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Carrapicho lança álbum com a linguagem de seu bandolim poliglota

Músico de Araraquara, Cleber Rangel está hoje entre os mais promissores de seu instrumento; 'Na Estrada da Luz' é seu terceiro disco

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

25 de dezembro de 2018 | 03h00

A cena toda se deu em uma ligação, e foi o que valeu por todos os feitos de Cleber Rangel até então. Ele ligou para o também bandolinista Hamilton de Holanda, um mestre a distância, e se apresentou: “Meu caro, eu sou Cleber, de Araraquara. Queria saber se você dá aulas de bandolim e quais instrumentos gosta de usar.” Hamilton havia acabado de chegar de uma turnê, estava exausto. "Rapaz, não consigo dar aulas neste momento, infelizmente. Mas posso te indicar um cara muito bom aí de Araraquara. Se chama Carrapicho.” Pronto, foi como receber um Grammy. “Então Hamilton, sou eu mesmo esse cara, Carrapicho Rangel.” A partir dali, a conversa ganhou outro rumo.

Cleber ‘Carrapicho’ Rangel é um bandolinista de 36 anos que confirma algumas previsões. 1.) Hamilton de Holanda se tornou, de fato, uma escola em seu instrumento. Sua linguagem abrangente tem empolgado toda uma nova geração. 2.) O bandolim – tanto o tradicional de oito cordas quanto o de dez cordas – deixou de atuar exclusivamente no choro e no samba para se espalhar por mundos antes improváveis (jazz, frevo, valsa, música instrumental). 3.) Jamais subestime um homem que chega no samba calado com um instrumento nas mãos. Ele tem tudo para ser o ápice da noite.

Carrapicho Rangel chegou ao Vila do Samba, casa de bons partidos-altos da Casa Verde, em São Paulo, trazendo seu instrumento em um case. Educado e tímido, cumprimentou uma ou duas pessoas e ficou na roda aceitando copos de cerveja como se esperasse sua vez. Serginho Madureira, sambista rei da noite há anos, chamou Carrapicho com honras de lenda e lá ele foi, sacando seu bandolim como um integrante da Máfia. Subiu ao palco, se posicionou ao lado do grupo e engoliu a noite, tocando choros e sambas com uma entrega de arrebatar.

Ao voltar pra roda, seu brilho era outro. O repórter se apresentou e ele sacou um CD do bolso de trás da calça (sim, cabia). “Acabei de lançar.” A vida e suas surpresas. Carrapicho Rangel tem esse apelido colocado pelo pai sambista, presidente de uma escola de samba de Araraquara, no menino que não saía da barra boca de sino de sua calça – os outros dois filhos não foram poupados: Formigão e Pé de Chumbo. O álbum que lança agora é seu terceiro, uma pérola de composições vibrantes e uma execução primorosa e cheia de brilho. Seus ataques nas dez cordas são vigorosos e sua fluência nas frases ágeis impressiona.

Harmonizador, improvisador e frasista de ocupar quase todas as pausas, é também um compositor de referências apuradas. Os oito temas que fez para o álbum batizado de Na Estrada da Luz são banhados em muitas águas. O jazz faz vibrar Ballet do Amor, que ele fez pra filha; o samba delicioso Pro Pai é para o próprio; Código Ternário (que traz o nome de seu grupo com o qual já fez dois outros discos) vem em compasso sete por oito (resumindo, uma encrenca); e Dentro do Recife é um frevo feito em uma tarde de inspiração no Marco Zero. O choro aparece mais em Quebradinho, de Fabiano Marchesini; Primavera de Medellín foi feito em passagem pela cidade; Partindo Pro Alto, outro samba, é do parceiro André Grella; e Brisa é de Paulo Almeida. 

O som de Carrapicho, nesta formação, é também moldado pela elegância de quem o acompanha, o trio de Paulo Almeida (bateria), André Grella (piano) e Fi Maróstica (baixo). Além de seus trabalhos instrumentais, ele tem ainda um show rodando com a cantora da Lapa carioca, a também arrebatadora Ana Costa (os dois lançaram um disco no ano passado), e shows com San, que fez parte do grupo Sambô. Está agendada para 2019 uma turnê latino-americana e, em março, shows em São Paulo para lançar o álbum novo.

Saber um pouco mais do barro de que é feito ajuda a entender sua sonoridade. Carrapicho Rangel estudou no Conservatório de Tatuí, de onde saiu com uma bela bagagem de choro tradicional e de heranças de Jacob do Bandolim. Mas teve aulas também com André Marques, pianista de Hermeto Pascoal, o que sempre faz as ideias expandirem mais. Ouviu muito Hamilton de Holanda e caiu no mundo, embora não tenha deixado de viver em Araraquara, onde tem família, filha e uma escola de música.

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