CD evoca os méritos de Wagner Tiso

No início da quarta faixa de Cenas Brasileiras, chamada Trens, peça da suíte (de seis partes) que dá nome ao disco, Wagner Tiso usa a orquestra de forma onomatopaica. A caixa marca uma marcha-rancho levemente deslocada da marcação-padrão e os metais e madeiras, sublinhados pelas cordas, sugerem a aceleração do motor da locomotiva, o aceleramento do passo, a partida, a festa de alguma forma nostálgica da despedida. Os trens trazem e também levam embora. Uma sanfona de sabor mineiro, um sabor de folia de Reis nos chocalhos da percussão definem a atmosfera do segundo movimento; o trem sobe a serra, talvez chova; abre-se o céu, descortina-se para o viajante a largueza da paisagem; o piano aparece para tecer a melodia villa-lobiana, breve; a fanfarra seguinte parece falar da descida da serra, da felicidade de alcançar a próxima estação. É irresistível a atmosfera de festa. É possível olhar pela janela e ver o sorriso de quem espera. Ao fundo, arma-se a lona de um circo. Cenas Brasileiras é uma peça de Wagner Tiso, um grande compositor que, circunstancialmente, compõe menos do que poderia, menos do que tem capacidade para realizar. Coisas de mercado. Música instrumental? Nunca houve muito espaço para ela, no Brasil. Pelo menos, Wagner tem tido a possibilidade de exercer seus muitos méritos de arranjador. É um orquestrador fundamental à música brasileira moderna, desde o início de carreira, trabalhando com Milton Nascimento em álbuns históricos como os dois volumes do Clube da Esquina ou no magnífico Milagre dos Peixes. Naquela ocasião, criou uma fusão brasileiríssima da linguagem pop com a orquestral de reminiscência erudita, um padrão paralelo ? e mais rico do que ele ? ao que George Martin havia criado para os Beatles. Este Cenas Brasileiras segue coroando de êxito as experimentações que o músico mineiro jamais abandonou. Pode soar, às vezes, solene demais ? mas não se iluda o ouvinte: não há ali um acorde, uma proposta de clima, um efeito descritivo que não tenha razão de ser. Funcionam, as peças que compõem o álbum, como capítulos de uma história, quase visual, impressionista às vezes, reflexiva sempre. O belo disco tem o mérito de apresentar, em primeira gravação, o Choros n.º 6, de Villa-Lobos, obedecendo à orquestração do autor. Orquestração que evidencia a escola pela qual se orienta Wagner Tiso. Afinal, a melhor escola que se possa querer.

Agencia Estado,

19 de março de 2003 | 18h36

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.