Cavalera Conspiracy faz shows no Brasil e lança novo CD

'Pandemônio' é o terceiro disco da banda de Max e Iggor Cavalera, dupla puro sangue do metal, depois de 'Inflikted', de 2008

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2014 | 02h00

Vem aí o Mad Max. A bordo de sua banda Cavalera Conspiracy, a irmandade de sangue do metal, Max e Iggor Cavalera, inicia no próximo dia 31, em Brasília, no festival Porão do Rock, uma turnê por 11 cidades brasileiras, uma das mais extensas de uma banda nacional de metal nos dias de hoje. Em São Paulo, a banda toca no 1° Metal Manifest, dia 12 de setembro, no HSBC Brasil, com abertura dos grupos de metal nacionais Krisiun e Korzus. 

Prestes a lançar seu terceiro disco, Pandemônio, que sai em outubro (com produção de John Gray), o grupo dos irmãos Cavalera incorporou um novo baixista, Nate Newton (do grupo de mathcore americano Converge), e promete tocar de Six Pack, do Black Flag, a músicas do primeiro EP do Sepultura, como Necromancer e Anticop, de 1986 – uma versão hardcore do anticristo, cuja letra é virulenta e não recomenda tradução: “Police sucks. Fucking fags. Cops in my house. Cops in the bus. Kill some cops. Fuck them up. All the cops. Fucking die. I hate cops”.

Quase 20 anos após a saída de Max do Sepultura, a reunião dos irmãos Cavalera resultou numa nova máquina de demolição sonora. Que já dá seus frutos: os filhos de Max, o baterista Zyon e o guitarrista Igor, de 21 e 19 anos, percorrem os Estados Unidos com sua banda também de metal, o Lody Kong – e abrem shows do Soulfly, a outra banda do pai.

“Vamos tocar em Porto Alegre, que é um lugar onde não toco com o Iggor há 20 anos. A última vez que estivemos juntos lá foi com os Ramones. Temos muita saudade dessa época e acho que os fãs vão delirar em ver a gente após duas décadas”, festejava Max, na última segunda, falando por telefone ao Estado de Billings, Montana, onde fazia turnê no dia do seu aniversário de 45 anos.

Na madrugada de 17 de dezembro de 1996, o Sepultura, maior grupo de rock que o Brasil já exportou para o resto do mundo, rachou para sempre. Estava no auge do seu prestígio, vivendo na Califórnia, tocando em megafestivais, com dois ônibus de turnês distintos (um para Max, outro para os outros). Diferenças irreconciliáveis que perduram até hoje os afastaram, e não há expectativa de retorno. 

Os irmãos reataram após 10 anos sem conversa. O primeiro disco do Cavalera Conspiracy, Inflikted, foi lançado em 2008, produzido por Logan Mader e Max Cavalera. Era o primeiro gravado pelos irmãos desde Roots, do Sepultura, de 1996. O segundo disco veio em 2011, Blunt Force Trauma, novamente produzido por Logan e Max e distribuído pela Roadrunner Records. 

Max conta que não sente falta nem um pouco daquela glória massiva do tempo do Sepultura. “Achei até um saco, aquele negócio de não poder ir numa loja, num restaurante, que já era reconhecido.”

Max (vocais e guitarra), Marc Rizzo (guitarra), Iggor (bateria) e Nate (baixo) formam o Cavalera Conspiracy, que fez sua primeira apresentação no Brasil em 2011. Mas volta agora para um arrasa-quarteirão, com músicas completamente novas e outras que os fãs do Sepultura esperam ouvir com a dupla Max e Iggor há muitos anos. Veja como foi o papo com Max Cavalera.

O Soulfly, a banda que você criou depois do Sepultura, já é uma banda veterana, não?

O próximo disco do Soulfly é o nosso décimo disco, cara! Dez discos é f..., né? Ficamos todos velhos. Hoje (segunda), estou fazendo 45 anos, é meu aniversário. O trabalho não termina, nesse momento estamos em Billings, Montana, tocando. Tem bastante gente que curte o metal. Eu adoro fazer essas turnês pelos Estados Unidos em lugares menores, para 500, mil pessoas, íntimos, perto da galera, perto do seu público, a pressão na sua cara. Eu curto esses buracos em que a gente toca, essa é a essência do metal. Não está em lugar grande, não está em festival. O Soulfly tocou na Europa, abrimos para o Black Sabbath, 60 mil pessoas no Hyde Park. Mas nesses lugares muito grandes muita coisa se perde, a magia não está lá, a magia está no buraco mesmo. Você vai lá para ver o Soulfly, mas o melhor lugar para ver o Soulfly é em Montana, um lugar para 400 moleques indo à loucura, cantando cada música, suados, com calor.

