Carlinhos Brown fala sobre "timbalismo"

Durante uma recente entrevista coletiva, Carlinhos Brown contou uma história estranha envolvendo Nostradamus, Gilberto Gil e Rod Stewart. Sinais de interrogação pairaram no ar. Mas, terminado o encontro com os colegas da imprensa, a reportagem não se deu por satisfeita e falou com exclusividade com o cantor e compositor sobre temas que vão desde profecias aos conceitos do "timbalismo". Eis aqui alguns trechos de uma longa conversa.Agência Estado - Que história era aquela de uma jam session que reuniria Gilberto Gil e Rod Stewart durante o primeiro Rock in Rio? Onde Nostradamus entra nessa?Carlinhos Brown - Fui fazer o show como percussionista do Gilberto Gil, tinha o grupo chamado Vai quem Vem, um trabalho novíssimo estruturado também por Gil, e aconteceu alguma coisa estranha. No festival estavam Rod Stewart e Lisa Stansfield, e tudo tinha muito a ver com a premonição do Nostradamus que dizia que uma imensa reunião de pessoas como aquela iria provocar uma catástrofe. A jam session não aconteceu e eu acho que uma tragédia foi evitada.Nossa! Mas chegou a ter algum show desse grupo?Sim, nos apresentamos depois em Porto Seguro, onde o Brasil foi descoberto e foi inesquecível. A massa sonora do grupo era muito poderosa.Como foi a sua transição de instrumentista, que na maioria das vezes está em segundo plano, para o foco das atenções? Foi um processo bastante gradual, não?É mesmo. Na minha carreira sempre dei tempo ao tempo como se estivesse na escola. Aprendi muito com os artistas com os quais toquei. O ambiente das turnês, das gravações e o relacionamento com a produção. Muitas vezes eu via os artistas não ganharem nada, mas nunca deixaram de pagar os músicos. Tudo isso eu tinha de aprender, pois não é o fato de estar na frente, mas sim a responsabilidade de estar na frente.A responsabilidade da liderança?Nunca me vi como líder de nada, mas aprendi como lidar com essa situação de estar no foco da atenção. Nesse sentido, minha universidade foi Caetano (Veloso). Houve época que eu toquei com os grandes da MPB. Fiz turnê com Djavan, João Bosco, João Gilberto e Caetano juntos, gravei no estúdio com Gal Costa, gravei com (Maria) Bethânia. Fora isso, fazia coisas com Elba (Ramalho). Atendia vários artistas como percussionista e, depois, como compositor. Na Bahia já tinha uma sucessão de hits locais e as coisas foram se estruturando até chegarem ao que se ouviu no Brasil inteiro depois.Você está falando sobre a massificação da axé music?Eu denomino o movimento musical que você chama de axé music como "timbalismo". O "timbalismo" vai além de definições e tem uma função social, tem texto, tem discurso. Ele reverencia os outros movimentos acontecidos no Brasil e não surge para se contrapor a nenhum deles, mas, sim, reafirmá-los. O "timbalismo" reverencia o tropicalismo, o Clube da Esquina, a jovem guarda. Mas não é um movimento limitado à Bahia, ele se agrega também a elementos de fora do Brasil. Por isso, Marisa Monte é "timbalismo", Nando Reis é "timbalismo". O "timbalismo" apareceu como o que deixou de ser o rock nacional, que eu nunca vi como identidade brasileira, eu o via como uma busca do Brasil. Por outro lado, o Brasil continua buscando e o importante é exatamente o não ser.Qual é a função social do "timbalismo"?É o trabalho de 18 anos junto às camadas sociais menos privilegiadas da Bahia. As pessoas dizem que hoje está na moda a preocupação com o social e eu digo que é mais do que tardio o artista tomar essa posição. Somos a antítese da felicidade ilhada daqueles que têm muito e não dividem nada. Eu não sou artista para ter carrão, mansões ou mulher bonita, eu tenho responsabilidades. Sociais inclusive.

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