CDs piratas já dominam 50% do mercado

A máquina que tem triturado gravadoras e direitos autorais de artistas ficou mais organizada, mais lucrativa, mais disseminada e assustadoramente fortalecida em 2001. Aquele camelô que monta sua barraquinha no centro para vender seus disquinhos por R$ 1 deixou de ser visto pelos empresários como uma ameaça a longo prazo. Ele representa um dos milhares de operários que trabalham para uma organização real que não cochila em serviço. A cada dois discos que são vendidos no País, um é produzido pelo mercado negro da pirataria.No esquema milionário que deixa para trás as cinco gigantes da produção musical do mundo (BMG, Sony, Universal, WEA e EMI), ganha um disco de ouro quem descobrir como é que os CDs chegam às mãos dos piratas. O mistério começa a ser desvendado. Para quem conhece o mercado em suas entranhas, não há dúvidas: a pirataria começa dentro das próprias gravadoras."Não tenho a menor dúvida de que o disco que vai para o vendedor ambulante sai de dentro da gravadora", afirma João Lara Mesquita, diretor da Rádio e Gravadora Eldorado. A situação chegou ao vermelho, na opinião de João Lara, graças à inércia dos órgãos fiscalizadores e das companhias de disco, que demoraram para levar a pirataria a sério. "Foi só há dois anos que a grande indústria começou a se preocupar com isso. Fiquei horrorizado com a ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos), que não combatia ninguém. Ou foi muita burrice ou foi sacanagem mesmo."Queda no ranking - A pirataria de CDs começou há cinco anos. Até 1996, o Brasil detinha o sexto lugar no ranking mundial dos maiores vendedores de discos do mundo. No ano passado conseguiu, com muito custo, segurar-se na sétima posição. O susto maior vem agora. Em 2001, o País caiu para o 12.º lugar, atrás de Austrália, Itália e Espanha. Os três maiores vendedores atuais são Estados Unidos, Japão e Reino Unido.A ABPD, que representa as grandes empresas do disco, criou, em 1996, a Associação Protetora dos Direitos Intelectuais e Fonográficos (Apdif) para fortalecer o combate em São Paulo. A associação nega que tenha dormido no ponto na luta contra os piratas. "O combate existe desde 95. As companhias de disco investiram, desde então, mais de US$ 15 milhões em campanhas antipirataria", diz Márcio Gonçalves, diretor-geral da ABPD. "O problema é que o esforço para conter a prática é isolado. Fazemos apreensões diárias, mas não adianta. A pirataria cresce a cada dia."A mais recente demonstração do poder de fogo dos piratas deixou os engravatados das grandes companhias com tremedeira nas pernas. De nada valeu a tática de guerra armada pela gravadora Sony para evitar que Roberto Carlos - Acústico MTV fosse parar nas barracas antes de chegar às lojas.Nem os jornalistas receberam o disco antes do dia do lançamento oficial, sexta-feira passada, para evitar que o produto vazasse. Na quinta-feira, porém, um dia antes de o disco ser distribuído aos lojistas, os camelôs o comercializavam ao preço de três por R$ 10. No dia seguinte já era quatro por R$ 10.Um ambulante da Rua Comendador Abdo Sahim, perto da 25 de Março, confessou à reportagem: "Um cara que diz trabalhar para a gravadora (Sony) estava aqui vendendo cópias originais por R$ 100. Somos peixes pequenos." Outros vendedores repetiram o mesmo discurso. "É algo que não dá para controlar. Não temos indícios de que isso saia mesmo da gravadora, mas não é algo descartável", diz Jorge Eduardo Grahl, diretor jurídico da Apdif.

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