CD é um verdadeiro caldeirão sonoro

O canto do senegalês El Hadj NDiaye é trêmulo. Percussão, guitarra e baixo economizam notas e o arranjo contribui para o realce da voz. A letra, na tradução para o português, pede: "anulemos a dívida/ levantem a cabeça/ após 40 anos em que lhe pagamos/ esta dívida não pára de crescer". A faixa é Boor-yi, uma espécie de cartão de visitas da compilação Drop The Debt, uma reunião de artistas de várias nacionalidades em defesa do cancelamento das dívidas dos países do terceiro mundo. O propósito pode até ser interpretado como polêmico mas, musicalmente, o disco guarda o mérito de mapear parte da diversidade de idiomas e ritmos que fazem a trilha sonora do planeta. Curiosamente, o Brasil é o país com o maior número de representantes - participam do projeto Lenine, Chico César (em dobradinha com os franceses The Fabulous Trobadors), a Tribo de Jah (que divide uma faixa com Tiken Jah Fakoly, da Costa do Marfim), Fernanda Abreu e MV Bill (juntos em uma nova versão para Tudo Vale a Pena). Entre eles, a participação de Chico César se destaca pela letra de Devo Não Nego (leia ao lado) - um resumo irreverente da idéia do disco. "Eu compus a música especialmente para o disco, em parceria com os Fabulosos. Ficou interessante porque eles trabalham com uma levada de côco muito parecida com a do Alagoas", diz o compositor. "Acho que a letra traduz bem o jeito como a gente encara esse assunto aqui no Brasil: devo, não nego, mas não vou sacrificar meus filhos para pagar." Chamam atenção também as participações do grupo colombiano Totó la Momposina (que comparece com Cosas Pa Pensar) e os franceses do Massilia Sound System (Osca Sankara). Ambas as faixas apostam em uma sonoridade festiva - diferentemente dos artistas africanos, que preferem tratar do tema com mais sobriedade, tanto nos arranjos como nas letras. Fogem à regra Tiken Jah Fakloy (da Costa do Marfim) e Zêdess (de Burkina Fasso), que investem na manemolência do reggae. O primeiro se sai bem em Baba - que só derrapa quando a Tribo de Jah interfere no arranjo com backing vocals equivocados. A idéia do disco foi concebida por François Mauger, da gravadora Say It Loud. "Pensei no projeto depois de uma campanha internacional realizada em 1999 para cancelamento da dívida dos países pobres", lembra Mauger. "Na época alguns músicos estavam envolvidos e eu pensei que fosse sair um disco para divulgar a campanha, porém nada saiu. Então, em 2000, eu decidi retomar a idéia de produzir o álbum." Lançamento antecipado no Brasil - No Brasil, a distribuição ficou a cargo da gravadora MCD. "Nós temos uma série de parcerias com gravadoras estrangeiras e um monte de projetos com cunho social", explica Eduardo Muszkat, presidente da MCD. "A gente está sempre a fim de apoiar esses projetos, então, nada mais natural que eles venham bater em nossa porta." Drop The Debt terá lançamento mundial durante esse mês mas, no Brasil, por causa do Fórum Social Mundial, o disco foi lançado antecipadamente - e, aliás, com um erro de português na capa: em vez de "dívida", no subtítulo do álbum, aparece "divída". "O Fórum em Porto Alegre foi um evento muito grande, com muitas pessoas de países diferentes. Diante da magnitude do evento, o lançamento do CD não foi algo muito grande", explica François. "Porém, todas as pessoas envolvidas de algum modo com o cancelamento da dívida, de diferentes ONGs, tomaram conhecimento do CD lá e isso foi muito importante." Toda a arrecadação do disco será revertida para organizações empenhadas na campanha de renegociação das dívidas dos países de terceiro mundo. No Brasil, a Campanha Jubileu Sul será beneficiada.

Agencia Estado,

06 de fevereiro de 2003 | 10h33

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