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Carícia nas sombras

Robert Smith fala sobre a volta do Cure à América do Sul após 17 anos do último show

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2013 | 22h00

SÃO PAULO - A figura descabelada, os olhos escurecidos como um dálmata e a boca sempre vermelha do britânico Robert Smith são como a chave para um universo paralelo da cultura pop. Um mundo de introspecção, amistosamente sombrio, que se recicla continuamente. Smith, que completa 54 anos no dia 21 de abril, foi a inspiração do personagem Edward Mãos de Tesoura e suas canções emolduram filmes como Alice no País das Maravilhas e Frankenweenie.

Cerca de 37 anos de carreira, muitos milhões de discos vendidos, e The Cure, a banda que Smith inventou em 1976, ainda mobiliza multidões. Os 40 mil ingressos de seu show no Anhembi, no dia 6, já estão quase esgotados - a organização informou que falta pouco. Passados 17 anos de sua última turnê por aqui, o grupo volta para um giro que inclui Paraguai, Peru, Colômbia, México, Chile, Argentina e nosotros.

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Smith conversou com o Estado por telefone, na quinta-feira à tarde. Antiestrela por excelência, estava com a voz tinindo e com um bom humor à toda prova, notícias auspiciosas para os fãs de todo o continente.

Desde 1976, quando vocês surgiram, o mundo viu aparecer o hip-hop, a dance music, as trocas de música na internet. Como você vê esse admirável mundo novo cultural?

Não estou certo se houve uma revolução musical ou cultural nas últimas décadas. Muitas coisas nos deixaram esperançosos, mas acho que o punk rock, em 1977, foi a última grande revolução que presenciamos. O rock continua grande, continua criando suas diferenças, bandas novas. Eu ouço o que fazem, vejo que há uma produção diversificada, há artistas interessantes. Eu odeio modas, odeio movimentos, não significam nada para mim. Não subscrevo nenhum deles. Não fui condicionado a reagir a essas coisas. Acho que, a todo momento, em todo lugar do mundo, há coisas sendo feitas e seu impacto é importante, sendo globalizado ou não. Se você tem uma banda que lhe permite rodar o mundo, vai ver que as pessoas se divertem, que tudo que veem ou ouvem as afetam de forma diferente em cada lugar.

Você sempre parece muito ligado em um tipo de poesia mínima, de versos precisos. Que tipo de autores literários você lia quando começou sua carreira?

Sempre atentei mais para o som da palavra como linguagem do que propriamente para a construção de uma poesia. Sempre atentei mais para a composição do que a um poeta determinado. Quando eu era mais jovem, alguns autores me impressionaram, como John Milton. Eu entendi quão crítica era sua obra literária em relação ao mundo. Mas eu estava à procura de uma linguagem, tive de começar a achar meu próprio universo.

Hoje em dia, muita gente se declara discípula do Cure, gente como Brian Molko, do Placebo; como Brandon Flowers, do Killers; e até mesmo como a atriz Scarlett Johansson, que gravou Boys Don’t Cry.

(Risos) Eu colaborei com muita gente. Com o Crystal Castles, por exemplo. Sempre busquei experiências diferentes. É muito legal, porque algumas bandas se tornaram sucesso, e é inesperado para mim. Porque a gente nunca quis se tornar mainstream. São apenas boas canções, genuínas, e se tocam alguém, se tocam os mais jovens, é porque carregam algo de íntegro. É difícil dizer qual deles é mais próximo para mim, porque eu me divirto ouvindo muitos deles. Não são classificáveis, cada um tem seu entendimento do som do Cure.

David Bowie está de volta após um silêncio de 10 anos. Você vem ao Brasil com Reeves Gabrels, lendário guitarrista que costumava tocar com Bowie.

Acho que Bowie não manteve silêncio por opção, mas também porque não estava muito bem de saúde. É uma excelente pessoa. Eu conheci Reeves por intermédio de Bowie, quando gravamos três canções e tocamos juntos, no final dos anos 1990. Ele fez um disco fundamental, Low, que considero um dos maiores do pop. É muito legal que ele tenha voltado e continue tocando. Mas eu não tomei o guitarrista dele, até porque Reeves é dono do seu nariz. Eles tinham se separado há muitos anos por conta de um desentendimento. Eu o convidei para tocarmos no último verão e ele continua conosco por mais um tempo.

Seu disco mais recente lançado aqui foi 4:13 Dream, de 2008. Você já trabalha em um novo material?

Há algumas canções novas que gravamos recentemente para um novo disco. É uma situação meio estranha, porque não sinto ainda necessidade disso. Estamos indo a lugares onde nunca estivemos antes, e no momento eu prefiro ir a esses lugares, conhecer esses públicos, manter esse contato. Isso também é uma atividade de criação, é a renovação de nossas motivações. Mas, em algum momento no futuro, lançaremos esse novo trabalho.

Como você escolheu os lugares aqui da América do Sul por onde a sua turnê vai passar?

Em 2007, estava tudo certo para uma turnê por aí, mas aí aconteceram algumas coisas, houve uma turbulência econômica, e não pudemos fazer a turnê. Você sabe, nós dependemos da vontade dos promotores, da organização. Passamos três anos conversando e pensando: se houver nova chance, porque não ampliar a turnê, fazer mais cidades? Foi um tempo suficiente para que fossem criadas as condições para a mais ampla turnê possível. Temos sorte de estarmos em forma e de podermos ir a todos esses lugares. Vamos tocar tudo, serão cerca de três horas de show em cada País.

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