Juliana Cerdeira
Juliana Cerdeira

Casa do Choro lança plataforma com show especial e aulas virtuais

Show em homenagem a Elizeth Cardoso ocorre hoje (10), com Monica Salmaso nos vocais; plataforma conta com mais de 10 mil partituras gratuitas

Danilo Casaletti, Especial para o Estado

10 de outubro de 2020 | 05h00

Dos quase 1.200 alunos matriculados nos cursos da Escola Portátil de Música (EPM), que deu origem à Casa do Choro, 20% deles são estrangeiros. Há, por exemplo, turmas inteiras de japoneses querendo aprender choro e samba. Esse interesse, que já existia, foi reforçado pelo contexto da pandemia, que obrigou, em março, as aulas da escola carioca migrarem rapidamente para o ambiente virtual. Para reforçar a difusão e a valorização do choro, a entidade lança agora a Casa do Choro Digital, plataforma de streaming na qual ficarão disponíveis partituras, palestras, shows e workshops, com conteúdos pagos e gratuitos.

Um dos eventos que marcam o lançamento da plataforma ocorre hoje (10), às 18h: um show em homenagem aos 100 anos da cantora Elizeth Cardoso, lançada por um “chorão”, Jacob do Bandolim (1918-1969). A apresentação terá a cantora Mônica Salmaso e participação de Paulo Aragão (piano e direção musical), Luciana Rabello (cavaquinho), Mauricio Carrilho (violão de 7 cordas), Aquiles Moraes (trompete e flugelhorn) e Marcos Thadeu (percussão). Os ingressos custam de R$ 15 a R$ 60 – quem optar pelo de maior valor poderá conversar com os músicos após o show.

A presidente do Instituto Casa do Choro (ICC) – que compreende, além da EPM, a Casa do Choro –, a cavaquinista e compositora Luciana Rabello, diz que a Casa do Choro Digital estava há tempos no papel, mas não se concretizou antes por falta de tempo e de dinheiro. “Com a pandemia, esse tempo apareceu e a gente foi louco de fazer isso rapidamente. Aliás, a gente foi louco de fazer tudo”, conta Luciana.

Esse “tudo” ao qual Luciana se refere remete ao começo do ano 2000, quando uma roda de choro reunia cerca de 50 pessoas na Sala Funarte. “Era uma maneira de estar com a garotada para transmitir o que tínhamos aprendido com os mais velhos”, diz. Porém, tudo foi crescendo: vieram as oficinas de choro e, posteriormente, a Escola Portátil. Em um primeiro momento, as aulas eram ministradas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Depois, ocuparam um casarão no bairro da Glória. O local ficou pequeno e elas passaram para a UniRio, onde são realizadas até hoje, aos sábados. Criada há cinco anos, a Casa do Choro ocupa um casarão histórico no centro do Rio e abriga aulas e cursos durante a semana.

Tem gringo no choro

Um dos estrangeiros que se beneficiou das aulas online foi o italiano Gaetano Meola, de 33 anos, que há 10 se apaixonou pela música brasileira – mais precisamente, pelo choro e pelo samba carioca. Atualmente, ele faz aulas de violão com Mauricio Carrilho, de arranjo com Jayme Vignoli e de violão de contraponto com Julião Pinheiro e Rafael Mallmith. “A música brasileira tem uma riqueza inacreditável. Com as novas tecnologias, ampliam-se as possibilidades para os não brasileiros se aproximarem dela”, diz ele que, ao lado de amigos, fundou em Roma, onde vive, a Casa Dello Choro. 

Em 2018, Meola viveu 6 meses no Rio para conhecer de perto o choro. Foi acolhido pela Casa, que assinou uma carta-convite para que ele usufruísse de uma bolsa oferecida pela União Europeia. “Além do aspecto musical, o choro, com a sua maneira característica de ser tocado, em roda, carrega uma filosofia comunitária com uma capacidade natural de juntar pessoas.”

Entre os professores da Escola Portátil com quem Meola já teve aula está o pianista, compositor e arranjador carioca Cristovão Bastos, coautor de clássicos da música brasileira como Todo Sentimento (com Chico Buarque) e Resposta ao Tempo (com Aldir Blanc). Bastos comanda há alguns anos uma turma de Prática de Conjunto e teve de se adaptar para passar as lições online. “Estou começando, aprendendo também. A interação precisa ser forte, senão se perde o tesão de ensinar e de aprender.” 

Com a pandemia e o interesse de estrangeiros, o músico voltou a dar aulas de piano e ganhou três novas turmas. Em uma delas, há sete alunas japonesas – nenhuma fala português. A comunicação tem o auxílio de um músico japonês que já viveu no Rio e se dispôs a servir de intérprete. Em outra turma, há uma argentina, um italiano (que falam português) e uma japonesa, que não entende bem o idioma e conta com a ajuda do italiano, que fala com ela em inglês. Bastos brinca que aprendeu cinco palavras em japonês: “obrigado”, “adeus”, “olá” e a contar “um, dois” (para dar um comando). “Até o final do curso quero falar 50 palavras”, diz ele, destacando a dedicação dos alunos estrangeiros.

Outro velho conhecido da Escola Portátil é o japonês Sakae Daidoji, de 49 anos, que desde os 19 mergulhou fundo da música brasileira ao conhecer uma escola de samba em Tóquio, onde vive. Em 2006, ele passou 3 meses no Rio para frequentar aulas de cavaquinho com Luciana Rabello e Jayme Vignoli na EPM. Voltou nos dois anos seguintes. Atualmente, dá aulas do instrumento para japoneses. Daidoji explica por que seus conterrâneos têm tanto interesse na música brasileira. “Ela tem um encanto especial que não há nas outras músicas do mundo e uma capacidade muito grande de acolher as pessoas, independentemente de raça, sexo, idade, etc. Ela entra no coração das pessoas diretamente e o agarra, e nunca mais sai dele”, diz.

Para Daidoji, a possibilidade dessa conexão com os professores é fundamental para o aprendizado do choro. “É preciso sempre estar ligado com os músicos do Rio de Janeiro para aprender do jeito certo e repassar a gerações posteriores do mesmo jeito. Pois o choro está nas pessoas e não nos papéis”, explica. 

Choro desde a infância

Cristovão Bastos conheceu o choro na infância. Nascido em Marechal Hermes, subúrbio carioca, ele guarda na memória uma cena que presenciou ainda menino. Sentado em frente à sua casa, viu passar um minirregional de choro – violão, bandolim e cavaco. “Lembro que, certa vez, fui ao botequim que eles frequentavam e toquei com eles. Só não bebi (risos)”, conta ele, hoje com 73 anos. 

Já profissional, nos anos 1960, começou a tocar na noite samba e samba-jazz. Choro era raridade. O reencontro com o gênero foi no início dos anos 1970, quando Paulinho da Viola o chamou para participar do show Sarau, que reunia o grupo Época de Ouro, um dos símbolos do gênero, e, posteriormente, do disco Memórias Chorando. “Foi algo nostálgico, de muita afetividade para mim”, diz.

É essa relação afetiva com o choro que Luciana Rabello quer incentivar. Na EPM digital, há cursos por R$ 590 o semestre. Na Casa do Choro Digital, é possível ser um apoiador a partir de R$ 10 – e ter acesso ao conteúdo pago. Entre o material gratuito, há 10 mil partituras. Quando possível, a casa oferece bolsas de estudos, como a que deu para uma menina de 9 anos de Cabo de Santo Agostinho (PE) que Luciana viu tocar cavaquinho. “Essa menina representa as pessoas nas quais eu quero chegar”, diz. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.