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Lucinha ressalta que o cantor permanece vivo em sua memória e 'mais atual do que nunca no universo da música' Estadão

'Cazuza foi muito maior que a opção sexual dele', diz mãe nos 30 anos de sua morte

Lucinha Araújo fala sobre a aids, fãs, política e também afirma não aceitar ver o nome do cantor sendo relacionado com a comunidade LGBT

Andreza Galdeano, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2020 | 19h00

Lucinha Araújo aprendeu com Cazuza que "o tempo não para". A mãe, que esboça sorrisos ao mencionar o filho e demonstra orgulho por ter gerado um dos ícones da música brasileira, diz não acreditar que foi capaz de ter dado ao mundo "uma pessoa tão diferente". É inevitável mencionar o cantor e compositor e não relacionar o seu talento com a forte personalidade. Morto em decorrência da aids em 1990, foi no ano anterior que ele assumiu publicamente ser portador do vírus HIV e demonstrou querer desmistificar a doença, pouco conhecida na época.

Para Lucinha, a aids ainda é um tabu. "Eu não quebrei e nem quero quebrar esse tabu. É uma doença maldita", conta em entrevista ao Estado. Sentada em seu escritório na Fundação Viva Cazuza e olhando para um enorme quadro com fotos da carreira do seu filho, ela ainda questiona sua morte, comenta que lembra com carinho de todos os momentos que passou ao lado de Cazuza, fala sobre a aids, fãs, política e também afirma que não aceita ver o nome do cantor sendo relacionado com assuntos que se referem à comunidade LGBT. "Cazuza foi muito maior que a opção (sic) sexual dele". 

Foram poucos anos de carreira e até hoje o seu filho passa de geração em geração sendo lembrado no meio artístico. O seu trabalho para manter o nome dele é uma das explicações?

Eu tenho certeza de que ele seria quem ele é hoje independentemente do meu trabalho. É claro que o meu trabalho ajuda a manter acesa a chama, mas ele não precisaria disso. Ele é muito grande. Você vê quantos artistas já saíram de circulação e ele continua super presente? No último Rock in Rio eu fui lá porque o Cazuza recebeu uma homenagem do pessoal do Jota Quest, então ele é muito presente na vida de todo mundo. Não sei o que acontece com ele, porque você vê tantas pessoas importantes que já morreram no mundo da música e essa nova geração também, e ele está tão vivo. Tudo isso não é por minha causa. Quem sou eu? Ele era muito maior do que eu. A sua carreira durou apenas oito anos, mas eu não sei, ele tinha uma luz diferente. Sinto a sensação de dever cumprido.

O nome do Cazuza está relacionado a shows, musicais, filmes... Alguma homenagem específica te marcou?

Teve um musical em homenagem a ele. Foi lindo e eu adorei. Todos os atores ficaram meus amigos. Mas todas as homenagens foram marcantes para mim, independente da época. O filme também foi lindo.

E algum trabalho relacionado com o nome do Cazuza que não foi do seu agrado?

Nunca teve nada atrelado ao nome do Cazuza que eu não gostei. Eu nunca deixaria isso acontecer. Antes eu sempre vejo tudo. Não deixo nada negativo. Por exemplo, "Cazuza vai ser figura LGBT". Não. Eu não gosto desses troços.

Você já recebeu muitos convites para relacionar o nome do Cazuza com campanhas que se referem à comunidade LGBT?

Hoje em dia me procuram menos, porque já sabem a minha opinião. Antes me procuravam muito para isso. É uma coisa que me desagrada. Ele não quer ser símbolo de nada. Ele foi uma pessoa tão importante que não precisa ser exemplo de p*** nenhuma. Ele não gostaria disso. Meu filho mesmo dizia: 'Eu não tenho que ser símbolo de nada. Não aconselho nem um cachorro leproso a me seguir na rua, quanto mais ser símbolo de alguma coisa. Não quero levantar bandeira nenhuma'. Então, segui isso que ele sempre falou. Cazuza foi muito maior que a opção sexual dele. Isso ficou no passado.

Neste ano, segundo o Ministério da Saúde, o Brasil dobrou o tempo de sobrevida de pessoas com aids. Isso te traz conforto ou você chega a pensar que o Cazuza poderia estar vivo?

Com toda a certeza. O meu filho foi dos primeiros, ele foi pioneiro até nisso. Na época, ninguém sabia que doença era essa. A gente foi para os Estados Unidos por causa disso. Foi um sofrimento, mas estava escrito. Eu não sou conformada. Pergunto muito porque o meu filho. Todos os amigos dele chegaram a fazer todas as loucuras que ele fez na vida e estão casados e com filhos hoje. Então, por que o meu filho foi premiado com a desgraça dessa doença? Eu ainda estou procurando respostas. Até hoje eu não tive.

