JAIR DE ASSIS/DIVULGAÇÃO
JAIR DE ASSIS/DIVULGAÇÃO

Celia busca por suas verdades em novo álbum

‘Aquilo que a Gente Diz’ desliza e comete equívocos que seriam evitados se uma simples pergunta fosse refeita

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2015 | 07h00

A pergunta mais útil e honesta que um artista pode fazer a si antes de conceber um novo álbum é “pra quê?”. Um “pra quê?” que passe menos pelo cérebro e mais pelo coração, sem rispidez nem juízo de valores. Um questionamento que o coloque na parede com suavidade e que tente fazê-lo responder a si mesmo se a materialização de suas emoções têm sentido artístico ou se são apenas armadilhas de memórias afetivas que podem dizer muito mais a quem as tem do que aos que as recebem. Alguns simples “pra quês” poderiam ter guiado Celia para um resultado mais intenso no álbum Aquilo que a Gente Diz.

Celia é da classe de cantoras que não cantam com a voz, ou não só com a voz, mas com a alma preenchida por uma história adquirida desde 1971, quando chegou assustada e assustando sua plateia com os recursos que a tornavam tanto a sambista de categoria para decretar Adeus Batucada, de Sinval Silva, quanto a blueseira trabalhada no jazz para rasgar ao meio Blues, de Joyce. 

Quarenta e cinco anos depois, ela preserva o grave doce e espaçoso e um certo desprendimento perigoso com a exatidão das notas. Acontece quando ela parece se esquecer do próprio peso e passa justamente a cantar apenas com a voz. Sua maior fragilidade está nas regiões altas, onde pisa em ovos para se equilibrar entre a verdade de sua interpretação e o deslize de seus limites.

Assim aparece Não Existe Amor em SP, de Criolo. A canção tem uma boa resposta ao primeiro “pra quê?”. Afinal, pra que gravar Criolo? Assim como a gravação de Crua, de Otto, e do pensamento contemporâneo do arranjador Yuri Queiroga na concepção de Deus Dará, de Zeca Baleiro, Celia se une a linguagens de gerações posteriores que oxigena o formato clássico da canção em que ela foi gerada – missão também do produtor Thiago Marques Luiz. E então, pra que gravar Criolo? Para mostrar vitalidade e força atemporal, pode ser uma resposta plausível. A escolha faz todo sentido, mas seu resultado não fica bom.

Os arranjos são interessantes, a distanciam do original, mas Celia não chega a alguns destinos importantes. Ela não parece confortável no refrão e larga as últimas notas sem sustentá-las com convicção. Já a primeira tira tinta da trave. Seria apenas uma observação preciosista se tais desafinações não trouxessem a pista de que Celia pode ter pensado mais em Criolo do que na canção de Criolo ao decidir cantá-lo.

Chega então Dois Rios, do Skank, e a pergunta perturba de novo. Além do evidente apego sentimental de Celia à bela criação de Samuel Rosa, Lô Borges e Nando Reis, a questão é pra que gravá-la de novo? Não há ali nenhuma cor nova com relação ao que já se conhece, nem nos arranjos de Rovilson Pascoal nem na voz de Celia. Sem correr riscos ninguém colhe frutos, e Dois Rios vira apenas a escolha de quem apanha o violão para tocá-lo na sala de casa, reproduzindo a canção tal e qual ela vive em suas memórias afetivas.

Eu Sou Aquele que Disse é a bola certa. Obra inspirada de Sérgio Sampaio, que a canta em 1973, no disco Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua, a música cresce na voz de Celia. É quando ela voa alto, solta, e manda todos os pra ques para o inferno simplesmente porque ninguém ousa evocá-los ao ouvi-la. Não precisa responder a nenhuma escolha quando deixa de racionalizar a própria interpretação. Pra que cantar Sérgio Sampaio? Para ser feliz, e ponto.

Quase uma outra Celia surge no mini bloco com Tanto Nó, de Ivan Lins e Fátima Guedes, e Opus 2, a ‘Você Abusou’ de Antonio Carlos e Jocafi. Acompanhada apenas pelo piano de Alexandre Vianna nas duas, Celia cresce na solidão e na “ausência de cama”. Além dessas duas, o bolero Entre Amigos, de Joyce, também parece colocá-la em contato com a própria essência, uma verdade que nem sempre aparece na íntegra em outras músicas do disco.

O cruzamento de linguagens entre faixas etárias tem sido um movimento interessante e bem visível na música brasileira dos últimos anos, sem poupar algumas experiências de choques geracionais. Depois de rever seus conceitos fazendo três discos de propostas roqueiras, Caetano Veloso repensou a forma também de Gal Costa e a colocou sobre os ruídos do baterista Domenico Lancellotti, do guitarrista Pedro Baby e do baixista Bruno Di Lullo para fazer o desconstruído Recanto. Uma experiência de recriação vitoriosa, com todas as respostas aos pra quês na ponta da língua.

Elza Soares, mais recentemente, também caiu nos quase sambas e quase canções dos paulistanos Guilherme Kastrup, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci para fazer A Mulher do Fim do Mundo. Deu um duro nos ensaios para pegar a divisão de um tempo que não lhe pertencia e ainda precisa ler algumas letras para não se perder por caminhos mais tortuosos. Para que o velho seja travestido de novo e ganhe frescor, as divisões, as melodias e os arranjos saem dos lugares onde sempre estiveram. Pra que fazer o que fez aos 85 anos? “Eu funciono com desafios, adoro assim”, disse Elza ao lançar o disco.

Chega então a última música do disco de Celia, Aquilo que a Gente Diz, de Alzira E e Tiago Torres da Silva, e as respostas aparecem todas na letra da canção que melhor equilibra a Celia de ontem e a de hoje, a mulher que ainda tem a alma muito maior do que a própria voz: “Aquilo que a gente sente / Quando não sente o que diz / É o coração da gente / Com medo de ser feliz ”. 

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