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Carl Palmer, o pintor das baquetas

Bateirista do lendário Emerson Lake & Palmer fala sobre shows que fará no Brasil em janeiro

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

22 de dezembro de 2013 | 11h00

Em 1977, o grupo de rock progressivo Emerson Lake & Palmer estava no seu auge e excursionava com 63 roadies (ajudantes de palco) e um instrutor de caratê exclusivo para seu baterista, Carl Palmer. Exagero?

Bom, só haveria um baterista no mundo do rock progressivo capaz de desfrutar de tal prestígio: Neil Peart, da banda canadense Rush. A comparação entre os dois seria como comparar Pelé e Maradona. Quem seria o melhor? "Não faço a menor ideia. Estou com 64 anos, você sabe o que nós fizemos, você sabe o tipo de música que eu faço. Não considero que tenha mais nada para provar, não estou disposto a discutir essa coisa de quem é o melhor baterista. Se ligou para falar do meu show, o que vou tocar, estou bastante disposto", disse o carrancudo britânico Carl Palmer.

Passado o primeiro "pedala robinho"de Palmer, o homem de Birmingham se mostrou um pouco mais afável. "Eu já toquei com o maior tecladista de todos, mas hoje em dia eu não tenho mais tecladista. Somos uma banda de prog rock metal instrumental. Vamos com Paul Bielatowicz na guitarra e Simon Fitzpatrick no baixo. Sem tecladistas, sem cantores, sem macacos, sem elefantes", afirmou Palmer, sempre em seu estilo de franqueza absoluta. "Toquei umas oito ou nove vezes no Rio de Janeiro, sempre foi muito legal. Não me lembro dos lugares nos quais tocamos, porque é sempre muito rápido, mas sempre foi muito bacana."

O famoso grupo de Palmer, o Emerson, Lake & Palmer (ELP), esteve no País em 1997, quando tocaram no antigo Olympia. Dez anos depois, ele voltaria com o Asia, igualmente pouco disposto a jogar conversa fora. Mas o que o torna relevante historicamente é seu papel no trio fundamental do gênero progressivo, o ELP, do qual ele leva adiante o legado. Por conta daquela época, ele foi incluído no Top 10 dos maiores bateristas de todos os tempos pela revista Rolling Stone, ao lado de gigantes como Jason Bonham, Keith Moon e... Neil Peart.

Profissional desde os 14 anos, Carl Palmer também foi incluído no Hall of Fame da revista Modern Drummer. Continua furiosamente em atividade: no início desse ano, ele chegou a fazer 33 shows em 46 dias, em locais que incluíam Canadá, Estados Unidos e Argentina, um milagre em termos de logística. "Eu não sei dizer qual é o significado do rock progressivo para mim hoje. Eu já não sabia quando comecei, nos anos 1970. Tudo que eu posso dizer daquele tempo é que era o meu modo de vida, e continua sendo. É a minha forma de existência", afirma o músico.

Além de ELP e Asia, o baterista ainda integrou outras formações, como Atomic Rooster e The Crazy World of Arthur Brown. Carl Frederick Kendall Palmer nasceu em Birmingham, Inglaterra, em 20 de maio de 1950, em uma família de músicos: o avô tocava bateria, a avó era violinista de uma orquestra sinfônica, a mãe era multi-instrumentista e o pai era cantor e guitarrista. Inicialmente, ele começou a tocar o violino, migrando depois para a bateria.

"Minhas maiores influências foram sempre os bateristas americanos, especialmente Gene Krupa", afirma. Krupa (1909-1973) continua sendo influência até hoje. Em 1970, ele conheceu o tecladista Keith Emerson o chamou para se juntar a Greg Lake (que fundara o King Crimson) numa nova aventura musical.

É possível conhecer apresentações antológicas do baterista no ELP em álbuns como Live at the Royal Albert Hall, gravado em Londres em outubro de 1992. Keith Emerson, Greg Lake e Carl Palmer fizeram realmente um show convincente naquelas circunstâncias. Tocaram sua versão popular progressiva para Romeu e Julieta, de Prokofiev, que hoje soaria bem para receber noiva em bufê. E também Creole Dance, de Alberto Ginastera, além de Fanfare for the Common Man, de Copland, e América, de Bernstein e Steve Sondheim.

Palmer conta que deve tocar os clássicos do ELP na Mostra Internacional de Rock Progressivo, que acontece entre os dias 10 de janeiro e 1.º de fevereiro, na Tenda CCBB na Praça dos Correios, no Rio. Além do baterista inglês, outra atração é a banda italiana PFM (Premiata Forneria Marconi), além de destaques do rock progressivo brasileiro.

"Vamos tocar clássicos como Welcome Back my Friends, a versão completa de Tarkus, uma versão de Knife-Edge, do nosso primeiro disco, e também composições de Copland e Mussorgsky", conta. O compositor, escritor e maestro norte-americano Aaron Copland (1990-1990) foi revisitado constantemente pelo grupo, que também gravou Hoedown. Já o russo Modest Petrovich Mussorgsky (1839-1881) foi um inovador do período do romantismo.

Como Ron Wood, Kim Gordon e Tony Bennett, Carl Palmer também é um pintor amador, só que numa seara bem diferente. Ele usa as próprias baquetas como pincéis. "Pinto com o uso da tecnologia, com câmeras embutidas nas baquetas, LED drumsticks, e computadores para capturar momentos de minhas performances. Em seguida, transfiro isso para a tela. E transformo isso numa forma de traduzir visualmente o meu jeito de tocar a bateria", explicou.

O processo, que ele batizou de Twist of the Wrist, resultou em cerca de 200 versões diferentes de 11 pinturas, que o baterista pretende expor nos Estados Unidos ainda este ano como uma retrospectiva, e que também são vendidas - ele revelou que já vendeu cerca de 25% de tudo que produziu. O preço é expressivo: entre US$ 300 e US$ 2 mil.

Palmer conta que deve voltar a excursionar com seu segundo grupo mais famoso, o Asia, talvez ainda em 2014. Conta que a banda, com a qual tocou por décadas de forma esparsa, está se preparando para fazer uma turnê em junho, com shows marcados na Suécia, Holanda e Alemanha.Ah, e quanto à história dos 63 roadies e um instrutor de caratê? "Ah, eu também já ouvi muito essa história. Isso é bullshit!", finalizou Palmer.

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