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Cat Power faz show 'meio aborrecido'

Canções do disco novo da cantora, 'Sun', e comportamento de diva marcaram apresentação no Cine Joia

Crítica: Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo,

22 de maio de 2013 | 16h58

Andrógina, arredia, nervosa, atacada. Não deixou os fotógrafos trabalharem, e ainda selecionou pessoalmente as fotos de sua equipe que queria que fossem liberadas.

O que aconteceu com Cat Power? "Can you cut the strobo?", ela pediu, a certa altura do show de terça-feira, no Cine Joia, ao técnico de iluminação ("Pode cortar a luz estroboscópica?"). Fungando e tossindo, o incômodo de Cat Power parecia não saber mais direito onde se agarrar. Muito aluguel. "Um pé no saco", resmungou uma fã.

Neodiva do pop, a norte-americana Chan Marshall (a Cat Power) tornou-se, na última década, uma espécie de Billie Holiday da nossa geração. Isso aconteceu em decorrência de uma série de qualidades raras: a respiração, a ousadia na métrica e na interpretação das palavras (costumava esticar cada sílaba dolorosamente, como se fosse se dissolver), um jeito de demonstrar seu sentimento em cada canção.

Nunca tínhamos ouvido alguém interpretar em tais extremos emocionais, da mesma maneira, Satisfaction, dos Rolling Stones, e Don’t Explain, de Billie Holiday.

Quando lançou seu novo disco, Sun, no ano passado, chamava a atenção o fato de ela ter abraçado a música eletrônica e aberto mão de sua ênfase no emocional. Teclados, sintetizadores e drum machines predominavam. O disco foi saudado como bacaninha pela comunidade hipster, mas o fato é que é um repertório que pode pertencer a qualquer Katy Perry, não precisa de uma artista do porte de Cat Power para empunhá-lo.

No show do Cine Joia, ela cantou 9 das 11 canções do disco novo, baseadas principalmente em loops e repetição. Nenhuma delas é emocionante, mas algumas são bem psicodélicas, animadas, ultradançáveis. Sua nova banda parece ter escapado de uma jam do Grateful Dead e do Jefferson Airplane em 1967. A banda anterior tinha um sabor de southern rock, e Cat Power era bluesy no "úrtimo".

O show foi aberto com uma versão quase inteiramente instrumental de Sea of Love. Cat Power só entrou para finalizar os versos, arrastando uma das pernas pelo palco em pose de John Wayne indie.

Logo em seguida, ela mandou uma versão irreconhecível de The Greatest. Aí começou a parte novidadeira do show, ancorada principalmente em uma seção dupla de percussão, guitarras e efeitos.

Cherokee iniciou o set, e a voz de Cat Power, tão especial, dissolvia-se no seu ácido sonoro. As batidas em Sun e Always on my Own enfatizam um aspecto marcial, mecânico, obediente, e mostraram boa adequação ao universo clubístico. Há coragem, evidentemente, em mudar a direção artística desse jeito, mas o fato é que a presença de Cat Power ali no meio daquela "Silent Machine" também sugeria desperdício.

Cat Power só voltou a ressurgir intacta na interpretação de Metal Heart. Àquela altura, já parecia mais relaxada. Ajoelhada no chão, dava autógrafos em objetos que os fãs depositavam na beirada do palco, e caminhava com desenvoltura. Até trocou de casaco - o primeiro parecia armadura de competição off road. Foi igualmente sublime na interpretação de I Don’t Blame You (do disco You Are Free, de 2003).

É um momento de encruzilhada de Cat Power. Aos 41 anos, além de mais roliça fisicamente, ela parece também um tanto mais confusa e amarga. Anteontem, ela divulgou um manifesto em seu microblog em que expressava sua vontade de abandonar seu País de origem, os Estados Unidos, "exatamente porque esse simbolismo que o poder (da liberdade) pode ter foi usado como forma de violentar a Terra com mentiras, manutenção da riqueza e escravidão cruel".

Ela exige reformas no sistema político e tem postado coisas que sugerem até que vai abandonar a carreira. Rezemos para que desista: nenhuma cantora de sua geração foi tão singular ao escavar entre granitos do pop e repertórios já quase extintos.

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