A aids ainda é um tabu para você?

Sim. Eu não quebrei e nem quero quebrar esse tabu. É uma doença maldita. Foi o mal do século. E foi uma pena, porque o meu filho era uma cabeça tão importante, cabeça pensante e maravilhosa, destruída por uma doença que agora, não é que tenha cura, mas as pessoas vivem com boa saúde, entre aspas.

Apesar de todas as informações sobre a doença, o número de contaminados ainda é grande. Qual a explicação?

Hoje quem se contamina é porque quis. O último boletim do Ministério da Saúde apontava que as maiores contaminações eram em jovens entre 18 e 26 anos. Além da responsabilidade da pessoa, a aids saiu da moda. As campanhas de prevenção também são poucas, e esses remédios modernos deixam a pessoa com boa aparência. Você não fica como antigamente, magro e com a pele escura. Então, as pessoas pensam 'eu vou transar sem camisinha e depois eu pego um desses coquetéis, tomo e fico bom'. Eu acho que o que aconteceu foi isso. As pessoas estão sendo contaminadas porque são mal informadas e também porque essa juventude não quer se informar. É uma pena. Existem tantas formas para você evitar. Um exemplo é o câncer, que você não pode evitar. Eu tive câncer de mama há vinte anos e ninguém na minha família tinha tido. Eu nunca imaginei e não podia falar 'eu não vou ter câncer'. Ninguém pode dizer isso. Agora a aids, você pode dizer 'não vou ter'. É só você evitar.

A carreira do Cazuza ainda é muito presente para você?

Trinta anos depois e ele ainda faz história. Recentemente eu fui em uma gravação de um (eu não sei nem se é CD que fala agora com toda essa tecnologia), da Leila Pinheiro, Roberto Menescal e Rodrigo Santos, que foi do Barão Vermelho. Eles fizeram "Cazuza em bossa nova" e me chamaram para assistir. Então ele me dá esse tipo de coisa que me conforta e me ajuda. Outro dia o ministro do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, citou Cazuza no final do discurso dele, falando que se o meu filho estivesse vivo ele diria "a verdade não corresponde aos fatos". Volta e meia usam frases do Cazuza. Hoje mesmo eu liguei o rádio do carro e estava lá o Ney Matogrosso cantando "Poema". Então, ele é muito presente na minha vida apesar de ser ausente fisicamente.

Ainda existe algo do Cazuza guardado apenas com a família, como o poema que foi divulgado após a morte dele?

Não. Eu abri tudo. Eu acho que o público dele merece isso. Ele foi muito amado. Para você ver, 30 anos depois as pessoas ainda lembram dele, me encontram, choram. Todos merecem isso.

O Cazuza não deixou herdeiros. Pensando nos próximos anos, quem você acredita que pode levar adiante o nome dele e manter a Viva Cazuza? Já pensa nisso?

Eu penso nisso, afinal, tenho 83 anos. Eu tenho uma sobrinha (Fabiana Araújo) que é jovem e me ajuda o tempo inteiro. Tenho esperanças de que ela fique no meu lugar, porque não é fácil. Espero que ela saiba dirigir isso aqui. Eu tenho muitos problemas, mas acho que olhando para trás tudo isso aqui valeu a pena. Já passaram por aqui 250 crianças nesses 30 anos, então, valeu a pena. Se a gente perdeu dez crianças foi muito.

Cazuza sempre foi um artista polêmico e envolvido nos assuntos políticos do Brasil. Como você acha que ele se posicionaria hoje?

Eu acho que ele está muito atual. O trabalho dele nunca foi tão atual. Não sei como ele estaria e nem de que lado político ele estaria, mas ele estaria na vanguarda com certeza. Ele sempre foi à frente do seu tempo.

O que marcou Cazuza por tantos anos e fez dele um dos ídolos da música brasileira?

Eu acho que a personalidade dele foi o que marcou. Não foi a beleza, nem a inteligência. Poucas pessoas puderam se impor como ele se impôs em tão pouco tempo. Se você for considerar o tempo, tem menino aí com 40 anos de carreira que não deixou marcas. Cazuza é uma marca e sempre será, não importa se eu estiver viva ou morta, vai durar para sempre. Essas novas gerações conhecem ele.

Ainda tem relação com os amigos que foram mais próximos do Cazuza?

