Carlinhos Brown, o cacique do Candeal volta à tribo

Cantor divulga 5.º CD e diz que 'não importa o resultado, sou uma pessoa de coragem para mostrar esse trabalho'

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

23 Janeiro 2008 | 18h37

O público que lotou o Museu du Ritmo domingo passado, com a expectativa de ver os Tribalistas pela primeira vez juntos no palco, não era o que costuma freqüentar os saraus que Carlinhos Brown vem fazendo ali desde o verão passado. O rápido encontro deixou muita gente decepcionada, mas serviu para despertar a atenção, principalmente de turistas fãs de Marisa, sobre a recuperação de Brown em terras brasileiras. Seu quinto CD-solo, A Gente Ainda Não Sonhou, saiu no Brasil no fim do ano passado pela Som Livre e vem suprir uma necessidade urgente do cacique do Candeal. "Eu queria, precisava merecer lançar um disco no Brasil, não importa o resultado, sou uma pessoa de coragem para apresentar esse trabalho. Quero chegar a algum lugar, quero aprender e continuo querendo", diz Brown.   Veja também: Ouça trecho da faixa 'Marina dos Mares', de Carlinhos Brown    Depois do boom com a Timbalada nos anos 90, quando lançou os álbuns mais elaborados - Alfagamabetizado (1996) e Omelete Man (1998) - e fez ou participou de canções impactantes como Seo Zé, Magalenha, E.C.T., Segue o Seco e Uma Brasileira, Brown se retirou da cena brasileira, sendo esporadicamente lembrado no calor dos fevereiros. Continuou a fornecer canções para Daniela Mercury, Maria Bethânia, Bebel Gilberto e Marisa Monte, entre outros, mas deu mais as caras na Europa, especialmente na Espanha, onde foi fazer carnaval de sucesso e tem contrato assinado com a gravadora Sony/BMG. O novo CD saiu lá primeiro por causa disso. "A Gente Ainda Não Sonhou pode ser tudo, mas pra mim se torna uma obra muito verdadeira, porque me liberta da ansiedade de precisar vender um milhão de discos. Disco não vende mais, enquanto a música está ligada ao puro, ao que sempre gostei de fazer", observa.   Ter o CD lançado aqui pode possibilitar que ele volte a fazer shows, fora do esquema de carnaval. "Gostaria que fossem em teatros", diz ele, que arrastou multidões em Barcelona, Madri, Valência, Sevilha e Bilbao em 2005, em projetos ligados a empresas de telefonia e água tônica. "Em Madri tinha um cartaz com uma foto minha tomando oito andares de um prédio. Nunca vi meu nariz tão grande", ironiza. "Fui bem pago e tratado com respeito."   A cada cidade espanhola em que passava, o público crescia. "Isso fez com que os príncipes de Astúrias viessem aqui no Candeal e me ajudassem a construir uma das últimas coisas que me faltavam como ferramenta de educação. Era a escola maternal, que está funcionando a todo vapor, para 280 crianças." O trabalho social de Brown acabou virando tema do documentário O Milagre do Candeal, do diretor espanhol Fernando Trueba e Brown foi premiado pela trilha sonora. "E também foi importante porque encontrei meu mestre em cubanismo, Bebo Valdés." Brown diz que já conhecia a música do pianista cubano por meio de discos e quando o encontrou, surpreendeu Bebo ao cantarolar alguns de seus temas antigos, conta o cantor.   Resumo do enredo: Brown nasceu no bairro do Candeal, onde seu mestre Pintado do Bongô tinha uma banda chamada Cubajazz. Por sua influência conheceu a música cubana e caribenha, e depois o jazz de Charlie Parker e Herbie Hancock, a partir da fase em que Dizzy Gillespie foi para Cuba. "Houve um traço, uma história que é caribenha, mas é um Caribe que sopra em New Orleans e dá essa brisa aqui na Bahia", exemplifica. Essa "brisa" bate um pouco no novo CD, em faixas como Pedindo pra Voltar (dele e Alain Tavares) e Marina dos Mares (parceria com Géo Benjamin em homenagem a Dorival Caymmi). Entre os produtores do álbum está Alê Siqueira, que tem trabalhos assinados com as cantoras cubanas Omara Portuondo e Yusa. "Este é um efeito Carlito Marrón", diz Brown, referindo-se ao título de seu álbum de 2003.   O disco também tem cordas de Jaques Morelenbaum e baladas que puxam para o soul de Cassiano, um contraponto à veia timbaleira de Brown. Ele também voltou a gravar com o Mar Revolto (Marina dos Mares), que se reencontrou no palco alternativo do Festival de Verão de 2007. "É importante retomar essa história, porque o Mar Revolto é o primeiro grupo que eu tive. Estamos fazendo coisas em estúdio e qualquer hora vai sair um disco, sem pressa", diz.   No domingo, ele cantou em primeira mão uma canção em homenagem a Iemanjá (Odoiara), um ensaio para a festa que vai realizar na festa de 2 de fevereiro, dia da rainha do mar, no Rio Vermelho. Ele é o curador-geral da festa, que este ano cai no sábado de carnaval, território onde ele ainda reina.   A figura de Brown pode ter perdido força na mídia, mas está no cerne da folia baiana. Os maiores sucessos dos últimos anos são dele: Maimbê Daindá (gravada por Daniela Mercury), Dandalunda (por Margareth Menezes) são as mais evidentes. Te Amo Família, do novo álbum de Brown, tocou bastante no carnaval passado. Para este, já emplacou a nova O Melhor de Nós Dois e Onorimbá, interpretada pelo Araketu, seu presente para a nova vocalista da banda, Larissa Luz. A sonoridade do novo CD parece mais afeita aos ouvidos internacionais. Ele diz que não tem dimensão da coisa por aí. Numa autodefinição concisa, diz: "Carlinhos Brown, mais do que língua é linguagem.".

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