz agora seu sétimo cenário para Caetano Veloso. Cenários "invisíveis" que lhe valeram projeção internacional e até verbete em enciclopédias. Portanto, que ninguém se engane. No vocabulário de Eichbauer, "ausência" é sinônimo de perfeita integração entre cenografia, iluminação, músicos, Caetano e, claro, música. "Gosto muito de fazer cenários para shows, porque a fonte de inspiração - sons no espaço, ritmo - permite um grau de abstração muito maior do que a prosa no teatro."Cosmos - Um painel pintado de 6 metros de altura por 20 de largura no fundo do palco é o único elemento cenográfico da primeira parte do show. "São dois espaços cênicos distintos. Em ambos optei por trabalhar com fundos, deixando uma grande área livre para a movimentação dos músicos." A fonte de inspiração para a pintura foi a pele humana, mais especificamente as costas de um negro africano que sangra. "Mas é uma pintura abstrata, pode remeter a um muro ou a um vulcão formando larvas. Dá liberdade para muitas leituras." Na segunda parte, o painel é substituído por outro de mesmo tamanho em veludo azul. "O azul profundo das noites brasileiras." Mas não é só. Se na primeira parte predominam a pintura e a abstração, na segunda o cenógrafo explora geometrias. Eichbauer instalou quatro espelhos convexos no piso do palco e um outro na fundo de veludo azul, estreitando ainda mais a parceria com o iluminador Maneco Quinderé. "São espelhos convexos que captam e projetam a luz. São plasmas de luz, luz líquida. Um dos efeitos da iluminação sobre os espelhos é ampliar espacialmente essa idéia de cosmos." O espelho convexo suspenso contra a cortina ganha diferentes formas em momentos distintos do show: lua, sol, gota d´água. "Num dos momentos, há um efeito de eclipse."

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