Márcio Fernandes / Estadão
Márcio Fernandes / Estadão

Casa do Mancha expande seus territórios e ganha  festival próprio

Em tempos de grandes eventos, Mancha Leonel mantém o underground em primeiro festival

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2015 | 17h00

Danilo Leonel, apelidado de Mancha desde os 6 anos de idade, andava para lá e para cá com o telefone celular na orelha. “Você sabe se na Sala Lago tem ar-condicionado?”, questionava ele, preocupado, a todos os presentes. Faltavam quatro dias para que todo o conceito daquele endereço onde nos encontrávamos na Vila Madalena, há oito anos conhecido como Casa do Mancha, extrapolasse as barreiras físicas e fosse transportado para o Centro Cultural Rio Verde. Neste domingo, 4, o produtor e músico promove seu primeiro festival próprio, chamado Fora da Casinha, com dez bandas relevantes do cenário underground paulistano e brasileiro. 

Em uma era de megaeventos, arenas multiuso gourmets e festivais de música na qual a grande protagonista, no fim das contas, é relegada à trilha sonora do passeio, o Fora da Casinha chega com a ideia totalmente oposta. Ali, a música, enfim, é o que importa. São dez atrações, como O Terno, Gui Amabis, as goianas Boogarins e Carne Doce, entre outras (veja mais abaixo).

A Casa do Mancha cresceu no boca a boca, sem divulgação ou “anúncios pagos no Facebook”, como brinca o dono da casa, e comemora oito anos de existência como um ponto de encontro importante para aqueles que gostam de boa música autoral em São Paulo. Era uma espécie de Clube da Luta, como no filme que adapta o livro de Chuck Palahniuk: não se fala o endereço oficial da Casa do Mancha. Uma regra informal, mas que formava uma espécie de clubinho do qual só participava quem sabia ou recebia um convite. Obviamente que as coisas foram crescendo e, naquela ruazinha despretensiosa da Vila Madalena, do lado de uma borracharia, começou a nascer um verdadeiro movimento da música underground paulistana.

Nunca soube-se dizer, com exatidão, como soa a cena paulistana. Ela tem influências díspares, mas converge nessas pequenas casas, pontos de encontro transformados em locais de show, fomentado por gente que, como Mancha, coloca a música como prioridade. 

“Nunca considerei que tínhamos uma casa de shows, por mais que a gente faça apresentações aqui”, diz Mancha, que abriu sua casa de forma oficial ao Estado na tarde de quarta-feira. “Encaro a casa e apresento ela assim para o proprietário: trata-se de um laboratório de música. Disse assim para a dona do imóvel: ‘Vou morar lá, vou fazer um estúdio, vamos fazer uns shows, mas não somos reféns disso” explica. A música comanda as atividades da casa, desde gravações de disco, masterizações até os shows famosos. 

Heróis indies que passaram por São Paulo ao longo dos anos, Peter Hook (Joy Division e New Order), Mac DeMarco e Sebadoh são algumas das “atrações” improvisadas que tomaram o palco montado no espaço que, um dia, foi uma sala. “Certa vez, o TV on The Radio estava tocando na sala e eu estava tirando um cochilo no meu quarto”, conta, sorrindo, Mancha. 

O paulista nascido em Castilho há 34 anos nunca fez questão de aparecer. Era reticente a reportagens sobre o movimento que acontecia sob o mesmo teto onde ele dormiu até dois anos atrás, quando foi “expulso para parar de atrapalhar o funcionamento da casa”. A história que corria é que a casa não tinha permissão para fazer aquilo, mas mesmo ali, à margem, cresceu ao longo dos últimos anos. “Sempre foi difícil segurar o ímpeto das pessoas em divulgar a casa. Existe uma necessidade de se criar novidades. Acho natural as pessoas quererem falar, mas sou caipira, sou do pantanal, meu modo de levar as coisas é outro”, explica o músico e produtor. “Sou quieto, faço as coisas sem alarde, não é que vou colocar um luminoso na porta. O que interessa é a música.” 

São oito anos de Casa do Mancha, desde a primeira vez que o portão de metal foi aberto para amigos e conhecidos como um espaço cultural de fato. Foi uma noite de sábado, 22 de setembro de 2007, que a banda Polara inaugurou o espaço. Desde então, um sem número de vezes o ritual se repetiu, e mais e mais gente abarrotou aquele espaço de 80 m². “Gosto de shows pequenos”, diz Mancha que, hoje, não deixa mais de 80 pessoas ocuparem o mesmo espaço. “Mas deu vontade de extrapolar o espaço físico da casa.” 

Mancha disse estar movido pelo desafio de levar a sua casa para o Centro Cultural Rio Verde, num festival com dez bandas, três palcos e uma capacidade de público dez vezes maior. “Sempre foi algo que ficava na minha cabeça. Sair do lugar comum, da zona de conforto e como lidar com o desafio novo. Me perguntar: ‘Como vou me sair?’ Isso me instigou.” 

Quando foi convidado pelo Centro Cultural Rio Verde para realizar o festival, Mancha ouviu que a ideia era levar “a casinha para outro lugar”. “Aqui em casa, fica tudo sob a minha responsabilidade. Sei como cada parte daqui funciona”, diz. “Faço questão de ir lá e cumprimentar a todos, sabe?” Há poucos dias antes do festival, Mancha se desdobrava para acertar os últimos detalhes. Não sabia, por exemplo, se os famosos drinques da Casa estariam disponíveis no festival. “A ideia é que sim, mas preciso ir lá ensiná-los”, diz. “E só temos mais quatro dias.” 

ESCALAÇÃO: 

- 16h – Discotecagem do Trabalho Sujo

- 17h – Maurício Pereira (Coreto)

- 17h40 – Stela Campos ( Lago)

- 18h20 – O Terno (Coreto)

- 19h – Soundscapes (Teatro)

- 19h30 – Twinpine(s) (Lago) 

- 20h – Holger (Teatro)

- 20h30 – Carne Doce (Lago)

- 21h – Supercordas (Teatro)

- 21h30 – Gui Amabis (Lago)

- 22h – Boogarins (Teatro)

FORA DA CASINHA 

Centro Cultural Rio Verde. R. Belmiro Braga, 181, Vila Madalena. Neste domingo, 4, a partir das 16h. R$ 60 (já no segundo lote)

+ Espaços pequenos e apresentações intimista

A Casa do Mancha é apenas um dos lugares para se curtir apresentações de bandas autorais em clima intimista. Em São Paulo, a cena independente se espalha por esses pequenos guetos que oferecem uma experiência de proximidade entre banda e público. No Mancha, 80 pessoas é o número máximo de pessoas que o dono, Mancha Leonel, permite entrar. 

A Casa de Francisca (Rua José Maria Lisboa, 190), em breve, oferecerá um espaço maior para o público, mas ficou conhecida como a “menor casa de shows da cidade”. Com capacidade para abrigar 44 pessoas, o lugar marcou a cidade ao abrir versões ainda mais íntimas de apresentações como de artistas como Arrigo Barnabé, Metá Meta e até o rapper Emicida. 

Outros pontos que também oferecem a experiência, por exemplo, são a Serralheria Espaço Cultural (Rua Guaicurus, 857), que recebe até 180 pessoas, ou o Espaço Cultural Puxadinho da Praça (Rua Belmiro Braga, 216), inaugurado há três anos e que oferece música para até 80 pessoas. / P. A. 

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