Celso Fonseca, de Tom Jobim a MC Leozinho

Compositor carioca revisita mitos, relê os próprios clássicos e até reinventa o funk no seu novo CD, 'Feriado'

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo,

04 de dezembro de 2007 | 18h53

Tudo começa e termina na canção, ensina o compositor, músico e intérprete Celso Fonseca. E, na urgência de cantar, não importa se a canção é de Tom Jobim ou do MC Leozinho, demonstra ele no seu novo CD, Feriado. Com uma carreira que há anos se desenvolve principalmente na Europa, Estados Unidos e Japão, Celso montou o repertório do novo disco com as "mais-mais" de seus shows, e ainda releituras de composições próprias que já haviam sido sucesso na voz de outros intérpretes. É o caso de Sorte, gravada por Gal Costa e Caetano Veloso em Bem Bom, disco dela de 1985.  Veja também:Ouça trecho de 'Ela só pensa em beijar'  Ouça trecho de 'Sorte'   Como intérprete e arranjador, Celso aproveita para se aventurar por mares revoltos da canção - dos já citados Tom Jobim e MC Leozinho, ele gravou Águas de Março e Ela Só Pensa em Beijar. O resultado é um disco leve, para pôr para tocar e imaginar que é um feriado de sol no Rio de Janeiro, ainda que não seja. Lá, com o Cristo Redentor na janela, Celso recebeu o Estado e explicou o processo que levou ao disco. Feriado não é um disco que se espera de um compositor, tem poucas composições suas. Como foi a escolha deste repertório? Esse repertório foi se formando a partir de coisas que eu vinha fazendo nos shows. Às vezes, punha uma música diferente, às vezes incorporava alguma coisa que gostava de cantar em casa. Como eu fico muito entediado de fazer o mesmo repertório o tempo inteiro, acrescento outras músicas para ter um jogo de cintura. Você reinventou Ela Só Pensa em Beijar, do MC Leozinho. Por que um compositor tão delicado quanto você resolveu se arriscar pelos caminhos do funk, estilo nada sutil?  Sou muito ligado à canção, àquela canção que te pega, não importa o gênero e de onde ela veio, não importa se foi o Tom Jobim, o Jamie Cullum ou o Claudinho & Buchecha que fez. Há dez anos, isso aconteceu com a música Conquista, do Claudinho e Buchecha, para a qual eu fiz uma versão. Surpreendeu muitas pessoas, e agora aconteceu a mesma coisa. Eu ouvia e pensava "que música bacana!". Refiz a harmonia da música e, essencialmente, acho que é uma grande canção. Daqui a 20, 30 anos, se alguém regravar, ela vai fazer sucesso de novo, porque é uma grande canção. Quando você fala em "rearmonia", quer dizer que demoliu a estrutura e aproveitou a letra ou que ali havia sim uma boa base musical para ser apenas trabalhada? É possível que haja uma boa melodia no meio dos batidões? Sim. Mudei uma coisa ou outra da melodia para suavizar um pouco dentro do arranjo que fiz. E refiz a harmonia porque, dentro do funk, ela tinha poucos acordes. Eu trouxe mais para o meu jeito. Acho que vem ao encontro do que eu digo, que ela precisava ser dita dessa maneira, mais suave, mais romântica ainda, sem o batidão. Toda grande canção se presta a todo tipo de releitura. Qual é a sensação de gravar uma música sua que já foi sucesso na voz de outro, como Sorte? É também como fazer uma releitura, só que uma releitura de uma coisa sua, não? Sim. Me deu vontade de regravar, porque ela foi gravada há muito tempo, em cima da gravação da minha demo. Adoro a versão dos dois, mas fiquei muito tempo sem gravá-la. Na maioria das vezes, vou abandonando minhas músicas ao longo do tempo. Também deu vontade de falar a música de uma maneira mais efusiva. Por isso, fiz um arranjo com mais energia. Nesse caso, é ao contrário de Ela Só Pensa em Beijar. É mesmo como se estivesse cantando uma música de outra pessoa. Já aconteceu de mandar uma música para alguém e, quando ouviu gravada, se surpreender, não ser nada daquilo que você imaginou para ela? Várias vezes, mas não me incomodo nem um pouco. Acho que a partir do momento que você faz uma música e dá para alguém, é dela também, pode fazer o que quiser. Não sou muito ortodoxo, xiita. A partir do momento que a pessoa grava, é natural que ela cante da maneira dela, como enxerga, como sente aquilo. Não vou dizer a você que eu não me surpreenda. Às vezes a pessoa encontra possibilidades que eu nem havia pensado. Para mim, é muito enriquecedor.  Tem idéia de quantas músicas suas já foram gravadas? Ah, acho que umas cem, por aí. Sou um compositor compulsivo, tenho muita coisa guardada na gaveta. Tenho música ainda para fazer muita coisa. Mas não manda essas músicas para os intérpretes? Não, não mostro. Antigamente, o Ronaldo Bastos, meu parceiro, mandava. De uma certa maneira, meus discos são muito autorais, então não deixam de funcionar como um song book. E como a minha carreira tomou um rumo maior no exterior, as minhas músicas acabam soando como inéditas aqui no Brasil. A Clara Moreno, por exemplo, gravou duas músicas minhas agora, que parecem inéditas. Tendo uma carreira tão consolidada no exterior, não se sentiu tentado a compor de vez em inglês? Não, acho que tudo tem de estar a serviço da música. Slow Motion Bossa Nova, por exemplo, já nasceu em inglês. Mas não fiquei tentado não, adoro compor em português. Embora o português fique numa desigualdade muito grande porque muita gente não entende, por outro lado é uma língua muito sedutora para os estrangeiros. Me lembro que às vezes, na Inglaterra, cantava Ela É Carioca em inglês e me pediam para eu cantar em português. Isso, em países de língua inglesa. As idéias são mais bem desenvolvidas quando a gente escreve na nossa própria língua. Como anda a onda da bossa nova eletrônica? Já passou? Já. Acho que foi um momento. A Bebel (Gilberto) chegou com o primeiro disco dela (Tanto Tempo, 2000). Ela foi muito feliz, o (produtor) Suba foi feliz, um talento inacreditável. Foi importante, marcou tanto que muita gente veio depois no rastro daquele disco. Tem gente que vem até hoje naquele rastro e, pior, que acha que para fazer sucesso no exterior é preciso imitar a Bebel. Aquilo é dela... De uma certa forma, padronizou, é comum, todo mundo quer fazer bossa eletrônica. Virou música de loja, como o dum’n’bass, que virou música de propaganda.  A repórter viajou a convite da gravadora EMI

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