CD traz 13 inéditas de Pixinguinha

Esta terça-feira é o dia do aniversáriode Pixinguinha. Ele faria 105 anos. Desde as comemorações de seucentenário de nascimento, o dia 23 de abril tornou-se,oficialmente, o Dia Nacional do Choro. No Rio de Janeiro, onde Alfredo da Rocha Vianna Filhonasceu, em 1897, e onde morreu, em 1973, haverá shows em váriaspontos. Num deles, o grupo Água de Moringa apresentará músicasinéditas do mestre. São choros, valsas, lundus e até um baião. Material queestava em poder da família e há cinco anos foi encaminhado paraa editora musical Sony Music Publishing. A editora procurou ogrupo - um dos mais importantes da moderna cena instrumentalbrasileira - e propôs que as músicas fossem gravadas, primeirocomo registro - para que pudessem serouvidas por possíveis interessados em gravá-las comercialmente. Num segundo momento, a editora convidou o Água deMoringa para, o grupo mesmo realizar o disco com parte dasinéditas (são 28 partituras; 13 músicas iriam para o disco). O Água de Moringa entrou em estúdio, no início de 2000,e fez o CD. Mas o disco nunca foi lançado. Problemas de agendada gravadora, questões de mercado, como explica a gerente daeditora, Andréa Tournillon. A boa notícia: o disco vai sair. Está pronto, prensado,embalado. O nome: Água de Moringa - Inéditas de Pixinguinha.Deve estar no mercado até o fim do mês. Também até o fim do mês sai o disco Teu Nome, deMarcelo Vianna, neto de Pixinguinha, pelo selo Biscoito Fino. Afaixa-título é uma daquelas 28 inéditas. Trata-se de um samba deirresistível balanço, imensa sofisticação harmônica. A letra foifeita, por encomenda da Sony Music Publishing, por Paulo CésarPinheiro. Marcelo Vianna canta Teu Nome (curiosidade:Pixinguinha tem uma valsa com o mesmo título) em dueto com RitaRibeiro. Ela é uma das convidadas especiais do CD, que tem,ainda, participações de Jaques Morelenbaum, Pedro Luís e AParede e Velha Guarda da Mangueira e João Nogueira, num registrode 2000 - sempre brilhante, numa de suas últimas gravações. Choro - O choro, expressão maior da música instrumentalbrasileira, resultado da fusão da música de salão européia com amúsica negra urbana, ganhou os contornos que hoje o identificamnos subúrbios do Rio de Janeiro. Seus principais precursorestinham formação musical sólida: Chiquinha Gonzaga, ErnestoNazaré e Anacleto de Medeiros - este, filho de escrava liberta. Mas quem deu ao choro a cara que hoje tem foi Alfredo daRocha Vianna Filho, também descendente de escravos, nascido nosubúrbio carioca da Piedade e criado no Catumbi. Seu pai erafuncionário público e flautista que reunia amigos em casa paratocar choros, no fim do século retrasado e no início dopassado. Foi com as rodas de choro organizadas pelo pai quePizindim, Bexiguinha, Pixinguinha tomou gosto pela música.Começou a tocar cavaquinho ainda moleque e aos 9 ou 10 anosacompanhava o pai. Passou depois para a flauta, estudou música, tornou-sediretor musical do rancho Paladinos Japoneses, tocou em cabarés,tornou-se figura respeitada entre os músicos e assinou oprimeiro contrato profissional aos 16 anos, como flautista. Tocou em teatros, circos, participou de orquestras queanimavam filmes mudos. Imensamente criativo, desrespeitava apartitura e improvisava sobre a harmonia, uma novidade. Sua primeira composição é de 1911, o choro em trêspartes Lata de Leite. Nazaré já compunha choros (que chamavade "tangos brasileiros", por imposição das editoras, já que otango era gênero chique e o choro, coisa de preto suburbano) emtrês partes, mas quem, afinal, definiu o formato foiPixinguinha. O cânone prevaleceu e foi consolidado pelos grandeschorões