Capital Inicial tenta repetir a dose

Talvez tenha sido o maior teste pelo qual alguma banda nacional já passou. Depois de ressurgir após anos de ostracismo com o estrondoso sucesso do CD Acústico MTV, o Capital Inicial se enfurnou em um estúdio em São Paulo para gravar o 11.º álbum da carreira. Enquanto isso, críticos de música, detratores do grupo e até alguns fãs já pensavam em todas as críticas possíveis e imagináveis para rechaçar a nova tentativa do vocalista Dinho Ouro Preto e seus companheiros. Mas isso acabou não se confirmando. O disco Rosas e Vinho Tinto mostra que o Capital Inicial não se vendeu às modinhas passageiras ou a fórmulas infalíveis para garantir milhões de cópias vendidas. Ainda assim, os fãs não ficarão nem um pouco decepcionados com a nova empreitada. "A pressão apareceu por todos os lados. Sabíamos que as pessoas tinham muitas expectativas", conta Dinho Ouro Preto. "Acredito que o medo de todos era de que o acústico não virasse um divisor de águas para o grupo. E não virou mesmo. Falo para todo mundo que não esperem o mesmo sucesso. É quase impossível fazer músicas teleguiadas, fadadas a fazer sucesso e vender horrores." Para conseguir agradar a todos com o novo trabalho, o Capital ainda teve de lidar com um problema muito maior do que a pressão. Ao final de um show, o guitarrista Loro Jones, co-fundador da banda junto com Dinho e os irmãos Fê e Flávio Lemos, jogou a toalha e pediu as contas. "Ele disse que ficava muito tempo fora de casa, e pulou fora do grupo", explica Dinho. "Ainda esperamos até os 45 do segundo tempo para ver se ele voltava atrás em sua decisão. Para falar a verdade, nós só não ficamos desesperados porque havíamos passado anteriomente por alguns momentos muito piores." O Capital Inicial teve que trabalhar muito nos últimos anos. A mesma banda que atingiu altas vendagens nos anos 80 caiu em uma buraco que parecia não ter fim durante a década de 90. Depois de uma série de discos equivocados, Dinho se rebelou e brigou com os demais integrantes. Deixou o grupo e fez dois estragos: um em sua iniciante e sombria carreira solo, outro na já decadente carreira de sua ex-banda. O pretexto para um primeiro reencontro foi a comemoração dos 15 anos do Capital com alguns shows. O projeto foi bem mais além. Quatro anos depois, Dinho se transformou no maior - e talvez único - astro do rock nacional. "Passamos por todas as experiências, fomos para cima, para baixo e para os lados", brinca Dinho. "Não temos mais pânico de fracassar. Ressurgimos da lama, e sabemos que não dá para ir mais baixo. O que vier agora é lucro." Com essa mentalidade, o Capital convocou o guitarrista Yves Passarel, do Viper, para assumir a vaga deixada por Loro Jones. O segundo passo foi se desligar de tudo o que acontecia fora do estúdio para se concentrar no novo álbum. Produzido por Marcelo Sussekind, Rosas e Vinho Tinto reúne baladas difíceis de tirar da cabeça e alguns rocks básicos. Para falar a verdade, nada novo, mas também nada óbvio. Muitas similaridades com o Acústico podem ser notadas. Os violões voltam a aparecer em peso, bem como os lá-lá-lá-lás, ô- ô-ô-ôs e a temática jovem e inocente dos sucessos da década de 80. Até o compositor Kiko Zambianchi, outra que ressurgiu nos últimos tempos como participante do Acústico do Capital, volta em duas faixas. Mas também é preciso lembrar que essa é a linha que o Capital vem explorando desde sua volta às paradas com o álbum Atrás dos Olhos, de 98. Na verdade, o novo trabalho é cria direta desse álbum, e não do Acústico. "Estávamos no limite", diz Dinho. "Se fizéssemos um disco muito leve, estaríamos copiando o Acústico. Mas se também tivesse muita guitarra, alguém ia falar que a gente estava sendo pretensioso. Na verdade, continuamos sendo o Capital Inicial de sempre. Se você pegar os nossos últimos discos, até mesmo o Acústico, vai ver que existe uma linearidade, em elo entre eles, um som característico. Nunca forçamos a barra." Mas para os que consideram a música do Capital fossilizada, o vocalista reage. "Sempre quisemos reafirmar o rock brasileiro, e não reconsiderá-lo", explica. "Aliás, não quero que o Capital seja chamado de banda dos anos 80. Acho perigoso esta onda de nostalgia, como o RPM está planejando. É um tiro no pé. Quando voltamos, fizemos turnê, lançamos disco com inéditas, sempre olhamos para frente. E nunca nos expomos demais, até porque eu odeio esse mundinho Caras. Queremos ser uma band atual, não um museu que só vive do passado."

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