Divulgação
Divulgação

Carmen: história de vida

Roberto Lage dirige nova produção da criação de Bizet no Teatro São Pedro

João Luiz Sampaio,

30 de março de 2011 | 06h00

Na praça em frente da fábrica de cigarros, a multidão abre espaço para uma mulher de olhar penetrante; sensual, ela se deixa observar enquanto canta sua ideia de amor, "livre como um pássaro rebelde". A cena já se repetiu milhares de vezes desde que a ópera Carmen, de Bizet, subiu ao palco pela primeira vez, na Paris de 1875 - mas mantém seu encanto e hoje abre a temporada do Teatro São Pedro em uma produção do encenador Roberto Lage, com direção musical de Emiliano Patarra.

 

Bizet inspirou-se no romance de Prosper Merimeé para escrever a tragédia de Carmen, cigana que, após uma tumultuada relação com o soldado Don José, é morta por ele, em uma das cenas de "discussão de relação" mais famosas de todo o repertório. Em jogo, estão diversos temas caros à cultura ocidental - o ciúme, a paixão que destrói, a liberação sexual em oposição à moral cristã e, acima de tudo, o amor que leva à morte. Para Lage, no entanto, isso tudo é apenas pano de fundo para uma história que, no fim das contas, fala de vida. "Carmen é uma mulher cheia de vida", diz o diretor.

 

"Tudo o que acontece com a personagem vem do fato de ela ser uma mulher que optou por viver da maneira mais plena possível, correndo riscos, se expondo."

 

Esse é o foco da produção que, no mais, diz Lage, tenta reforçar a "latinidade" da história. "O espetáculo é solar, fala de vida, apostei muito nisso. Não fiquei preocupado em encontrar mensagens ou significados específicos por trás da história, busquei apenas narrá-la." Para o diretor, o foco foi a "acessibilidade", que ele define como a tentativa de contar o enredo de forma a atingir todos os públicos, sem perverter o que chama de "gramática" específica do mundo da ópera. "Fui comportado", brinca. "O palco do São Pedro não é grande e foi preciso pensar em uma maneira especial de ocupá-lo com solistas e membros do coro", diz.

 

A mão do diretor de teatro, no entanto, é sentida no trabalho com os cantores, em especial nos diálogos falados, que foram traduzidos para o português. "O cantor lírico está acostumado com o canto, mas o diálogo falado exige um trabalho diferente, um outro tipo de voz. E tentamos refinar justamente isso, dar naturalidade, espontaneidade aos diálogos."

 

Protagonistas. Dois elencos vão se revezar no palco. Hoje, sexta e domingo, a meio-soprano Luciana Bueno volta a interpretar Carmen, ao lado do tenor Rubens Medina (Don José), da soprano Edna D’Oliveira (Micaela) e do barítono Rodrigo Esteves (Escamillo); amanhã e sábado, sobem ao palco a meio-soprano Adriana Clis (Carmen), o tenor Miguel Geraldi (Don José), a soprano Flávia Fernandes (Micaela) e o barítono Homero Velho (Escamillo).

 

Dos dois elencos, participam a soprano Elisabete Almeida (Frasquita), a meio-soprano Lídia Schaeffer (Mercedes), o tenor Eduardo Góes (Remendado), o barítono Vinicius Atique (Dancairo) e os baixos Eduardo Janho-Abumrad (Zuniga) e Johnny França (Morales). Emiliano Patarra, que comanda a Sinfônica do Teatro São Pedro, fala do papel da orquestra na ópera - e do desafio que ele acarreta. "A orquestra, aqui, muitas vezes assume o papel de protagonista", explica.

 

Depois de Carmen, a temporada do São Pedro continua, em maio com A Viúva Alegre, de Lehár. Em agosto, o maestro Luis Gustavo Petri comanda uma nova produção de Romeu e Julieta, com o tenor Fernando Portari e a soprano Rosana Lamosa no elenco. Don Pasquale, sucesso da temporada do ano passado, volta à cena em setembro. E, em outubro, uma nova produção do Guarani, de Carlos Gomes, encerra a temporada, regida pelo maestro Roberto Duarte, diretor artístico do teatro. "Os títulos que escolhemos foram pensados para compor o repertório da nossa orquestra. A ideia é ter uma série de montagens que possam servir de base para que diversas linguagens artísticas sejam mescladas num futuro próximo", esclarece ele.

 

 

 

CARMEN

Teatro São Pedro. Rua Barra Funda, 171, telefone 3667-0499. 4ª a 6ª, às 20h30; sáb. e dom., às 17 h. R$ 30. Até 3/4.

 

 

QUEM É: ROBERTO LAGE, DIRETOR

Iniciou a vida artística como ator antes de, nos anos 60, passar a se dedicar exclusivamente à direção. Venceu prêmios como Molière e APCA. Nos anos 90, fundou com Celso Frateschi, o grupo Ágora.

Tudo o que sabemos sobre:
'Carmen'

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.