Célio Barros confirma talento em "Interchanges"

Interchanges é o nome de um grupo instrumental e também de um CD lançado em 1999 pela gravadora independente PMC - Produção de Música Contemporânea. Um disco bastante singular, mas que quase não despertou a atenção da chamada crítica especializada à época. Iniciando um trabalho em comum durante a década de 1990, os integrantes do Interchanges se propuseram a levar adiante uma aventura baseada na troca de informações, encarando a música como um território sujeito a permanentes mudanças. Daí o duplo sentido do nome do grupo. Foi Célio Barros, contrabaixista de 27 anos e ganhador do primeiro Prêmio Visa de MPB Instrumental em 1998, quem o idealizou. Com isso, ele conseguiu provar que ainda existe gente bem inteligente no domínio da música pop brasileira.Músico incrivelmente especial - além de virtuose respeitável do seu instrumento, ele pensa a sua arte em profundidade -, Célio Barros foi juntando outros artistas para a formação sonhada... Primeiro veio o baterista Rui Carvalho, de invejável imaginação rítmica. Com a chegada do saxofonista Thomas Rohrer, verdadeiro mestre nos sopros, e do pianista Emílio Mendonça, tecladista de sensibilidade fora do comum, o grupo se completou. O resultado desse encontro instrumental é, numa palavra, memorável. (Participam como convidados do disco de estréia do Interchanges o guitarrista Jan Weber, o claronista David Richards e o trombonista Todd Murphy).A música do Interchanges soa estarrecedoramente nova e instigante. Em uma peça, parte-se de uma cantiga de sabor medieval para a sua "descontrução", criando nesse gesto um espaço sonoramente esburacado e misterioso - todo um mundo inédito para se conhecer. Em outra música, o acústico e o sintético se reúnem para engendrar uma paisagem bem contemporânea nossa, repleta de evocações dos horrores da vida passada nas grandes metrópoles, mas que não se esquece de apontar para a esperança. Em outra, ainda, há repentinas mudanças de ânimo que nos levam da paz à exasperação, indo dos acordes consonantes às mais arriscadas dissonâncias, traçando desenhos de tirar o fôlego, repletos da mais pura imaginação.A Composição n.º 27 é, por enquanto, a nossa predileta. Tem-se aí um tema extraordinariamente belo e multicolorido, na sua solidão de ser só melodia como que jogada neste mundo. Qual jibóia enorme, vêem-se, através da sua pele, as marcas dos instrumentos, as cores sonoras que ela ingeriu em sua estação de engorda. Pena que, no caso, esse sonho só dure cinco minutos. A gente fica querendo ouvir mais. Ela aponta para a enorme imaginação de Célio Barros, esse músico para lá de incomum, que é preciso conhecer com urgência.

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