Quando vocês estavam no auge com o Sepultura, morando nos Estados Unidos, vendiam muito discos, ganhavam uma boa grana, não?

Hoje ninguém leva a sério venda de discos. É meio... você faz o disco mais por fazer, ninguém conta com o que vai vender. É camiseta, merchandising, e o merchan do Soulfly é forte. E os shows. O Soulfly toca em tudo quando é lugar. Este ano tocamos na Tunísia, no Casaquistão, Sibéria, lugares loucos que eu nem tinha ideia que tínhamos públicos. Conhecem as músicas, vão ao delírio. Tinha cara que tava me esperando me ver há 30 anos, que era fã do Sepultura, e foi no show e enlouqueceu. Esse lance do metal leva a gente para uns lugares diferentes, Bielorrússia, países comunistas que têm o mesmo presidente há 30 anos, onde há uma forte repressão. Em todos esses lugares, a galera gosta do metal, porque fala a língua da juventude. Nesses lugares, onde há opressão, fazemos alguns dos nossos shows mais fortes.

Quando vocês fizeram Roots, foram para uma aldeia indígena, fizeram sessões de autógrafos de filas imensas em Londres. Você sente falta daquilo?

Eu sinto falta do que a gente conseguiu conquistar, as ideias. Essa ideia de gravar na aldeia, por exemplo, com os Xavantes, foi uma ideia que eu tive em casa. Eu tava meio bêbado, tinha bebido meia garrafa de vinho e estava vendo um filme chamado Brincando nos Campos do Senhor, do Hector Babenco. O Tom Waits está nesse filme, que é bem louco. Eu tava chapado e tive essa ideia de gravar com a tribo brasileira. Minha mulher, que era nossa empresária na época, me disse: “Mas você não é o Michael Jackson, não temos esse orçamento!”. Eu disse a ela: “Não sei, eu tive a ideia, você que é nossa empresária, você dá um jeito de fazer acontecer o negócio” (risos). Ela fez contato com a gravadora e rolou tudo. Disso aí, eu sinto falta. Mas, do auge da popularidade, não sinto falta, não. Achei até um saco, esse negócio de não poder ir numa loja, num restaurante que logo é reconhecido. Acho muito mais legal minha vida hoje em dia, que sou conhecido no meio do metal. Minha privacidade continua intacta. Para ter uma sanidade mental até. Nessa época do Roots, eu tava bebendo muito e tomando muita droga. Era o único jeito de levar pra frente, porque tem turnê demais, tem muita agenda, você acaba se medicando. Eu não acho muito legal. Hoje em dia, estou straight edge, curto a vida meio careta. Sou uma personalidade extrema: é o mais hardcore ou nada. Nunca curti maconha, gostava de cocaína. Nunca tomei cerveja, gostava de vodca. Quando desisti de tudo isso, resolvi parar com tudo. Não faço mais nada. Hoje em dia, a música é o que me dá alegria. Criar meus filhos e fazer música.

Falei com Troy Sanders, do Mastodon. E ele me disse que toca com você num supergrupo chamado Killer be Killed. Ele falou da dificuldade de vocês fazerem uma turnê com a superbanda.

É, a gente vai ver se no ano que vem rola alguma coisa. Tem um convite já para a Austrália, em janeiro, para um festival superlegal. Vamos ver se rola. Porque a gente é muito ocupado com nossas bandas. O Troy tem o Mastodon, que acaba de lançar disco novo; o Greg (Puciato, vocalista) tem o Dillinger Escape Plan, que está sempre em turnê; e eu tenho o Soulfly e o Cavalera. Mas a gente vai achar um tempo para fazer isso daí.

PARA LEMBRAR

Max, o senhor do trovão

Mineiro de Belo Horizonte, Massimiliano Antônio Cavalera tem 45 anos e criou a mais internacionalizada das bandas brasileiras nos anos 1980, o Sepultura. Em 1996, saiu do grupo e, desde então, vive nos Estados Unidos. 

Três músicas que o Cavalera Conspiracy deve tocar no Brasil:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.