CCBB reprisa concerto que chocou São Paulo em 22

Ninguém precisa levar latas de manteiga e ovos podres hoje na primeira das três apresentações que homenageiam Villa-Lobos no aniversário da Semana de Arte Moderna de 22. Se o compositor carioca provocou vaias e por pouco não saiu emporcalhado do Teatro Municipal há 80 anos, há muito tempo ele se consagrou como o nome mais importante da música erudita brasileira do século 20. Por isso, o Centro Cultural Banco do Brasil agendou três datas (hoje, 26 de fevereiro e 5 de março) para apresentar, na íntegra, todas as peças do maestro executadas naqueles três dias de intensa agitação modernista.O evento batizado de Música na Semana de 22 - Villa-Lobos Trilha Novos Caminhos é a mais importante comemoração do aniversário de 80 anos do marco modernista e os preços populares (R$ 6 e R$ 3) fazem dele uma ocasião imperdível para se ouvir um dos compositores que mais influência exerceu no País. "Os músicos começaram a ver a música brasileira de outra forma depois de Villa-Lobos. Ele impregnou todo o ambiente musical e ecos da sua obra podem ser percebidos em Edu Lobo, Wagner Tiso, Egberto Gismonti e Tom Jobim, entre muitos outros", diz Mário de Aratanha, diretor-artístico e um dos idealizadores da homenagem a Villa-Lobos.Moderno demais - Aratanha e a produtora Valéria Colela foram atrás de um excelente time de músicos para interpretar as composições do maestro no CCBB, como o Trio Aquarius, o Quarteto Amazônia, pianistas como Maria Teresa Madeira e Nahim Marun e vozes como Nahim Marun (soprano) e Marcos Paulo (tenor).Todas as músicas executadas a partir de hoje já estavam prontas quando Villa-Lobos foi convidado pelo escritor Graça Aranha a se apresentar no Municipal. Algumas, como o Trio nº 2 Para Violino, Violoncelo e Piano, foram escritas em 1915. Apesar disso o público paulista desconhecia o compositor, considerado muito "moderno" para o gosto da época. Mas o desplante maior foi ter ele ousado se apresentar no "templo da música clássica" da cidade. No Municipal só se ouvia ópera e recitais de velhos compositores europeus. Em 1922, o público não estava preparado para absorver composições de harmonias estranhas e ainda mais com temas como folclore, natureza e culturas brasileira e africana, tudo o que Villa andava colocando em suas obras.Para piorar a situação, o compositor apareceu com o pé enfaixado no palco. O público viu aquilo como puro deboche, principalmente depois que um dos conferencistas da Semana de Arte Moderna leu um discurso atacando compositores como Carlos Gomes ("maior glória da música brasileira" com suas óperas) e Chopin, referindo-se a ambos como entulhos do passado. Quando Villa-Lobos e outros músicos começaram a arrancar sons estridentes num ritmo frenético, muita gente começou a vaiar e a gritar. Grande parte da platéia ria achando graça e pensando: "Não, eles estão fazendo piada". Houve até quem, num momento de silêncio entre um movimento musical e outro, imitasse um galo cantando, tão bem, lembraria Villa-Lobos mais tarde, que ele mesmo caiu na gargalhada.Foi tanto riso que a polícia entrou no teatro e prendeu dois homens. Com eles encontrou duas latas grandes de manteiga, cheias de ovos podres e batatas. Ao serem interrogados, disseram que pretendiam usar aquele material como "flores e palmas", mas não fizeram em sinal de respeito aos intérpretes. Estes eram, entre outros, os pianistas-solistas Êrnani Braga e Guiomar Novaes.Houve acidentes também na apresentação das obras. Braga, por exemplo, diz nas suas memórias que a peça Fiandeira, que o público poderá conferir no dia 26, foi modificada por ele em meio à sua execução, porque lhe pareceu muito estridente.Silêncio sobre a Semana - No calor da hora, a música de Villa-Lobos parecia "brasileira" e "futurista" demais. Quer dizer, de gosto discutível e incompreensível. Com o tempo, os estudiosos provaram que o compositor estava muito preso às vanguardas musicais francesas e que só mais tarde sua personalidade artística atingiria a maturidade.É importante ressaltar que, na Semana, foram tocadas também obras de cinco franceses: Erik Satie, Francis Poulenc, Debussy, Blanchet e Vallon. Raras vezes Villa-Lobos, que morreu em 1959, comentou sobre aqueles três memoráveis dias em São Paulo. Uma das razões é que para muitos o compositor revolucionário teria surgido no Municipal."Villa já estava pronto em 22. Se suas peças ainda possuíam influência da música francesa, ele já era moderno porque abordava temas brasileiros de um jeito que ninguém fazia antes dele", afirma Aratanha. Consagração em São Paulo - O compositor chegou a se queixar porque o confundiam com um modernista de última hora. Numa carta disse: "Não foi a Semana de Arte Moderna que me lançou. Eu já era revolucionário da música muito antes, mas o movimento foi importante para abrir caminho àqueles que ainda estavam muito presos ao passado". Ele também se referia às vaias como a consagração definitiva de um músico vanguardista.A Semana, porém, foi muito importante para sua carreira. Foi São Paulo, e não o Rio, sua terra natal, quem o acolheu. É verdade que em 1922, com vaias e poucos aplausos. Mas dez anos mais tarde, e depois de ter voltado de uma longa temporada em Paris, Heitor Villa-Lobos foi recebido no mesmo Municipal, dessa vez, de pé. Dali voltaria famoso para o Rio, onde, mais tarde, o Estado Novo lhe entregaria um grande projeto nacional com o objetivo de divulgar a música brasileira.Centro Cultural Banco do Brasil - Rua Álvares Penteado, 112, centro, tel.: 3113-3651. R$ 6 e R$ 3.

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