Cavalleria Rusticana e I Pagliacci juntas no Alfa

Estréia quinta-feira no Teatro Alfa uma montagem das óperas Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, e I Pagliacci, de Ruggiero Leoncavallo, duas das principais expressões do período verista italiano. Com direção cênica de Aidan Lang - que no ano passado dirigiu a aclamada montagem do Alfa de Don Giovanni, de Mozart - e direção musical de Jamil Maluf, à frente da Orquestra Experimental de Repertório, a produção investe no elenco nacional e reúne alguns dos principais cantores líricos brasileiros da atualidade. A exceção é o tenor britânico Dennis O´Neill, que interpreta os papéis de Canio e Turiddu.Mostradas juntas pela primeira vez em uma montagem do Metropolitan Opera House Nova York, em 1893, Cavalleria Rusticana e I Pagliacci dificilmente apareceram sozinhas desde então. A primeira, composta em 1890, é ambientada em uma vila da Sicília, durante as festividades da Páscoa. Santuzza, apaixonada pelo jovem Turiddu, sofre com o desprezo do ex-amante pai do filho que espera. Procurando vingar-se, conta ao carroceiro Alfio que sua esposa, Lola, é o novo alvo da paixão de Turiddu e que os dois andam se encontrando secretamente. Interpelado por Alfio, Turiddu o desafia e morre no combate.Composta dois anos mais tarde, com libreto do próprio Leoncavallo, I Pagliacci se passa em Montalto, na Calábria, durante a festa de Assunção. Canio, Tonio, Nedda e Beppe, membros de uma trupe itinerante de teatro, chegam à cidade provocando rebuliço na população - feliz por ter em seu meio estrelas de teatro - e no jovem Sílvio, que apaixona-se por Nedda, vendo nela a possibilidade de uma vida repleta de glamour diferente da que leva em sua cidade. Os dois começam a se encontrar sem que Canio saiba. No entanto, Tonio, rejeitado por Nedda, conta a Canio sobre o romance. O clímax ocorre durante o espetáculo da trupe, quando Canio mistura realidade e ficção e mata Nedda perante os olhos aflitos do público.Para a produção paulistana, o diretor Aidan Lang, trouxe a ação das duas óperas para o século 20 sem, no entanto, demarcar um período exato, uma vez que o importante, em sua opinião, é mostrar o clima de opressão em que as personagens estão envolvidas. "Estão todos presos dentro de suas mentalidades, buscando, no caso específico de I Pagliacci, fugir de suas realidades", indica.Revolução - As duas obras fazem parte de um momento na história da ópera chamado de verismo, caracterizado pela transposição para o palco, pela primeira vez, de temáticas realistas. Outra revolução introduzida pelo verismo foi o rompimento com fórmulas tradicionais de composição, dando valor à melodia e à fluência no desenrolar da ação, o que, de certa forma, explica a curta duração das duas obras: um ato único com pouco mais de uma hora de duração. Na opinião do diretor Aidan Lamg, essa confluência de temas, presente na maneira brusca com que as personagens optam por resolver seus problemas, aliada à curta duração, é que fizeram com que, até hoje, as duas obras formem a dobradinha de maior sucesso no universo da ópera.Para Jamil Maluf, no entanto, é uma injustiça para com I Pagliacci unir as duas óperas em uma só noite. "Trata-se de obras muito diferentes: enquanto a Cavalleria é, na verdade, a reunião de temas e melodias favoritas do público em geral, I Pagliacci é uma ópera de absurda sofisticação musical, com momentos incríveis, além da ária Vesti la Giubba, que acaba sendo a que mais se destaca", diz.A riqueza do Pagliacci, em sua opinião, está, nos contrastes e na riqueza de propostas dramáticas, enquanto a Cavalleria é, praticamente, "monocórdica".Nesse sentido, a utilização da versão revisada da partitura, feita por Giacomo Zani em 1982, foi fundamental. "O primeiro material que tive em mãos não continha marcações importantes, sinais de articulações e o resultado acabaria sendo um Pagliacci pesado, sem esses contrastes que são a alma da ópera", comenta.O fato de ter pela primeira vez à sua frente a partitura de duas das mais populares óperas do repertório fez com que Maluf decidisse inovar na interpretação. "Tinha duas opções: fazer tudo igual ao que outros já fizeram ou tentar criar algo novo, diferente, o que, acredito, seria a melhor solução."Para tanto, após estudar durante dois meses as partituras, Maluf as deixou de lado e passou a debruçar-se sobre o libreto. "O verismo teve grande influência na temática das óperas, mas também na forma de compor: o espetáculo tem mais fluência e o canto é livre: essas óperas trazem para o palco o tempo normal de fala", ressalta, explicando por que estudou atentamente o libreto. "Lia como se fosse um ator e, a partir daí, decidia os tempos da orquestra."Maluf acredita que está nessa busca pelo desenvolvimento musical sem entraves a grande contribuição de Leoncavallo e Mascagni. "Eles dão uma verdadeira lição de ópera", acredita o maestro, que discorda de que os compositores tenham feito, mais tarde, algo tão importante como essas duas óperas. "Discordo dessa opinião, acho que o público é o grande juíz."Cavalleria Rusticana & Pagliacci. Obra de Pietro Mascagni e Ruggero Leoncavallo - Duração: 3 horas. Quinta, sábado segunda e quarta (18), às 20h30; domingo (22), às 17 horas. De R$ 20,00 a R$ 150,00. Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Até 22/10.

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