Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Capital Inicial retoma veia contestadora em disco que tem como ápice 'Saquear Brasília'

Quarteto lança 'Saturno', disco mais bem resolvido da banda nos últimos dez anos

Emanuel Bomfim, ESPECIAL PARA O 'ESTADO'

15 de dezembro de 2012 | 07h00

Dos quatro integrantes do Capital Inicial, o vocalista Dinho Ouro Preto é o último a chegar à entrevista, realizada na sede do Estado na última quinta, 13. Apesar da simpatia, não esconde curiosa aflição. Quer saber se o São Paulo, o time para qual torce, corre riscos de perder o título da Sul-Americana. “Nunca vi aquilo”, comenta sobre o abandono do adversário argentino no intervalo da partida. Logo, o assunto futebol é trocado pela política. Lembra e ri do senador José Sarney, que lhe me mandou uma longa carta que continha os dizeres “Ilustríssimo Artista” dias após Dinho ser ovacionado em discurso contra a censura no Rock in Rio. Mais tímidos, os companheiros de banda - os irmãos Fê (bateria) e Flávio Lemos (baixo) e o guitarrista Yves Passarell - acompanham atentamente a prosa, não negam fogo e dão pitacos valiosos. Os mais diversos temas prolongam a conversa, mas nenhum deles, nem mesmo o das fervorosas paixões futebolísticas, ganha tanto brilho nos olhos quanto Saturno, o mais novo álbum de estúdio do grupo. A empolgação com que falam não parece combinar com os quase trinta anos de estrada e 16 álbuns nas costas. Lembram rapazes que acabaram de gravar seu 1º trabalho.

“O espírito é o mesmo de quando você tinha 22 anos”, defende Yves. É na sua guitarra que as novas canções se mostram urgentes. O peso e a sujeira remontam os tempos de Aborto Elétrico, quando o punk rock em Brasília mobilizava futuros ídolos nacionais, como Renato Russo e o próprio Dinho. “Volta e meia eu acho que uma banda precisa ser sacudida. O risco é a autoindulgência ou a preguiça. Queríamos que soasse nervoso”, explica Dinho.

Nem precisa botar para tocar para perceber como o Capital está em ebulição. Os títulos já denunciam o teor da bronca: Saquear Brasília, Apocalipse Agora e A Valsa do Inferno. “Foi assim desde o começo. O engraçadinho nosso era: ‘quero soltar bomba no Congresso’. Sempre com ironia e sarcasmo”, comenta o baixista Flávio Lemos, ao valorizar a pegada engajada da banda nos primórdios, um contraponto à cena mais pop do período, protagonizada por grupos como a Blitz. Indignado, Dinho vê o cenário se remontar nos tempos atuais. “É incrível como o rock se afastou dos temas políticos e sociais. Quem pegou a bandeira é o hip hop. O rock não era alheio a isso. Qual é o motivo? Falta de inspiração?”, provoca o frontman.

De fato, Saturno é um alento para quem aprecia discursos mais engajados e menos românticos. É o disco mais bem resolvido do Capital Inicial nos últimos dez anos. Enquanto a maré oitentista indica o revisionismo, com shows voltados para relembrar os 30 anos de carreira, o quarteto liderado por Dinho tenta mais uma vez garantir vida longa no iPod da molecada. Poucas bandas conseguiram renovar seu público como eles. “Se você pegar o Ramones e o AC/DC, eles continuam tendo apelo para os adolescentes, mesmo que os mais velhos não os abandonem. Parte da resposta está em você se manter fiel às suas raízes, eu acredito. O rock é para garotada e deve ser mantido simples”, teoriza o vocalista. 

Simplicidade essa, segundo eles, que não deve ser confundida com a massificação de hits. A banda não espera emplacar nenhuma das novas faixas nas rádios FM. Com agenda cheia e contrato fixo com uma major (a Sony), fatos cada vez mais raros, eles se dão o direito de só atender as próprias expectativas, mesmo que não resultem em projeção e vendas volumosas. “Hoje, para tocar no rádio, você precisa fazer um míssel teleguiado. Precisa tirar todas as guitarras, reduzir o tamanho da música... Os limites estão cada vez mais estreitos”, afirma Dinho. “Precisa surgir de novo uma Legião Urbana para quebrar esta moldura e colocar uma Faroeste Caboclo, de 9 minutos, para tocar”, completa Fê Lemos. 

Dinho não se vê como portador de uma revolução no BRock. Sonha com o surgimento de um novo Renato Russo, mas “tem que ser jovem.” Para ele, o Capital pode ser um exemplo de como envelhecer com dignidade. Saturno, nas mãos dos quase tiozinhos, é uma lição de jovialidade.

SATURNO

Capital Inicial

Preço médio: R$ 28

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