Bebel Gilberto é a mais próxima. Toda vez que ela está no Brasil vem me visitar. Agora ela vai voltar a morar aqui. Sempre que vem me ver a gente sai para jantar e conversar. No meu aniversário ela fez um mini show em homenagem ao Cazuza. Frejat trabalha muito e tem filhos adultos, mas a gente se vê muito. George Israel também é muito presente. Todos os amigos dele. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ney Matogrosso...

Em quais momentos ou ocasiões a lembrança do Cazuza se torna mais forte?

Eu me lembro dele 24 horas por dia. As vezes tenho até de pedir calma. 'Calma, deixa eu pensar em outra coisa'. Mas eu não lembro com mágoa, nem rancor, me lembro apenas com saudade e orgulho. O que mais me lembra dele são as músicas. Ligar o rádio e ouvir uma música dele é o maior presente para mim.

Quando você lembra que já se passaram quase 30 anos sem Cazuza, o que vem à mente?

Eu não acredito que eu gerei uma pessoa tão diferente. Não vou dizer que ele seja nem melhor e nem pior do que ninguém, mas que ele é diferente, ele é. Ao mesmo tempo ele era bonito, chique, inteligente... É muito difícil você reunir em uma pessoa só tantas coisas boas. Eu paguei um preço muito alto por de ter gerado um filho assim.

Cazuza tinha uma personalidade forte. Se arrepende de algo que poderia ter feito para preservar a imagem dele enquanto vivo?

Eu não me arrependo e acho que fiz o possível. Na verdade, não me arrependo de nada na minha vida. Eu vivi uma vida muito tranquila. Fiquei casada com o meu primeiro namorado por 60 anos, então foi muito tranquilo. Cazuza que me tirou a tranquilidade enquanto ele viveu. Mas é uma coisa boa. Hoje em dia eu me lembro e falo 'que coisa engraçada'. Como quando eu ficava preocupada porque ele saía tarde e não voltava.

Só as mães são felizes?

Ninguém ama mais que uma mãe. Eu acho que ninguém. Não tem amor maior. O amor de mãe é um amor que você põe tudo na frente. A mãe tem de amar mais o filho do que a si própria. Uma mãe que não ama mais o filho do que a si não é uma mãe verdadeira.

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Homenagens do 30º ano sem Cazuza poderão ajudar instituição de Lucinha Araújo

Mãe do cantor comanda a Fundação Viva Cazuza desde que perdeu o seu filho

Andreza Galdeano, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2020 | 19h00

"Desde o dia em que o meu filho morreu, um pedaço de mim foi junto com ele. Eu não tinha escolha", revela Lucinha Araújo, mãe de Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza. Iniciando as homenagens do 30º ano sem o astro do rock, vítima de complicações decorrentes da aids em 1990, ela ressalta que o cantor permanece vivo em sua memória e "mais atual do que nunca no universo da música".

"Para mim, todo ano é igual. A minha vontade era de morrer junto com ele. Eu perdi o meu único filho no auge da beleza, juventude e sucesso, foi uma coisa muito dura, não só para mim, mas muito pior para ele. Eu estou aqui 30 anos depois", conta Lucinha, em entrevista ao Estado.

Além das músicas que frequentemente são tocadas nas rádios e se torna uma das formas mais fáceis de relembrar a carreira de Cazuza, a mãe do cantor comanda a Viva Cazuza desde que perdeu o seu filho. A sociedade, que dá assistência a crianças carentes portadoras do vírus da aids, localizada no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, depende dos direitos autorais do compositor brasileiro para sobreviver.

"Fundar a Viva Cazuza foi um alento para mim porque eu descobri que nada ia trazer o meu filho de volta, mas, a sociedade, de um modo, trouxe ele de volta. Foi uma âncora. Aqui eu ganho mais do que eu dou. Sei que estou fazendo a coisa certa porque era tudo o que ele queria que eu fizesse. Nunca toquei nesse assunto com ele, mas eu tenho certeza de que ele queria. Mãe sente", conta.

As homenagens aos 30 anos da morte de Cazuza poderão ajudar a aumentar o caixa da instituição. A expectativa é realizar projetos que possam arrecadar dinheiro para suprir os gastos do próximo ano e ainda restar verba para 2021. Além do tradicional leilão beneficente, Lucinha garante que tem grandes projetos. "Teremos comemorações o ano inteiro", afirma. Serão acertados shows, um festival no município de Vassouras, e será divulgada a gravação do projeto "Cazuza em bossa nova", que reúne clássicos do cantor em ritmo de bossa nova com Roberto Menescal, Leila Pinheiro e o ex-baixista do Barão Vermelho, Rodrigo Santos.

