Thomas Rerat/Divulgação
Thomas Rerat/Divulgação

Cena de festas independentes partiu do ‘desejo de ocupar a rua e experimentar’, diz dupla Selvagem

Millos Kaiser e Augusto Trepanado comentam o cenário movimentado de produções em São Paulo

Entrevista com

Millos Kaiser e Augusto Trepanado, da Festa Selvagem

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2017 | 10h53

A festa Selvagem - organizada pela dupla de DJs Millos Kaiser e Augusto Trepanado - foi considerada diversas vezes a melhor de São Paulo, tanto por publicações especializadas quanto pela mídia tradicional. O evento que ocorreu com regularidade nos domingos na Praça Dom José Gaspar, no centro da cidade, se espalhou pelas ruas e por clubes também já conquistou a Europa em turnês pelo Velho Continente. Com um misto criativo de disco, house, rock e soul de todas as eras, a dupla também faz parte do line-up do Dekmantel Festival, que ocorre nos dias 4 e 5 de fevereiro em São Paulo.

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Eles responderam a algumas questões do Estado sobre a cena independente de festas em São Paulo.

O que está acontecendo aqui em SP e quais fatores possibilitaram essa proliferação de festas e produções que recebem milhares de pessoas todo fim de semana?

Millos: Foi uma conjunção de fatores. Iniciativas pioneiras, como a Voodoohop - ironicamente capitaneada por um alemão, o Thomas - mostraram para os produtores e DJs locais que era possível - e muito mais divertido - ocupar lugares fora da estrutura tradicional de um clube para fazer uma festa. Ao mesmo tempo, um desejo de experimentar mais a cidade, ocupar a rua, começou a dominar o inconsciente coletivo, talvez. A ida a um club acabou ficando cara e restritiva demais - há comanda para o consumo, seguranças truculentos, etc.  

Augusto: Acredito também que as festas se tornaram locais de experimentação - encubadoras de talentos - que dificilmente floresceriam na estrutura tradicional dos clubes, uma característica que não demorou a ser abraçada pelo público em sua diversidade.

É possível falar numa “cena”?

M: Para mim, sim. As diferenças estéticas e musicais entre os coletivos existe, e isso é ótimo. Mas todos se unem na vontade de ocupar partes diferentes da cidade e fazer festas mais democráticas, acessíveis.

Quais são as dificuldades do mercado e como vocês estão superando elas?

M: Acho que festas passam um pouco ao largo da crise. O pessoal gosta de "se jogar" tanto na felicidade quanto na tristeza. Mas é claro que você tem que ajustar sua operação a situação do país para que o público continue aparecendo.  

A: Diria que as dificuldades são parecidas com as de qualquer comércio, uma vez que o poder aquisitivo das pessoas só diminuiu, então o desafio é fazer com que elas queiram ir na festa mesmo com tantas opções disponíveis na noite de São Paulo. Nós lidamos com isso praticando preços honestos na entrada e no bar, sendo fiéis ao nosso espírito, renovando o repertório, apresentando novos artistas, cativando nosso público enquanto atraímos novos grupos de pessoas, promovendo a mistura saudável que sempre caracterizou a Selvagem.

Quais são as diferenças entre festas “tradicionais” de música eletrônica e a proposta da Selvagem, por exemplo?

M: Acho que a Selvagem se distingue das outras grandes festas independentes (Carlos Capslock, ODD e Mamba Negra, só para citar algumas) em sua abordagem musical mais anárquica. Enquanto o techno predomina atualmente, gostamos de tocar techno, house, disco, música brasileira, reggae e o que mais for possível num mesmo set. Gostamos que nossas festas tenham começo, meio e fim, com picos e baixas de energia. É uma coisa mais baile e menos rave.

Quais são os próximos projetos?

M: Em 2017 estamos abrindo um selo, Selva Discos, que vai relançar discos perdidos brasileiros e lançar músicas de novos produtores e reinterpretações para obras antigas também. Vamos ainda estrear dois programas de rádio - um numa estação portuguesa, a Radio Quântica, e outro na francesa Meuh, e lançar tracks nossas por outros selos. 

A: Vale destacar que os dois primeiros lançamentos do selo são ligados à cantora Maria Rita Stumpf e seu disco Brasileira, de 1988, o qual estamos relançando oficialmente e também remixando algumas das faixas. É provável também que lancemos uma coletânea - também de música brasileira - ainda neste ano.

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