CD tem a melodia refinada do samba

Moacyr Luz é um dos maiores compositores brasileiros das últimas duas décadas. Mas seu novo CD é trabalho de intérprete. Em Na Galeria (Lua Discos), Moacyr resolveu prestar homenagem - fazer voltar à lembrança - um tipo e uma levada de samba que andam um tanto esquecidos. Aquele samba de melodia refinada, harmonia rica, letra inteligente e bem construída que fez a glória de Cartola, Nelson Cavaquinho, faz ainda a de Elton Medeiros ou Paulinho da Viola.Mas que não se resume a esses nomes notórios. Pois não só o tipo de samba, ou a maneira de tocá-lo, anda esquecido. Autores da mesma magnitude deixaram obra vasta e belíssima da qual não se fala mais. Um dos propósitos de Na Galeria é dar o merecido destaque a Padeirinho, Candeia, Roberto Martins, Waldemar Gomes, Donga, Mestre Fuleiro. Sem esquecer Noel Rosa, Cartola, Pixinguinha, Herivelto Martins.Na Galeria, entretanto, não quer só isso. "Ter feito esse disco me permite compreender melhor os caminhos que levaram minha voz a soar como soa, e entender por que desenvolvo como desenvolvo minhas composições", diz Moacyr. "Porque quando componho, procuro me livrar logo da composição, acabar logo o trabalho; por outro lado, quando canto, interiorizo o que estou cantando; quando componho, mantenho a primeira visão harmônica, não mudo a tonalidade; nesse disco, mexi em harmonias e andamentos, tomei liberdades que, acho, posso, agora, tomar com minha própria música."Violonista desde sempre, Moacyr começou vida na música como letrista. Levou algum tempo para mostrar suas melodias - seus parceiros mais constantes são Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc. Gravou três discos-solo e criou vários sucessos para vozes dos maiores de nossos intérpretes - como Retrós (gravado por Nana Caymmi), Saudades da Guanabara (por Beth Carvalho), Mico Preto (por Gilberto Gil), Medalha de São Jorge (por Maria Bethânia).No último ano, produziu três discos antológicos, para a mesma Lua Discos que agora lança seu CD: os solos de Casquinha e Guilherme de Brito e o volume em que Jards Macalé interpreta o samba de breque de Moreira da Silva. Na Galeria serve para falar do carinho que tenho com os autores da velha-guarda e tem um pouco a ver com o fato de haver produzido Casquinha, Guilherme, Macalé cantando Moreira, conta.Mexendo em arquivos, fazendo pesquisas para aquelas produções, Moacyr encontrou pérolas como um dueto de Moreira da Silva com Orlando Silva; descobriu - ou lembrou de - belezas escondidas. Achou que dava para fazer um disco à parte, um disco sem ser de carreira, trabalho não-autoral, mas que tivesse a ver com o que compõe, ou cujo repertório estivesse na raiz do que compõe. Sem que se tratasse de resgatar música antiga - nada disso. Pelo contrário, colecionar o atemporal.Aldir Blanc chegou a observar: "Moacyr, cuidado com Lata d´Água na Cabeça, que isso não existe mais, como não existe Barracão de Zinco." Em outras palavras, cuidado para não datar o repertório - mas Moacyr já sabia disso. O que gravou está vivo. "O que eu quis foi chamar de volta a sutileza do samba, que anda muito apressado, muito batido, com a percussão muito alta, muitos tambores, com arranjos que já são meio frases feitas", conta.Optou, por isso mesmo, em gravar com poucos instrumentos: apenas o seu violão de seis cordas, o violão de sete de Carlinho Sete Cordas e a percussão miúda (e suficiente) de Beto Cazes. São dois músicos maravilhosos, rigorosamente geniais, a companhia exata para o gênio do anfitrião. Gênio reconhecido por muita gente. No texto que apresenta o disco, Luis Fernando Verissimo diz assim: "Tenho algumas boas lembranças musicais. Vi o Charlie Parker e o Dizzy Gillespie tocando juntos no velho Birdland, vi o Miles Davis no tempo em que ele e a banda usavam fatiotas da Brooks Brothers (...) vi o Von Karajan regendo a Filarmônica de Berlim (...) e, uma noite, vi o Moacyr Luz e o Aldir Blanc tocando e cantando."Das regravações de Moacyr, diz Verissimo: "Aqui está todo o sortilégio da Zona Norte do Rio, esse mundo de velhos e novos compositores de boteco e escola de samba e suas obras-primas muitas vezes desconhecidas ou esquecidas, esse respeito pela tradição que não exclui a experimentação, esta aparente simplicidade que no fundo é sofisticação despojada - enfim, esta maravilha."Sambas de autores vivos, no repertório de Na Galeria só dois: Retiro, de Paulinho da Viola, e Três por Acaso de Gereba e Capinam. O artista plástico Elifas Andreato criou, para a capa do CD, a galeria fotográfica dos autores (em alguns casos não havia iconografia dos autores; entrou a foto do primeiro intérprete, como é o caso de Araci de Almeida, que foi quem primeiro gravou Coberto de Ouro, de Waldemar Gomes e Afonso Teixeira).Moacyr Luz sempre relutou em se considerar cantor. É, é magnífico. E Na Galeria, disco que nasce clássico e entra imediatamente para - vá lá - a galeria dos melhores discos de samba de todos os tempos, acentua mais um talento do grande artista.

Agencia Estado,

19 de setembro de 2001 | 16h37

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