Carlos Cruz
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Car Seat Headrest experimenta territórios eletrônicos em novo disco

‘Making a Door Less Open’ vê a banda millenial e roqueira enveredar pelo EDM, numa tentativa de trazer o gênero para o indie

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2020 | 05h00

Quatro anos depois que Teens of Denial, disco da banda americana Car Seat Headrest, cravou o grupo de nome estranho no cenário do indie rock global, está disponível agora um novo trabalho inédito: Making a Door Less Open, lançado agora em maio, transporta a banda para novos caminhos, investidos de camadas eletrônicas e surpreendentes, do tipo que causam estranhamento, reclamações e incompreensão, mas numa clara tentativa de expandir seus próprios horizontes. Movimento típico dos grandes artistas.

Em 2016, o Car Seat lançou seu primeiro disco inédito com uma gravadora, a Matador (uma das principais casas dos indies americanos), e ocupou o topo de diversas listas de melhores do ano com um som lo-fi (como se fosse de baixa qualidade, obtido com métodos de gravação e produção típicos do gênero) e letras densas que captavam como ninguém o Zeitgeist da época. O disco se tornou uma espécie de estandarte indie dos cada vez mais raros millenials roqueiros.

O nome estranho da banda é uma referência ao assento do carro em que Will Toledo, vocalista e compositor, se sentava para buscar inspiração para suas criações. Mas ainda antes disso, desde 2010, o jovem músico (hoje com 27 anos) já divulgava em plataformas online uma produção profícua distribuída em uma dúzia de discos que foram construindo seu estilo e lhe rendendo reputação, principalmente nos fóruns especializados na web.

Dois anos depois, em 2018, a banda lançou Twin Fantasy (Face to Face), remake de um álbum de 2011, que novamente ganhou elogio crítico e de público.

Making a Door Less Open, entretanto, é o primeiro trabalho inédito depois do sucesso de Teens of Denial, e o novo álbum é uma clara opção do grupo por explorar caminhos diferentes, agora, de maneira surpreendente, ligados ao EDM (Eletronic Dance Music).

A associação é estranha porque o EDM e o Car Seat Headrest ocupam dois mundos diferentes na galáxia da música, mas o desafio a que a banda se propõe é justamente se apropriar das texturas desse subgênero da música eletrônica derivado do house, frequentemente criticado por servir a um único propósito: o de ser extremamente popular a qualquer custo, um produto de fácil digestão, digamos assim.

A aproximação da banda com o EDM começou com Andrew Katz, o também muito jovem baterista do grupo, que viu sua presença crescer a ponto de formar com Toledo um projeto paralelo de música eletrônica, o 1Trait – espécie de comediante amador, além de talentoso percussionista, Katz traz o elemento do humor para todas suas empreitadas, basta checar o Instagram do grupo. 

Mas em Making a Door Less Open (em que Katz divide a produção com Toledo) o grupo retoma os temas sérios pelo qual ficou conhecido entre 2015 e 2016, acrescentando novos pensamentos que chegam com a idade (mesmo que pouca): como lidar com seu próprio corpo no mundo, ansiedade, certo senso de deslocamento permanente, certo otimismo. As letras metrificadas que buscavam se encaixar na tradição de Bob Dylan aqui, porém, dão lugar às explorações musicais e formais que procuram se expressar manipulando, justamente, aquela forma comercial do EDM.

“Para mim”, explica Will Toledo por ligação de Whatsapp, confinado em Seattle, “se arriscar é parte de cada disco”. “Ainda é uma ideia estranha se dirigir a uma audiência, de qualquer tamanho, sempre tentei fazer música que me agradasse como ouvinte. Todo artista que eu respeito faz coisas diferentes e oferece o novo a cada trabalho, e nesse momento é o que aparece para mim como uma necessidade”.

Para o compositor e letrista – cuja ideia de colocar uma máscara na face para o material de divulgação parece agora algo tristemente datado – esse é um disco sobre amadurecimento. “Em termos de como isso afeta a música em si, penso que tento apenas aprender mais dia a dia. Focar no que estou fazendo. Espero que isso não tenha nada a ver com ficar melhor.”

Mesmo operando com outras ferramentas (as guitarras pesam bem menos do que em Teens of Denial), o disco carrega um tom ao mesmo tempo cético e otimista que já aparecia nos trabalhos anteriores. “Não estava otimista sobre as circunstâncias gerais, os anos Trump não foram bons, mas eu estava otimista sobre a música em si, ela nunca me pareceu ruim, sempre gostei das ideias que apareceram”, esclarece Toledo. “O álbum reflete o jeito que o mundo era antes desse ano. É uma cápsula do tempo, como a música pode ser.”

A crítica de língua inglesa recebeu o disco com incrível má vontade. No Guardian, a mudança de rumo foi comparada àquela tomada por Paramore e Tame Impala (como se a mistura de rock e eletrônica tivesse sido inventada em 2011). A Pitchfork diz que Toledo traiu seu próprio mantra de “se comprometer completamente” a um projeto. A Paste Magazine aponta que esse é o primeiro erro da carreira de um dos “compositores mais talentosos” do indie rock. O célebre crítico e youtuber e comentador notável dos trabalhos anteriores da banda, Anthony Fantano, deu uma nota 5 para o disco e execrou uma das faixas, Hollywood.

Na canção, Katz assume também os vocais para dizer numa espécie de grito modulado em computador: “Hollywood me faz querer vomitar”. Tudo isso envolto por uma sonoridade punk sem medo de soar datada, segundo Toledo. “Apenas depende de como as pessoas fazem (esse tipo de som). Hoje em dia, também em outras bandas, é mais sobre a energia do que sobre o jeito de se vestir, por exemplo. As ferramentas no estúdio estão mais desenvolvidas e acessíveis agora, e se o músico não se importar com isso pode soar datado, sim. Mas eu vejo esse disco com uma ‘energia punk’, que tenta encontrar vozes e conexões imediatas, e elas são apresentadas em diferentes formatos.”

Evitando lugares-comuns de colegas de geração menos talentosos, Toledo procura dar importância à história do rock ‘n’ roll, gênero que sempre lhe serviu de ponto de partida. “Eu me importo sim, do jeito que me importo com qualquer história. Quanto mais se sabe sobre o passado, melhor se entende o lugar que você ocupa.”

No mínimo, Making a Door Less Open abre um interessante caminho de exploração para um jovem artista que já não precisa provar seu valor. Em seus melhores momentos, o álbum tem uma visão atenta para o passado, amplamente calcada no presente, e buscando, enfim, enxergar o que pode ser o futuro.

Ouça canções de Making a Door Less Open:

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