tradicionais - Jacó do Bandolim, Altamiro Carrilho eoutros mestres. Só chorões de gerações posteriores (Tom Jobim,com o choro em duas partes Falando de Amor, Caetano Veloso,com o choro de uma parte só Sampa, Edu Lobo, com o ChoroBandido, e mais Chico Buarque, Francis Hime, Sivuca, etc.,etc.) ousaram transgredi-lo. Guinga, o maior compositor brasileiro em atividade,continua compondo choro em três partes e obedecendo, mesmo quecom linguagem harmônica e melódica moderníssimas, a muito do quefoi estabelecido por Pixinguinha. O maestro Roberto Gnattali apresenta o Água de Moringaassim: "Moringa é água fresca. Sombra, cerveja gelada, choro noquintal" - mas os meninos do Água não são suburbanos e nem ochoro tem domicílio definido no subúrbio. É música nacional. Opernambucano Luiz Gonzaga compôs choro, o gaúcho RenatoBorghetti compõe choro, o acreano João Donato, à sua maneira,compõe choro. Os rapazes do Água são da zona sul carioca: Rui Alvim(clarineta e clarone), Marcílio Lopes (bandolim e violão tenor),Jayme Vignoli (cavaquinho), Luiz Flávio Alcofra (violão),Josimar Gomes Carneiro (violão de sete cordas) e André"Boxexa" Santos (bateria e percussão). Nos anos 80, apareceu uma geração de novos chorões desólida formação musical, na qual se encaixa o Água de Moringa eà qual pertencem outros grupos, como o Nó em Pingo d´Água e oMahogani, e solistas brilhantes como Maurício Carrilho, PedroAmorim ou, mais recentemente, o gaúcho Yamandú Costa. Em comum, esses músicos têm a dedicação estudiosa datradição, à qual incorporam novos elementos, dando continuidadeà evolução orgânica do gênero que abraçam (e dos gênerosaparentados: a valsa, a modinha, o samba, etc.). Não foi por outro motivo que, descobertas as músicasinéditas de Pixinguinha, o Água de Moringa foi chamado parainterpretá-las. "Fomos procurados em 1997", conta JaymeVignoli, o cavaquinhista do Água. "Inicialmente, a editora daSony queria que fizéssemos um registro não comercial das músicas, para que houvesse, além das partituras, um registro sonoro; nofim de 1999, finalmente, propuseram que fizéssemos o disco." A família de Pixinguinha havia encontrado e encaminhadopara a Sony Music Publishing, a editora musical do grupo Sony,40 partituras. Julgava que fossem todas inéditas. Jayme Vignolie Luiz Flávio Alcofra, o violonista do Água de Moringa, foramencarregados de pesquisar para saber se eram, mesmo, todasinéditas. "Descobrimos que algumas já haviam sido gravadas, comoutros nomes", conta Jayme. "E algumas, embora estivessem coma caligrafia do Pixinguinha, não eram músicas dele, mas arranjosdele para músicas alheias, como uma peça de Anacleto deMedeiros." Concluíram, por fim, que as inéditas eram 28. Entre elas, três classificadas pelo compositor como "lundus africanos" -um gênero que ele explorou bastante e deu em alguns sucessos,como Yaô e Benguelê, as duas gravadas, entre outros, porClementina de Jesus. Esses lundus africanos são as três músicas cantadas dodisco Água de Moringa - Inéditas de Pixinguinha. Convidadosespeciais comparecem para cantá-las (o Água é só instrumental):Nei Lopes canta No Terreiro de Alibibi; Martinho da Vilacanta Kalu; e Monarco, Maria Conga. Outros convidados especiais são o pianista CristóvãoBastos, os percussionistass Gordinho, Zero e Eliseu, osaxofonista Humberto Araújo. A gerente da editora da Sony,Andréa Tournillon, diz que o CD, com 13 faixas, sai até o fim domês, com selo da editora e distribuição da gravadora Sony. Eantecipa que o selo Sony Publishing pode ser usado para outrosprojetos especiais, menos comerciais. Luz no fim do túnel?

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