CD inédito revive Luiz Gonzaga ao vivo

Em março de 1972, "apadrinhado" por dois discípulos - Caetano Veloso e Gilberto Gil -, Luiz Gonzaga fez uma temporada no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro. O show, com roteiro de José Carlos Capinam e Jorge Salomão, permaneceu inédito por quase 30 anos e retorna agora como parte das comemorações dos 100 anos da RCA Victor."Era tocadorzinho de pé de serra, namorador como o diabo", conta Luiz Gonzaga, o velho Lua, em um dos muitos causos que conta nos intervalos entre as 15 faixas do CD Luiz Gonzaga Volta para Curtir (BMG), que mostram 29 canções com a gênese da mais popular e inventiva música brasileira do século passado.Gonzagão estava acompanhado por Dominguinhos (sanfona), Maria Helena (triângulo, cabaça e voz), Toinho (triângulo), Renato Piau (guitarra), Porfírio Costa (baixo), Raimundinho (reco-reco) e Ivanildo Leite (zabumba, gonguê e triângulo).Sérgio Cabral, no texto de apresentação, ressalta duas qualidades fundamentais de Luiz Gonzaga: como cantor, o melhor intérprete da música nordestina e como instrumentista, criador de uma escola. Há vários outros pontos que, fora dos limites estritos de uma contracapa, mereceriam destaque. O próprio CD os aponta.Em Cigarro de Paia (Armando Cavalcante/Klecius Caldas), Gonzaga funde o lamento do aboio protomusical do sertão ao timing do blues rural americano - o ponto de contato é a guitarra à Santana de Renato Piau. Armando Cavalcante, general da reserva e boêmio, é autor das primeiras músicas do show.Outro ponto é a busca de Luiz Gonzaga por um ritual sertanejo que fosse adequado a uma cultura urbana, de programa de auditório, de animador de salão de baile. "Eu queria ser o Rei do Baião", conta Luiz Gonzaga no seu primeiro causo. "Quando eu chegasse em 39 ao Rio de Janeiro, eu ia tocar na zona violenta, lá no mangue."O disco recém-lançado de Gilberto Gil, São João, predominantemente composto por canções "de festa junina" de Gonzagão, mostra a outra faceta do Velho Lua, a de depositário de uma tradição cultural nordestina. "Todo tempo que eu tiver para mim é pouco, para dançar com meu benzinho numa casa de reboco", canta o sanfoneiro, numa das suas melhores canções, Numa Sala de Reboco (Luiz Gonzaga/José Marcolino).Gonzagão foi, mesmo sem querer, o pai da música nordestina de duplo sentido, com suas piadas ingênuas. E também com seus duetos bem-humorados, como em Lorota Boa (com Humberto Teixeira) e Siri Jogando Bola (com Zédantas). Nas duas, acompanha-se ao microfone com a voz escrachada de Maria Helena, um pendant falsamente tosco que seduz de imediato.Alguns depoimentos apoiam o senso histórico do disco, no encarte. "Um som que me formou: meu pai me pedia para comprar os discos lá no Boulevard e sempre me transforma em alegria e prazer", contou o cineasta Leon Hirszman."A ambientação desse show não tem nada a ver com cenário, não somos cenógrafos", diz Capinam. "Para Luiz Gonzaga, Rei do Baião, criamos vermelhos e brilhos, alegrias de circo, verdes e areia, o cine-teatro, tela & palco", afirma. Não precisava nem ter sugerido nada disso. Luiz Gonzaga trazia embutido nos baixos da sanfona.

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