CCBB do Rio presta tributo ao samba

O samba ainda não tem cem anos, mascomemora quatro centenários de uma só vez em 2002. A primeiramúsica do gênero, Pelo Telefone, de Donga e Mário de Almeida foi gravada em 1917, época em que o gênero tomava forma entremoradores do Estácio, onde viviam imigrantes pobres eex-escravos. Quatro deles, Bide, Marçal, Carlos Cachaça eMoreira da Silva, completam um século de nascimento em 2002 eserão homenageados a partir de amanhã no Centro CulturalBanco do Brasil (CCBB), com a série O Samba Agradece. IsmaelSilva só faz cem anos em 2005 e entrou no roteiro para completaro programa. A idéia é do produtor Paulo Albuquerque. Criador do FreeJazz, nos anos 80, voltou-se para o samba nos 90. Em 2001,produziu a série Os Meninos do Rio, que rendeu um dosmelhores discos de samba do ano. Agora, apresenta a obra dessespioneiros à nova geração. "Procurei artistas afins com as novasgerações, como Paulinho Moska e Carol Saboya", explicaAlbuquerque. "Os outros, Marçalzinho, Nelson Sargento, CláudioJorge, Jards Macalé e Fátima Guedes foram escolhidos pelaafinidade com os homenageados." Na primeira semana, serão dois, Bide e Marçal, autoresde pelo menos 50 músicas, uma delas, Agora É Cinzas, umclássico. Alcebíades Maia Barcelos nasceu em 25 de julho de1902 e Armando Marçal, em 14 de outubro do mesmo ano. No iníciodos anos 30, amigos e parceiros, freqüentavam as rodas de sambado Estácio e da Praça Onze e tiveram a primeira (e mais famosa)música gravada por Francisco Alves. O sucesso foi imediato eeles largaram as profissões para se tornarem músicos. Marçalmorreria em 1947, mas deixaria um descendente à altura, o filhoNilton Marçal, que, à frente da bateria da Portela, criou umalinguagem para a escola. A dinastia continua com opercussionista Marçalzinho (filho de Nilton Marçal e chamadoArmando, como o avô), um dos principais do Brasil e queparticipa do show, ao lado de Zé Renato e Paulo Moska. Moreira da Silva foi quem viveu mais entre os cincohomenageados. Nasceu em 1.º de abril de 1902 e morreu em 2000.Começou cantando pontos de macumba, mas fez sucesso com um sambarasgado, Arrasta a Sandália, em 1933. Com Acertei noMilhar, inventou o samba de breque e virou ídolo, prestígioque só cresceu quando ele criou o Kid Morangueira, personagem damúsica O Rei do Gatilho, hit do início dos anos 60. JardsMacalé foi nomeado herdeiro de Moreira da Silva pelo próprio e,em 2001, lançou um disco regravando as músicas dele com arranjosde orquestra, e faz a segunda semana da série do dia 9 ao dia13. Carlos Cachaça teria o nome garantido na história, setivesse apenas fundado a Escola de Samba Estação Primeira deMangueira, a mais popular e antiga de todas. Mas fez muito mais.Compôs sambas lindos e líricos, a maior parte com Cartola, comoNão Quero mais Amar a Ninguém, Alvorada no Morro (tambémde Hermínio Belo de Carvalho) e Quem me Vê Sorrindo. Feztambém poemas que Carlos Drummond de Andrade punha entre osmelhores da língua portuguesa. O mangueirense Nelson Sargento,apelidado de "Enciclopédia do Samba", interpreta as músicas deCarlos Cachaça, de 16 a 20, por considerar-se a cria dele esaber todo o repertório. "Chamei Carol Saboya para cantar juntoporque ela é da nova geração e muito ligada no sambatradicional", diz Albuquerque. O caçula da turma, Ismael Silva, é, talvez, o que maisinfluenciou a geração de Chico Buarque (discípulo confesso) eCaetano Veloso. Pelo menos duas músicas dele, Se Você Jurare Antonico, nunca deixaram de ser cantadas e fazem parte dorepertório de todo músico que se preze. Criou a primeira escolade samba, a Deixa Falar, mas teve vida tumultuada, embora tenhamorrido com o talento reconhecido. Cláudio Jorge faz o quartoshow, de 23 a 27, porque estreou como violonista tocando comele. Fátima Guedes completa a ficha técnica, pois o estilo delaguarda alguma semelhança com o de Ismael. "Os shows serãogravados e podem ser lançados também este ano", asseguraAlbuquerque.

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