Atualmente a Viva Cazuza recebe cerca de 20 crianças, que vivem em regime de internato no local. "Hoje em dia o juizado só deixa ter no máximo 20 crianças. Eu tenho estrutura para receber mais, porém sou proibida, então eu apenas obedeço", conta Lucinha. Aos 83 anos, ela diz que "não tem mais idade para ficar batendo boca". "Eu já fiz muito isso e já passei dessa fase. Não sei nem como eu nunca fui presa. Mas hoje em dia não, eles ordenam e eu obedeço. No dia que eu não quiser obedecer eu fecho as portas", avisa.

Para manter a sociedade funcionando, Lucinha leva em conta um orçamento de mais de um milhão de reais por ano. Para se ter uma ideia do entrave financeiro, os direitos autorais de Cazuza devem fechar o ano de 2019 com a arrecadação de R$ 400 mil. "O primeiro desafio é sempre o financeiro. Eu não tenho nada do governo. Aqui eu uso o meu dinheiro e o dinheiro dos direitos autorais do Cazuza. Sobre doações avulsas, se eu tiver de três pessoas mensalmente é muito, contando todos esses anos", explica.

Uma das suas maiores batalhas, além das questões financeiras, é o licenciamento exclusivo para os direitos relacionados a marca, nome, imagem e dados biográficos do cantor Cazuza. "Está tudo registrado. Hoje temos lutas na internet. Por exemplo, eu vendo camisetas e você entra na internet e tem milhares de camisetas do Cazuza sendo vendidas sem pagar direito autoral. Tem shows sendo feitos até nos Estados Unidos sem me dar um tostão. Eu já coloquei até advogado nessas questões, mas ele falou que era melhor eu esquecer e disse que fica até antipático para mim, porque eles consideram uma homenagem para o meu filho. Mas também sabem que eu vivo dos direitos autorais dele, então eles tinham de dar uma porcentagem", explica.

Além das crianças, a sociedade também atende 200 adultos uma vez por semana no "programa de adesão ao tratamento". Esse projeto tem como objetivo auxiliar a população de baixa renda a usar os remédios disponibilizados gratuitamente em postos de saúde. "O Brasil é um dos únicos países do mundo a distribuir medicamentos para a aids gratuitamente e o que acontecia muito era a distribuição de remédios caríssimos para a população de rua ou baixa renda e eles não sabiam usar. Aqui, eu criei um programa onde a pessoa vem, prova que está se tratando em um posto de saúde, e a gente ensina a tomar. Para quem não sabe ler, nós colorimos as cartelas. Eu só não atendo mais pessoas porque não dá, mas a procura é muito grande. Temos também apoio psicológico e doação de cesta básica para quem participa", afirma Lucinha.

Ela, que já foi intitulada "mãe coragem", também aprendeu a se virar para comandar o projeto. "Eu negocio, faço contrato e com o tempo fui aprendendo a lidar com tudo isso. Também estudo muito antes de aceitar um pedido. Eu sou muito coração, mas tenho pessoas ao meu lado que são mais calmas. Algumas trabalham comigo ao longo desses 30 anos. Quando o João (Araújo, marido de Lucinha) era vivo, tudo ficava mais fácil. Ele já nasceu nesse meio e sabia lidar com tudo. Era sempre o meu conselheiro. Apesar de ter a Som Livre, quando eu tinha alguma dúvida era ele quem resolvia. Também tinha outro ponto: ele era mais positivo do que eu. Eu já fico pensando no pior e ele não fazia questão de agradar ninguém", lembra.

João Araújo morreu em 2013, vítima de uma parada cardíaca, aos 78 anos. Um dos fundadores da gravadora Som Livre, ele esteve à frente dela durante 38 anos. Por sua atuação durante esse período, tornou-se um dos executivos mais importantes da indústria fonográfica do País. "Eu nunca vou esquecer do João. O pior foram os anos subsequentes depois que o Cazuza morreu. Sem mencionar que o meu filho foi uma pessoa que morreu, mas está sempre presente na minha vida", diz Lucinha.

Para conseguir lidar a organização do seu projeto, a mãe do cantor, que mantém proximidade com todas as crianças da Viva Cazuza, conta que marca presença no local todos os dias. "Se eu não fizesse isso, não funcionaria para mim. Não gosto de nada que o dono não esteja de olho. A minha relação com as crianças é maravilhosa. É como se eu tivesse muitos filhos, como se fosse uma grande casa. Procuro sempre o sorriso do meu filho no sorriso de uma criança, esse é um lema que desde o dia em que eu abri a casa levei muito a sério".

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