Carreiras feitas longe dos holofotes

Donos de obras que se fizeram longedos holofotes, nas quadras da escola, nas rodas do samba maisautêntico, figuras de referência, Argemiro, pandeirista, e Jairdo Cavaquinho são integrantes da Velha Guarda da Portela echegam ao solo pelo selo Phonomotor, criado e administrado pelacantora Marisa Monte e distribuído pela multinacional EMI. Da metade dos anos 90 para cá, numa reação não planejadaà invasão do pagode de butique (esse da turma de cabelo pixaimpintado de amarelo, batida dura, sem balanço, e poesia nenhuma),a turma do samba de verdade começou a (re)pôr as mangas de fora,por via de gravadoras pequenas que lançaram discos de Casquinha(Lua Discos, de São Paulo), Wilson Moreira (selo fonagráfico daRádio MEC), Nei Lopes (gravadora Velas) - para falar de jáconhecidos e reconhecidos. Nomes novos também deram as caras - Eliseu do Rio, opaulistano Quinteto em Branco e Preto, as excelentes Dorina eEliane Faria ou Ernesto Pires, para citar alguns e sem falar degente que ainda não gravou e já é festejada, como a jovem TeresaCristina, que canta uma parceria com Argemiro, o lírico sambaAmém, faixa do disco Argemiro Patrocínio, um dos que estãosendo lançados nos shows do Sesc Vila Mariana. Argemiro Patrocínio nasceu no subúrbio carioca daPiedade, em 1923. Seu ofício de sobrevivência foi sempre o detécnico em refrigeração. O pandeiro, conta ele, aprendeu de olho, e foi orientado na música e na vida pelo lendário Paulo daPortela. Mas começou a ser conhecido como compositor depois dos50 anos - antes, o autor não tinha grandes pretensões com aobra: coisa mais para ser cantada em rodas de botequim. Só que,em 1978, Beth Carvalho estourou nas paradas com A Chuva Cai,parceria dele com o já mencionado Casquinha, mais um portelensede primeira hora. A idéia do disco-solo de Argemiro foi da produtoraMarisa Monte. Ela o conheceu quando produziu outro importantedisco de samba - Tudo Azul, homenagem à Velha Guardaportelense. Outros convidados especiais do CD ArgemiroPatrocínio são Zeca Pagodinho (em A Saudade Me Traz,parceria com Alberto Lonato) e Moreno Veloso, filho de Caetano,em Vou-me Embora pra Bem Longe" (de Argemiro, Guaracy eRenato Fialho), música que está no roteiro do espetáculo. Jair do Cavaquinho, ou Jahyr de Araújo Costa, nascido emOsvaldo Cruz, onde Argemiro foi criado, em 1920 (mas ele temdois registros; o outro traz data de 1922), teve músicasimortalizadas por gente como Elisete Cardoso e Nara Leão. Estevepresente em momentos históricos da música brasileira, como noshow Rosa de Ouro (que revelou Clementina de Jesus),participou do grupo que deu nome ao show, do qual também faziamparte Paulinho da Viola e Elton Medeiros; mais tarde, com elesdois, foi dos Cinco Crioulos (que tinha, ainda, além deles,Anescarzinho e Nelson Sargento) e do grupo A Voz do Morro (comAnescarzinho, Zé Kéti, Oscar Bigode). Foi ao lado de Jair, noprimeiro disco do conjunto A Voz do Morro, que Paulinho da Violagravou pela primeira vez. O disco Seu Jair do Cavaquinho era um projeto dagravadora Acari Records, com produção do bandolinista eviolonista tenor Pedro Amorim. Mas a Acari não teve como arcarcom o lançamento e a Phonomotor o encampou. Jair do Cavaquinho esteve em São Paulo há pouco mais dedois anos, comemorando os 80 anos - ele considera o ano de 1920como o de nascimento -, e realizou, no Sesc Ipiranga, um dos maisbelos shows já vistos na cidade. Dividindo o palco com Argemiro,tendo Pedro Amorim como convidado, entre outros bambas, opercussionista Marcos Esguleba, as pastoras da Portela, acantora Teresa Cristina, além de Marisa Monte, tem tudo parabisar a beleza. Com mais beleza.Serviço - Jair do Cavaquinho e Argemiro. De quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 18h. R$ 10,00, R$ 15,00(estudantes), R$ 20,00 e R$ 30,00. Teatro do Sesc Vila Mariana.Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000. Até domingo

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